Correio Braziliense, G1 e Folha de S. Paulo noticiaram no final da semana passada o retorno à pauta do Congresso Nacional do projeto de lei que altera a legislação de controle dos agrotóxicos no Brasil. O PL do Veneno já havia sido notícia em fevereiro deste ano por conta da aprovação do texto na Câmara dos Deputados. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), aproveitou o plenário vazio na última quinta-feira, 7 de julho, para fazer o projeto tramitar antes do recesso parlamentar. A votação pode acontecer nesta semana sem que o texto passe pela Comissão de Meio Ambiente da Casa.
O projeto passa para o Ministério da Agricultura responsabilidades relativas ao registro e à fiscalização que hoje estão com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Também substitui o termo “agrotóxicos” da legislação vigente por “pesticidas”.
A escolha de um discurso que atenua os efeitos dessas substâncias é estratégica para os setores representados pela bancada ruralista. Embora se refiram ao mesmo produto, falar de agrotóxicos significa ressaltar os riscos ao ambiente e às populações em contato com seus componentes. Já o termo pesticida se restringe ao efeito pretendido pelo produto – o controle de organismos que “atrapalham” a produção agrícola convencional -, ignorando, portanto, os reais impactos dessa aplicação nos organismos, no solo e na água.
Por sua vez, o jornalismo fica menos acanhado e passa a se referir ao projeto de lei pelo apelido de PL do Veneno, como no caso da matéria de Folha de S. Paulo. Isto é positivo para o interesse público, pois significa que o jornalismo opta por dar destaque aos riscos que envolvem a proposta.
Quando o discurso jornalístico assume a nomenclatura que demonstra os perigos da substância, aproxima-se de um dos pressupostos do jornalismo ambiental: o princípio da precaução. O jornalista ambiental não deve se pretender neutro e deve assumir seu posicionamento em defesa das vidas humanas e não-humanas. Um dos mecanismos para isto é adotar um olhar mais cauteloso diante do desconhecimento sobre os danos permanentes que ações de impacto ambiental, como o uso de agrotóxicos, podem gerar ao planeta.
Por fim, vale destacar que algumas das matérias citadas, como a da Folha de S. Paulo e do G1, escolheram noticiar o PL do Veneno com o avanço de outro projeto de lei no Senado, este sobre a alteração do Código Florestal. Isso evidencia o modo de operação dos detentores do poder: passar a boiada sem que dê tempo da população discutir e entender os riscos que essas decisões representam para a sua vida cotidiana. Resta ao jornalismo contar às pessoas.
Imagem: reprodução site do jornal Folha de S.Paulo
Por Ângela Camana*
Na última semana foi divulgado o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, relatório que reúne dados acerca da violência e suas diversas expressões em todos os estados da federação. A publicação é fruto de um esforço de pesquisa coordenado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e traz informações fornecidas por órgãos oficiais – como forças policiais e secretarias – referentes a 2021. A imprensa em geral celebrou a diminuição no número de mortes violentas no país, que caiu ao menor patamar em uma década. Ainda que os dados apresentados indiquem uma tendência de queda da violência, uma ressalva chama atenção: os homicídios aumentaram na Amazônia.
No mês em que o jornalismo deixou-se afetar pelas mortes brutais de Bruno Pereira e Dom Phillips, tema já abordado neste Observatório, a imprensa não teve a mesma sensibilidade para a interpretação dos dados do Anuário. O próprio relatório dedica um capítulo ao entrelaçamento das pautas da violência e ambiental, indicando a necessidade de interpretarmos os dados de homicídios face ao “desmatamento, o garimpo ilegal, a corrupção, a criminalidade e a intensa presença de milícias e facções do crime organizado”. No entanto, poucos foram os veículos que se dedicaram a isto. Exceção à regra, a Folha enfatizou as disputas desiguais por terra no norte do país, bem como a especificidade das regiões rurais.
Imagem: reprodução do jornal Folha de S.Paulo
A repercussão na imprensa do Anuário até aqui tem se mostrado uma oportunidade perdida para a necessária complexificação da pauta da violência. Na semana em que foram publicizadas imagens que indicam um massacre de indígenas Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, o debate público acerca da relação entre território, ambiente e violência é ainda mais urgente. Se o jornalismo não o fizer, corremos o risco de que as mortes de Dom, de Bruno e de tantos outros e outras sejam apenas mais um dado para a estatística do anuário do ano que vem.
*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.
Imagem: captura da tela do artigo no jornal Brasil de Fato
Por Míriam Santini de Abreu*
Artigo publicado no Brasil de Fato de autoria da juíza federal Cláudia Maria Dadico, integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e da Associação Juízes para a Democracia (AJD), traz um tema relevante para a pauta do jornalismo ambiental: o Assédio Institucional. No artigo, em https://bit.ly/39ON9yR, a juíza aborda o assassinato do jornalista Dom Phillips e do servidor licenciado da Funai Bruno Pereira detalhando o processo que levou o servidor a realizar o trabalho na Vale do Javari sem uma estrutura de segurança e proteção institucionais pelo Estado.
O artigo cita a publicação “Assédio Institucional no Brasil: avanço do autoritarismo e desconstrução do Estado”, da Associação dos Funcionários do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Afipea) e da Universidade Estadual da Paraíba, em https://bit.ly/3NnJDcb, com 806 páginas, que aborda como se dá o processo de desconstrução do Estado nacional, suas organizações, institucionalidades, políticas e servidores públicos. Um dos artigos, assinado por Marcelo Mourão Motta Grossi e Rodrigo Augusto Lima de Medeiros, trata do Assédio Institucional e cerceamento no Ministério do Meio Ambiente no período entre 2019 e 2022. O problema que eles trazem é o seguinte: quais são os limites de atuação dos agentes públicos legitimados nas eleições de 2018 quanto às possibilidades de imposição de uma agenda política antiambiental dentro do órgão ambiental? Os autores mencionam que foram relatados 64 casos de assédio moral nos órgãos ambientais federais a partir de janeiro de 2019.
O tema tem relação direta com a chamada Reforma Administrativa prevista na Proposta de Emenda Constitucional 32, de 2020, cuja tramitação foi barrada pela mobilização do movimento sindical, mas pode a qualquer tempo ser apreciada na Câmara dos Deputados. Entre outras medidas, a proposta, se aprovada, irá ampliar as privatizações e terceirizações no serviço público, acabando com a estabilidade hoje garantida aos concursados.
A Folha de S. Paulo, em 8 de junho, publicou notícia intitulada “Número de servidores ambientais temporários explode sob Bolsonaro”, em https://bit.ly/3NBASM1, que aborda a precarização com dados: houve um salto de 564% no total de temporários nas autarquias ambientais (Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e Jardim Botânico do Rio de Janeiro). O jornal informa que tentou contato com o Ministério do Meio Ambiente sobre o assunto, mas não obteve resposta, o que tem sido a prática comum na gestão de Jair Bolsonaro.
O desvendamento da relação entre Assédio Institucional e Reforma Administrativa nos órgãos ambientais das instâncias estaduais e municipais é uma pauta relevante para veículos e jornalistas dedicados à cobertura sobre meio ambiente. Para viabilizá-la, pode haver uma articulação combinada de veículos de diferentes estados. Parafraseando a juíza federal Cláudia Maria Dadico no final de seu artigo, é uma tarefa onerosa, mas não impossível.
*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo
Imagem: Reprodução do site do jornal britânico The Guardian
Por Sérgio Pereira*
A semana foi marcada pela confirmação dos assassinatos de Bruno Pereira e de Dom Phillips. A notícia virou manchete dos principais jornais do País e teve imediata repercussão internacional, principalmente pela morte do jornalista britânico, que escrevia para o The Guardian e já tinha colaborado com Washington Post, The New York Times e Financial Times. Ambos eram conhecidos pela dedicação na preservação da floresta amazônica e na defesa das causas indígenas. E por isso foram mortos.
Os órgãos de segurança conseguiram elucidar o desaparecimento das vítimas, até o momento já prenderam três acusados (dois admitiram o crime e um deles ajudou a encontrar os corpos) e apontam que mais prisões poderão ocorrer. Espera-se que muitas dúvidas sobre o duplo homicídio ainda sejam respondidas na investigação, inclusive o motivo, ponto ainda não esclarecido oficialmente, mas que está relacionado ao envolvimento dos dois na defesa das áreas indígenas do Vale do Javari.
O foco de nossa reflexão aqui, no entanto, não se fixa no trabalho policial, mas sim sobre a cobertura dedicada ao caso pela imprensa nacional. Caberá aos jornalistas, por exemplo, tentar elucidar um ponto importante que ainda está nebuloso e que não será respondido nas páginas do inquérito criminal: a razão da dispensa de Bruno Pereira da função de coordenador-geral do setor de Índios Isolados e de Recente Contato da Fundação Nacional do Índio (Funai).
O servidor concursado da Funai foi tirado da função que ocupava no Vale do Javari em outubro de 2019 e depois removido para Brasília após comandar operações bem-sucedidas contra a pesca e o garimpo ilegais. Calcula-se que essas ações resultaram na destruição de mais de 50 balsas usadas por garimpeiros em terras indígenas. Como disse o repórter André Trigueiro em matéria do Jornal Nacional do dia 16 de junho, “o sucesso no combate aos criminosos, em vez de render uma promoção, lhe custou o cargo”.
Funcionários da Funai afirmaram à revista Carta Capital, em 9 de junho, que o desaparecimento do indigenista (quando ainda havia esperança de encontrar os dois com vida) poderia ter sido evitado se ele estivesse trabalhando com o apoio do aparato estatal. Os dois estavam sem seguranças quando foram mortos.
Sérgio Moro, ministro da Justiça na época, lavou as mãos e já disse não ter nada a ver com a exoneração. O ex-ministro da Justiça substituto Luiz Pontel de Souza precisa ser ouvido pela imprensa. É dele a assinatura na portaria que retirou o indigenista da função de coordenador-geral do setor de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai. Ele precisa dizer de quem foi a ordem para o afastamento de Pereira do cargo que ocupava na Funai do Vale do Javari.
O jornalista Carlos Madero, do portal UOL, revelou em postagem do dia 15 de junho que o indigenista foi exonerado 15 dias após uma megaoperação contra o garimpo ilegal no sudoeste do Amazonas. Conforme Madero, três dias após a operação, representantes dos garimpeiros foram recebidos em Brasília por integrantes do governo Bolsonaro, inclusive pelos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. O conteúdo da reunião não foi divulgado.
O Jornalismo Ambiental nos ensina que é preciso dar “ênfase na contextualização na tentativa de expor as relações entre causas e consequências, assim como das articulações dos diferentes campos sociais”, além de assumir o “comprometimento com a qualificação da informação, ou seja, preocupação em construir notícias que desvelem as conexões entre economia, política, cultura, ambiente, etc., que nem sempre são visíveis, e indiquem soluções, saídas” (GIRARDI; LOOSE; SILVA, 2018). Neste caso específico, não se trata apenas das mortes de Pereira e Phillips, mas toda uma política de desmonte dos órgãos de fiscalização na Amazônia e, por consequência, de endosso à destruição da floresta e à perseguição aos povos indígenas. Isso não pode ser esquecido em nenhum momento durante essa cobertura.
Outros dois pontos também merecem reflexão por parte dos principais veículos brasileiros. A primeira, é sobre como está sendo definida a pauta ambiental nas regiões mais distantes do País. A grande imprensa precisa ampliar suas frentes de reportagem, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste[1][2] . É preciso sair da mera repetição sobre o aumento de hectares devastados e voltar a atenção sobre essas zonas de conflito, sobre quem patrocina e apoia essas invasões em áreas protegidas e como o Estado tem atuado para resolver o problema. A mídia hegemônica precisa fazer da luta de Pereira e Phillips a sua luta. Essa será a melhor homenagem que os jornalistas podem prestar não somente aos dois, mas a todas as vítimas dessa guerra deflagrada quase sempre longe dos olhos dos veículos de comunicação.
Vale também lembrar a iniciativa do Rainforest Jornalism Fund, que possibilitou a ida de repórteres da Agência Pública até a região. Como também a cobertura de veículos como Amazônia Real e Mídia Índia, que contribuíram para esclarecer vários pontos, inclusive o episódio constrangedor protagonizado pela embaixada brasileira.
Por fim, um elogio para as capas de dois impressos brasileiros, Correio Braziliense e O Estado de Minas, por suas edições do dia 16 de junho. Os jornais fugiram do corriqueiro e buscaram atrair a atenção dos seus leitores para a importância da notícia nas suas primeiras páginas. Uma das finalidades do jornalismo é justamente essa, como nos lembra Reginato (2019): “Ajudar o leitor a entender seu tempo, orientando-o sobre como viver no mundo contemporâneo e como dar sentido ao tempo presente”. Tarefa que, por sinal, não será fácil no futuro: explicar para as próximas gerações esse período específico do Brasil.
Imagem: Reprodução parcial das capas de O Estado de Minas e Correio Braziliense
*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente
Referência
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho et al. Jornalismo ambiental: teoria e prática (livro eletrônico) – Dados eletrônicos. Porto Alegre: Metamorfose, 2018.
REGINATO, Gisele Dotto. As finalidades do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. Florianópolis: Insular, 2019.
Imagem: Captura de tela – Repórter Giovana Girardi visitou o local do maior acidente em mina de carvão ocorrido no Brasil em 1984. Imagens gravadas no local estão disponíveis no site do podcast Tempo Quente: https://www.radionovelo.com.br/tempoquente/.
Roberto Villar Belmonte*
Quem ganha com a mudança do clima no Brasil? Esta é a pergunta que a repórter de ciência e meio ambiente Giovana Girardi começou a responder semana passada com Tempo Quente, novo podcast da Rádio Novelo composto por oito episódios que serão publicados semanalmente até 26 de julho. No primeiro, ela explica em quase uma hora de programa como o carvão mineral ainda queima por aqui.
Girardi, ex-Estadão, segue o rastro do dinheiro sujo, regra de ouro do jornalismo investigativo. O raciocínio é simples. As políticas que visam a transição do modelo de desenvolvimento predador para outro que leve em consideração as riquezas ambientais do Brasil não avançam porque a economia fóssil e do desmatamento dá dinheiro. Trocando em miúdos: tem gente que lucra com a mudança do clima.
Apesar de ser uma obviedade, o jornalismo patrocinado por grandes corporações empresariais nunca enfrenta o tema de frente. Essa parece ser a grande contribuição de Tempo Quente, um podcast jornalístico – realizado com recursos do Instituto Clima e Sociedade e Samambaia Filantropias – que deixa à mostra a raiz do problema exposta pela técnica do “siga o dinheiro”.
Alerta vermelho
Intrigada com o Programa para Uso Sustentável do Carvão Mineral lançado pelo Ministério de Minas e Energia em agosto do ano passado, Giovana Girardi destrincha no primeiro episódio de Tempo Quente o poderoso lobby do carvão instalado em Santa Catarina e com trânsito fácil em Brasília. A repórter entrevista fontes do setor, contextualizando e interpretando as informações para os ouvintes.
Nesta interpretação, Giovana Girardi se posiciona e assume seu lado. Segundo ela, imparcialidade jornalística não pode ser confundida com dar pesos iguais a coisas que não são iguais. “Se eu tenho uma pessoa dizendo que está chovendo e outra que diz que não está chovendo, o papel do jornalista não é dizer que essa história tem dois lados. O papel dele é abrir a janela e ver se está chovendo ou não.”
E foi o que ela fez, abriu a janela para mostrar aos ouvintes a indústria do carvão. Para isso foi até Santa Catarina conferir de perto uma mina considerada modelo em Treviso, no entorno de Criciúma; o Complexo Termoelétrico Jorge Lacerda em Capivari de Baixo; e as ruínas da mina Santana no município de Urussanga que explodiu em 1984 deixando 31 mineiros mortos e um rio amarelo de tanta contaminação.
Novo paradigma
A Rádio Novelo faz parte de um ecossistema midiático emergente que revigora a prática do jornalismo narrativo em áudio no país. Não seria exagero dizer que esta produtora criada em 2019 no Rio de Janeiro está ajudando a consolidar um novo paradigma com suas produções próprias e em parceria. Considero Praia dos Ossos a principal referência. Tempo Quente de Giovana Girardi inspira-se na mesma estética.
Estes podcasts narrativos têm roteiros em primeira pessoa, narrador posicionado e presente no local dos acontecimentos gravando inclusive os bastidores da produção, o que ajuda o ouvinte a imaginar a cena descrita. Outra característica importante é a qualidade da edição de áudio. Chama a atenção no expediente destas produções a enorme equipe envolvida nos projetos, de técnicos a consultores.
Tempo Quente teve a consultoria de Cristina Amorim e Claudio Angelo, dois experientes jornalistas ambientais brasileiros, assim como a própria Giovana Girardi responsável pela reportagem e apresentação do novo podcast da Rádio Novelo. Ela também assina o roteiro em parceria com Paula Scarpin e apoio de Bárbara Rubira, Flora Thomson-DeVeaux e Arnaldo Branco.
Amazônia invisível
Uma nova produção ambiental de jornalismo em áudio da Eder Content foi anunciada na semana passada. “Depois de 18 meses de trabalho, 86 entrevistas e 4 mil quilômetros rodados no sudoeste do Pará, a série de podcasts ‘Amazônia Invisível – Uma história real’ começa a ser transmitida no próximo dia 23 de junho pela plataforma da Storytel”, informou o jornalista Flávio Ilha, um dos integrantes da equipe. A conferir.
*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor universitário e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Print de mapa apresentado no telejornal local da TV Globo Nordeste em 25 de maio de 2022
Por Eloisa Beling Loose*
Desde a última semana estamos acompanhando a cobertura diária de meios de comunicação sobre as inundações e deslizamentos de terra que atingiram o Nordeste brasileiro, sobretudo a região metropolitana do Recife. A Folha de Pernambucofez uma retrospectiva dos eventos trágicos e informou que esta foi a maior tragédia do século no estado. Mais de 120 vidas foram perdidas, a maioria delas vivia em áreas de risco e em situação de vulnerabilidade. Os impactos econômicos ainda estão sendo contabilizados, mas um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) revela que, nos últimos seis meses, as cidades nordestinas afetadas por inundações e deslizamentos somaram mais de R$ 3,1 bilhões de prejuízos – e essa última semana de chuvas ainda não está na conta.
Já questionamos aqui neste Observatório o quanto é preciso que o jornalismo ultrapasse a cobertura factual e avance para o debate do contexto – e não apenas a partir das tragédias. Prevenção, de fato, deveria ser pauta antes dos avisos de um possível evento meteorológico ou hidrológico. Quando os fenômenos são iminentes, o tempo de ação é escasso e as mudanças estruturais já não são possíveis. Trabalha-se com o que é possível: a redução de danos.
O que verificamos, ano após ano, é que a prevenção é lembrada quase sempre no anúncio do desastre. Nesse ínterim, os alertas de chuvas fortes e de seus riscos costumam ser noticiados, sobretudos nos veículos locais. Há um chamamento para que a população saia das áreas mais afetadas para preservar a vida. Mas, isso é preparação antecipada ou somente uma estratégia paliativa para evitar os piores cenários?
É um equívoco entender que a prevenção de desastres se resume à emissão de alertas um pouco antes dos acontecimentos. O G1 destacou a fala de um especialista, que foi enfático: “Não adianta receber o alerta e não saber o que fazer”. Então, surge a reflexão: quem se comunica com essa população periodicamente? E de que forma? Quando ela é realmente ouvida? Qual é o espaço que o jornalismo dá para questionar planejamento urbano? E as políticas públicas de moradia? Quais são as condições reais para a defesa civil trabalhar no âmbito da prevenção?
Outro ponto a ser destacado nessa cobertura é a existência da associação do desastre com as mudanças climáticas. Repete-se que com o aumento médio das temperaturas eventos climáticos extremos como esse podem ser mais frequentes e mais intensos – o que reforçaria, em teoria, a aceleração de implementação de medidas de adaptação. Recife é a capital mais vulnerável às mudanças climáticas no Brasil e a 16ª cidade do mundo, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, o que foi noticiado no UOL, n’O Globo e em outros veículos. Mesmo assim, o enfrentamento aos riscos climáticos segue muito aquém do esperado.
Em matéria publicada no Observatório do Clima, assinala-se a vanguarda de Recife, já que, em 2019, ela se tornou a primeira capital brasileira a reconhecer o estado de emergência climática global e realizar um amplo diagnóstico dos riscos visando formas de adaptação. Então, os gestores públicos possuíam conhecimento sobre o que deveria ser feito, mas interesses de curto prazo, como as reeleições, acabam por ser priorizados em detrimento de projetos mais complexos, como a retirada de pessoas de áreas irregulares e sem a infraestrutura adequada.
Cabe ao jornalismo fiscalizar o poder público e permitir que a audiência conheça de que maneira nossos representantes estão compreendendo (ou não) a emergência climática e atuando para mitigar suas consequências. A prevenção deve ser uma pauta periódica, de modo que a colaborar com um novo entendimento de como devemos agir em tempos de intensificação de riscos e desastres.
Ainda sobre esse o papel do jornalismo em casos de desastres, destacamos o papel pedagógico da imprensa quando há questionamento do público sobre medidas de precaução. Na segunda quinzena de maio, a mídia noticiou a chegada da Tempestade Yakecan no Rio Grande do Sul, alertando seus riscos e informando sobre medidas preventivas, como a antecipação do fim de expediente ou cancelamento de atividades. Felizmente, as piores previsões não se concretizaram, o que gerou uma (falsa) impressão da população que houve um alarde desnecessário. A jornalista Juliana Bublitz, de GZH, no dia seguinte, lembrou aos leitores que precisamos reconhecer a atuação dos gestores diante dessas previsões e aprender mais sobre a prevenção.
*Jornalista, doutora em Comunicação e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.
Este ano de 2022 é histórico, pois se celebra os trinta anos da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO- 92, ocorrida no Rio de Janeiro, com a presença de chefes de estado de 178 países, promovida pela Organização das Nações Unidas no centro de convenções Riocentro. Os eventos internacionais sobre meio ambiente são um importante foco para a realização de pautas em jornais do mundo inteiro. Há 50 anos, em Estocolmo, o Secretário-Geral do evento Maurice Strong utilizou a expressão ecodesenvolvimento pela primeira vez, na realização da primeira Cúpula sobre Meio Ambiente. Naquela data, foi instituído o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). No entanto, havia menor adesão mundial à temática e os próprios meios de comunicação não estavam tão desenvolvidos quanto ao acesso e à visibilidade. Por isso, somente em 1992 o tema teve maior projeção em nível global. Naquela última década do Século XX, a degradação ambiental já assustava, criando-se, desta forma, uma onda de debates em torno do termo “desenvolvimento sustentavel”, que surgiu poucos anos antes, pelo Relatório Brundtland.
Quando tratamos de meio ambiente na comunicação, o grande fluxo de jornalistas que acompanharam a Rio 92 é considerado um marco histórico para o acompanhamento das políticas ambientais pela imprensa. Assim como a preparação para o evento mobilizou movimentos sociais que ocuparam o Aterro do Flamengo no Fórum Global, também jornalistas que acompanhavam a temática se juntaram para a organização de Núcleos de Ecojornalistas pelo país. Neste contexto surge o Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS) – um dos mais atuantes e ainda em atividade.
Para colaborar com as reflexões sobre avanços e recuos na perspectiva do jornalismo ambiental, e especialmente em relação à imprensa brasileira, o NEJ-RS promove uma Terça Ecológica especial. Na Semana do Meio Ambiente, com o tema “Os 30 anos da ECO 92”, o debate será no dia 31 de maio de 2022, às 19h. O evento terá convidados especiais, Francisco Milanez (biólogo, arquiteto e urbanista e diretor da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan) e Sebastião Pinheiro (engenheiro agrônomo e florestal), mediados pelas jornalistas Vera Damian e Débora Gallas. Acesse aqui a transmissão ao vivo.
Também na mesma linha, o NEJ-RS lança uma série de entrevistas com jornalistas brasileiros que fizeram a cobertura da ECO 92: Carlos Tautz, Regina Scharf e Roberto Villar Belmonte. Os vídeos estarão disponíveis no canal da EcoAgência no Youtube. A coordenação é de Vera Damian.
Nessas entrevistas, há visões amplas e contextualizadas sobre as dificuldades e conquistas do período. Carlos Tautz faz uma análise política dos aspectos do jornalismo e do período histórico tanto de 1992 quanto do Brasil dos dias atuais, discorrendo de forma crítica sobre o que ele chama de “giro geopolítico” que se avizinha. Neste cenário, ele acredita que o Brasil terá novamente papel relevante e necessidade de posicionamento, por consequência, afetando as pautas sobre meio ambiente. Regina Scharf conta a história da cobertura de 1992, de sua experiência profissional de jornalista e do impacto deste evento histórico, explicando ainda sobre seu Projeto Nova Mata, que busca mapear iniciativas de restauração ecológica e recursos como fornecedores de sementes e mudas de espécies nativas onde reside, nos Estados Unidos. Já Roberto Villar Belmonte lembra que sua estreia em grandes coberturas se deu naquele evento, pois era um foca (recém formado). A experiência marcou fortemente sua trajetória como repórter, jornalista e pesquisador. Falando da ECO 92 como acontecimento de máxima importância, em que foram discutidas as bases da mudança do mundo, tratando das temáticas que seriam negociadas mundialmente dali em diante, como sustentabilidade, biodiversidade, economia e mudanças climáticas.
Em trinta anos, mudou o Brasil e mudou o mundo. O Sexto Relatório do IPCC (2021-2022), por exemplo, fez um alerta vermelho sobre o caos climático que estamos já vivenciando e que se agrava, tanto mais se demora em modificar o modelo de sociedade baseado no consumo de bens, insustentável, além de um desenvolvimento que é, em verdade, promotor de desigualdades. Fizemos uma abordagem sobre o tema da justiça climática, debate ainda incipiente na cobertura (https://jornalismoemeioambiente.com/2021/08/16/as-mudancas-irreversiveis-no- clima-precisam-incluir-o-debate-sobre-a-justica-climatica/), bem como sobre como precisamos incluir reportagens sobre a opção inadiável de consumo consciente (https://jornalismoemeioambiente.com/2020/04/27/habitos-de-consumo-em-tempos- de-pandemia/).
Na comunicação e no jornalismo, houve aceleração que modifica inclusive a relação das pessoas quanto às informações recebidas. Entre os desafios, a checagem diária de informações falsas, inclusive oriundas de governos que promovem o desmonte de políticas ambientais. Algo ainda não resolvido, na imprensa tradicional, seria o fato de que “não conseguiu achar uma fórmula de fazer jornalismo ambiental livre de seus anunciantes”, como afirma Belmonte, na série do NEJ-RS. Sobre isso, também vale reler o texto sobre conteúdos patrocinados.
Em três décadas certamente há avanços e inúmeros projetos sobre meio ambiente povoaram revistas, jornais, sites e organizações neste período. Um destaque atual é o jornalismo do InfoAmazônia . Outra vertente, une Literatura e jornalismo, em livros reportagem, também já citados neste Observatório . Bons exemplos de pautas aprofundadas demonstram possibilidades de um padrão jornalístico de ótima qualidade quanto à informação ambiental .
Neste contexto, a esperança decorre de que há mais e melhores ferramentas para o jornalismo exercer seu papel social, entre estas a própria formação especializada que traz melhor entendimento das pautas e indica aprofundamentos. Desta forma, o jornalismo tem condições de construir conhecimento relevante sobre a informação ambiental para a cidadania. Que fiquemos atentos, firmes e fortes, em apoio às pautas ambientais, pois não teremos mais trinta anos para pretender fazer as mudanças necessárias frente ao colapso climático.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br
O Porto de Rio Grande é o alvo para a implantação das usinas de produção de H2V, segundo o governo gaúcho. Imagem: Reprodução de Portos RS
Eliege Fante*
A ordem do dia na agenda governamental e empresarial, seguida pela imprensa, é a descarbonização da economia. Acompanhar as ações e acordos entre esses dois setores, ouvindo as fontes que ocupam os cargos mais altos – na ilusão de garantir a precisão das informações – é a regra nas redações dos meios de comunicação que concentram audiências. Contudo, observa-se que essas informações veiculadas não têm apercebido os públicos diante do desafio humanitário de impedir o aumento de 1,5 ºC na temperatura média da atmosfera. A seguir, algumas reflexões após análise dessa cobertura pelos jornais de referência no Rio Grande do Sul (RS).
Não é novidade a crença no uso das tecnologias, em especial aquelas em desenvolvimento por pesquisas científicas, como uma das principais formas de responder às questões que a natureza “coloca”, dentro da visão de um ser humano apartado e senhor dela. Contudo, tem-se um problema quando o foco na descarbonização das atividades produtivas, responsáveis pelo excesso monumental de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, oblitera a relevância da mitigação e adaptação, para além das novas tecnologias, ou seja, desde a preservação e conservação da biodiversidade,incluindo-se os povos originários, as comunidades tradicionais e as populações locais, com os respectivos modos de viver, por sua vez, menos dependentes das pegadas coloniais ecológica e hídrica.
Por isso, entende-se que, este foco na descarbonização da economia é o que impede os jornais Correio do Povo e Zero Hora, de reportar a ameaça que representam os projetos de implantação de eólicas offshore na Lagoa dos Patos, devido aos impactos sobre a biodiversidade e as comunidades pesqueiras artesanais. Trata-se do último território onde ainda há pesca artesanal no estado, com importante percentual produtivo e 13.517 pescadores cadastrados. Essas informações constam em parecer técnico e podem ser obtidas com outras fontes oficiais, autoridades nas áreas científicas da Ecologia, Biologia e Humanas.
De fato, fontes econômicas e governamentais têm divulgado ações do Governo do RS sob o referido foco: assinatura de memorando para produção de hidrogênio verde (CP, 24/03/2022); diálogo sobre H2V com International Finance Corporation em Washington (CP, 09/03/2022); assinatura dememorando para produzir H2V (CP, 14/12/2021). Essas notícias retratam o avanço das negociações entre o governo Eduardo Leite (PSDB) e grandes empresas transnacionais visando descarbonizar a economia gaúcha e a dos países para os quais a produção desta tecnologia, ao ser exportada, poderá vir a contribuir (já que os estudos sobre o armazenamento deste vetor, pois hidrogênio não é combustível, ainda não são conclusivos). O hidrogênio “verde” ou H2V é assim chamado por ser produzido a partir de fontes energéticas renováveis, em especial, a geração eólica.
Na mesma linha, apenas com um maior número de notícias selecionadas** pelo buscador, o jornal Zero Hora exaltou os investimentos citados pelas fontes: “Produção de energia eólica offshore tem potencial de US$ 200 bi, diz ministro” (ZH, 18/05/2022); “Meio Ambiente vai à Dinamarca para ‘vender’ agenda verde do Brasil” (ZH, 03/04/2022); “Brasil terá papel fundamental na transição energética, diz vice-presidente do BEI” (ZH, 16/03/2022); “De energia a fertilizantes, porto de Rio Grande prospecta R$ 9 bilhões em investimentos” (ZH, 22/02/2022); “Projeto de hidrogênio verde do RS entra no radar de investidores europeus” (ZH, 01/02/2022). Ambos os jornais não se permitiram considerar os impactos das usinas eólicas onde já funcionam no RS, tampouco verificar se a Lagoa dos Patos é um curso de água que pode ser caracterizado como offshore, que significa em águas profundas. Levando em conta que a profundidade da Lagoa dos Patos média é de três metros e máxima de sete metros, será que a tecnologia das eólicas offshore, proveniente dos países do Norte global, pode ser transferida para o Rio Grande do Sul, na proposta do governo, tendo em vista que as eólicas offshore em águas rasas alcançam 30 metros de profundidade? As notícias citadas, baseadas em jornalismo declaratório, não difundem o que há de concreto: (1) que a tecnologia do H2V segue em estudo, (2) que há populações sob o risco de serem afetadas pelas eventuais eólicas “offshore” ou outro nome ajustado à profundidade da Lagoa dos Patos,(3) que a imprensa de referência, ao seguir a estatal gaúcha, divulgou a assinatura de apenas dois memorandos com empresas, sendo que eram 15 assinados de H2V, até 09 de fevereiro de 2022.
Quando os públicos da imprensa hegemônica virão a saber um pouco mais do que está em jogo no contexto das medidas de descarbonização da economia? Aspira-se que a resposta não seja “em breve”, assim como aquela do governo federal, (reconhecidamente pouco democrático) sobre a chamada para realizar pesquisas em combustíveis e H2V, em recente notícia veiculada (ZH, 20/05/2022).
* Eliege Fante é jornalista, pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação e associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS).
**Totais sobre as buscas nos sites dos jornais com a palavra-chave hidrogênio verde: CP, 13 notícias, sendo duas de 2022; ZH, 24 sendo 14 de 2022.
Manchetes ressaltam previsão de frio intenso, neve e chuva congelante.
Patrícia Kolling*
Nos sites e jornais, já no final da semana passada, se multiplicavam as notícias sobre a previsão de frio histórico para os próximos dias. As previsões já estão se concretizando e o frio chegando, e esta é uma excelente oportunidade para os meios jornalísticos trazerem à tona a pauta das mudanças climáticas. Os eventos extremos, apontados pelo IPCC como uma das características das mudanças no clima, estão se tornando rotina no Brasil e já atingem milhares de pessoas. Em janeiro e fevereiro foram as chuvas intensas nas regiões Sudeste e parte do Nordeste e a seca na região Sul, no ano passado os períodos de estiagem foram prolongados em regiões como Centro-Oeste e Amazonia e o frio foi intenso no Sul e Sudeste. Voltando ao frio desta semana, por enquanto, os enfoques das notícias têm permanecido no factual com informações sobre a temperatura e explicações sobre alguns fenômenos que devem acontecer.
Como o jornalismo necessita do factual e de fatos concretos para tratar de temas complexos como as mudanças no clima, esperamos que nesta oportunidade, a mídia consiga ir além das notícias acima, das fotos bonitas de geada e neve e do inusitado frio no Centro-Oeste e Norte. É necessário explicar a relação do fenômeno com o aumento da temperatura global, e a partir de um olhar holístico, trazer ao debate os impactos desses fenômenos na saúde das pessoas, na produção e no preço dos alimentos, no meio ambiente como um todo, alterando padrões de comportamento da fauna e flora, além dos impactos sociais de pessoas que não têm como se proteger do frio. O tema já foi abordado pelo Michel Misse Filho, algumas semanas atrás, neste observatório quando ele destacou que além dos dados de relatórios e projeções é necessário que os meios de comunicação tragam ao debate “o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas”.
Entre os “emaranhados” deste tema, estão as estreitas relações entre as mudanças no clima e o agronegócio. Ao mesmo tempo, que o agronegócio tem sido o responsável pelos principais índices de desmatamento e pela emissão de gases do efeito estufa, também tem sentido no bolso os prejuízos dos eventos extremos (secas prolongadas, frios e geadas fora de época, imprevisibilidade de temporais e ciclones) que afetam diretamente as lavouras e a criação de animais. Mexer nesses temas exige pesquisa, disposição e dedicação de repórteres e editores, mas sem dúvida, poderia render reportagens com consistência para que leitores e telespectadores pudessem entender o fenômeno a curto e longo prazo.
*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Araguaia
Uma nova ferramenta online, o Monitor da Fiscalização do Desmatamento, obteve ampla divulgação da imprensa, no início de maio. O levantamento permitiu constatar que cerca de 98% dos alertas de desmatamento registrados no Brasil desde janeiro de 2019 não foram alvos de fiscalização por órgãos do governo federal.
O Monitor é desenvolvido pelo MapBiomas, uma iniciativa em rede formada por especialistas em sensoriamento remoto e mapeamento de vegetação. De acordo com dados da plataforma, as ações de fiscalização do governo aconteceram em apenas 13,1% da área total desmatada no período, o equivalente a 536 mil km². Para se ter uma ideia, os alertas não fiscalizados apontados pelo estudo representam 3 milhões de km². Para chegar ao índice da impunidade, o MapBiomas cruzou informações disponibilizadas por órgãos federais e estaduais sobre as autorizações de supressão da vegetação e ações empreendidas para combater o desmatamento ilegal. Ou seja, mobilizou dados públicos e de conhecimento do governo federal. Importante ressaltar que, para este primeiro levantamento, o Monitor encontrou informaçõesatualizadas e em formato adequado apenas para cinco estados (GO, MT, MG, PA e SP) além das disponibilizadas pelo governo federal.
Na matéria da AFP, o texto curto traz menos dados quantitativos sobre o levantamento, mas apresenta a relação do governo Bolsonaro com o desmatamento ilegal, bem como a sua ligação com o agronegócio.
A cobertura nacional, via de regra, seguiu um padrão uniforme: relatou os dados, apresentou a plataforma e seu funcionamento e ouviu os principais responsáveis pelo levantamento e pelo MapBiomas. O Estadão e a Folha de S. Paulo conversaram com representantes dos estados. Houve a tentativa por parte dos veículos de contato com o Ministério do Meio Ambiente, sem sucesso, como tem sido praxe na atual gestão federal.
Pode-se dizer que a lição de casa foi cumprida -no sentido de mostrar o problema, ouvir as fontes oficiais e especialistas, informar com clareza. Contudo, mais uma vez vemos a cobertura dos veículos de forma burocrática em relação a uma informação relevante do ponto de vista da política ambiental assumida no Brasil. Nem o jornal O Eco, tradicionalmente dedicado às temáticas ambientais, conseguiu dar o tratamento que a pauta merece em razão de sua importância.
As fontes ouvidas reforçam a crítica que o jornalismo ambiental faz às práticas do jornalismo “tradicional”, que privilegia especialistas e representantes governamentais em detrimento de outras vozes envolvidas no problema. Para que haja uma pressão da sociedade civil e não uma normalização da impunidade, promovida por números frios e sem contextualização, é preciso ouvir quem já sofre pela falta de fiscalização do desmatamento.
Além disso, as matérias também poderiam apresentar um caminho sobre o que fazer com essas informações. Quais instâncias representativas podem ser acionadas diante da inação do governo? Quanto em arrecadação de multas e o que isso gera para o povo está sendo deixado de lado, por exemplo?
Ampliar o olhar, a partir de uma perspectiva sistêmica que apresenta o humano por trás dos dados, é desafiador: as redações cada vez mais enxutas e o tempo escasso para a produção jornalística são fatores relevantes. Entretanto, cabe ao jornalismo complexificar as pautas e desvelar relações, produzindo narrativas que permitam o engajamento da sociedade.
*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com