Observatório de Jornalismo Ambiental

Indústria têxtil: produção excessiva ou necessidade de reciclagem?

Imagem: Print da reportagem exibida no Fantástico com os caminhos possíveis para o problema de destinação de roupas e sobras de tecidos.

Por Eloisa Beling Loose*


Há muito lixo têxtil no mundo. A reportagem especial do Fantástico do último domingo, de quase 15 minutos, apresentou milhões de toneladas de roupas e tecidos que sobram da fabricação das peças e são acumuladas em praias ou desertos, sem nova utilidade para a humanidade e responsáveis por sérios prejuízos ambientais. As imagens são impactantes.

A reportagem trata dos impactos desse descarte inadequado e assinala que a decomposição pode demorar muito: as malhas de algodão, por exemplo, podem levar 20 anos enquanto as de materiais sintéticos, como poliéster, podem persistir no ambiente por até 400 anos. Entretanto, a causa da produção massiva recebe pouco enfoque na reportagem. Por que mesmo são produzidas tantas peças? Quem precisa de tanta roupa? Qual é o tamanho do lucro que está por trás de tanto desperdício?

De acordo com dados do relatório Fios da Moda, realizado pelo Instituto Modefica e FGV, são produzidas quase 9 bilhões de novas peças por ano no Brasil, o que representa uma média de 42 novas peças de roupa por pessoa. Se os recursos naturais são finitos, por que estamos produzindo em uma escala tão desproporcional às nossas reais necessidades?

O foco na reciclagem e reaproveitamento, escolha da reportagem, é necessário, porém não dá conta das razões irracionais que promovem uma cultura de consumismo diretamente associada à degradação da natureza em prol do lucro. A economia circular, baseada na otimização dos recursos a partir da redução, reutilização, recuperação e reciclagem, é bem-vinda, mas será a real solução para mitigar os danos de um sistema massivo que propositalmente se torna obsoleto em um curto tempo?

A responsabilidade pelo descarte da indústria têxtil é questionada, citando a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, segundo a qual os geradores teriam que cuidar da destinação adequada das sobras, mas fica claro que, na prática, a lei não está sendo cumprida. Uma das fontes ouvidas, representante do setor têxtil, busca desviar o assunto da responsabilização. O poder público repete que não há condições para fiscalizar todas as empresas.

O consumo exacerbado, motivado pelos baixos preços e desejo incessante de sempre vestir algo novo, acarreta um ciclo constante de compra, uso e descarte. Esse sistema, conhecido como fast fashion, tem contribuído para as mudanças das paisagens naturais que recebem toneladas de resíduos têxteis e, mesmo com iniciativas positivas (como a experiência do Clube de Mães no Brasil e do mercado de Kantamanto em Gana, sinalizadas pela reportagem), não consegue romper com a raiz do problema.

A rápida descartabilidade dos produtos, cerne de muitas indústrias nos dias de hoje, além de ser dependente da exploração constante dos recursos da natureza, deriva em montantes sem precedentes de produtos subutilizados. Enquanto a exploração seguir sendo economicamente vantajosa, não haverá razão para que o mercado opte por materiais reciclados. Ao naturalizar o modus operandi da indústria, apenas respostas paliativas e sempre insuficientes serão possíveis.

* Jornalista, pesquisadora e professora. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Mudanças climáticas: as crianças são o futuro e elas merecem ter um


Por Carine Massierer*

Reportagem recente (Mudanças climáticas podem comprometer o futuro de milhões de crianças (educacaoeterritorio.org.br )) do Programa Educação e Território, da Associação Cidade Escola Aprendiz de São Paulo, traz uma reflexão importante: as crianças em todo o mundo estão expostas aos impactos da crise e das mudanças climáticas. Isto se faz ver em inundações, temperaturas extremas, aumento de doenças respiratórias e na falta de aceso a alimentos livres de contaminantes, situações que não foram vivenciadas pelas gerações anteriores.

Imagem: Captura de tela do site Educação e Território

A matéria, assim como outras que suscitam este debate, foi impulsionada pela publicação do relatório (The Climate Crisis is a Child Rights Crisis | UNICEF) da Unicef sobre o índice de Risco Climático das Crianças (IRCC), em agosto de 2021. Com estes dados no horizonte, durante a COP26 em novembro, pais e mães de 44 países (incluindo o Brasil) assinaram uma carta pedindo urgência ao fim do financiamento de todas as novas explorações de combustíveis fósseis. Para além dos alertas provenientes dos relatórios e da pressão pública por mudanças, o aumento de temperaturas extremas neste verão no Brasil e a rigidez do inverno no hemisfério norte ampliam as preocupações para com o futuro das crianças, especialmente para quem acabou de dar à luz um filho.

Diante disto, grandes veículos como a Folha de São Paulo estão trazendo reportagens que retratam esta preocupação com o futuro da infância frente as mudanças climáticas, como pode ser acompanhado no link: Famílias mudam hábitos e vão até a Justiça para salvar filhos da crise do clima – 01/01/2022 – Ambiente – Folha (uol.com.br). A publicação mostra mudança de hábitos por parte das famílias e da busca junto a Justiça da garantia de salvação dos filhos da crise climática. A BBC Brasileira também traz em janeiro manifesto de crianças por seus “direitos” de igualdade de uso do ambiente nas mesmas condições que seus pais. Disponível em: As crianças que estão processando 33 países na Europa – BBC News Brasil

O que se pode perceber é que a imprensa tem ampliado não só os espaços de reportagens sobre as mudanças climáticas, mas tem contribuído para a publicização da reivindicação dos pais por condições de vida mais sustentáveis no planeta – na expectativa de que a infância tenha uma garantia de futuro. E, ao contrário do que prevalecia até pouco tempo atrás, quando somente os cientistas ou adultos tinham um lugar de fala nas manifestações e nos textos jornalísticos, a infância passa a ter um espaço também. Tímido ainda, mas que vem contribuindo para a discussão que já está posta de que as mudanças climáticas existem e afetam a todos.

Em uma publicação de 2013, intitulada Jornalismo e direitos humanos de crianças e adolescentes, a jornalista Jaqueline Almeida, já alertava que dentre os desafios para a garantia de direitos humanos estão a pobreza, desigualdades sociais, políticas de saúde, educação e proteção social ineficientes ou inexistentes, meio ambiente – escassez ou excesso de água, grandes desastres, mudanças climáticas, etc. Sendo assim, as mudanças do clima exigem que a infância seja considerada pela sociedade, pelos seres humanos em suas ações – e tambémpelo Jornalismo. 

Não é de hoje que pesquisadores da comunicação, da área da saúde, ciências naturais e da educaçãotrazem a preocupação da emergência climática e da necessidade de educação das crianças e jovens para o entendimento de que as ações humanas impactam o meio ambiente e estes efeitos afetam a humanidade. Cilene Victor (Vista de A opacidade do sofrimento humano decorrente de desastres sob a perspectiva do jornalismo humanitário (udea.edu.co), pesquisadora da área da comunicação, acredita que o Jornalismo Humanitário possa contribuir para que as crianças não tenham seus direitos violados. No entanto, ela ressalta que este jornalismo começa a erguer os seus primeiros alicerces num contexto onde milhões de vítimas da fome, dos conflitos armados, das guerras civis, da violência generalizada, dos desastres e das mudanças climáticas sofrem um silenciamento que é resultado da omissão e da indiferença dos meios de comunicação.

Com a preocupação de comunicar de forma eficiente a população que mais irá sofrer com essas mudanças o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Mudanças Climáticas (NapMC/Incline) e pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP lançaram o livro Novos Temas em Emergência Climática, disponível gratuitamente no formato de e-book. Vale a pena consultar, curtir e compartilhar para o futuro dos nossos filhos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Possível impacto da mineração no turismo visibiliza pauta ambiental


Água turva e barrenta em Alter do Chão, Santarém, Pará, pode ser consequência da mineração.
Imagem: Julia Dolce – InfoAmazonia

Por Patrícia Kolling

Nas últimas semanas, os danos socioambientais causados pelo garimpo ilegal, realizado em terras amazônicas, tornaram-se novamente pauta na imprensa brasileira. Existe a suspeita de que os sedimentos da mineração na bacia do rio Tapajós, estejam influenciando na coloração das águas das praias de Alter do Chão, Santarém (Pará), região conhecida como caribe amazônico. O site InfoAmazonia, no dia 19 de janeiro, trouxe a notícia de que as águas do rio Tapajós, conhecidas pela transparência e efeito verde azulado, estão barrentas e turvas, apresentando um tom amarronzado.  A matéria destaca que em abril do ano passado um levantamento realizado pelo InfoAmazonia, em parceria com a Earthrise Media, havia revelado a mancha de poluição dos garimpos de ouro na bacia do Tapajós estendida por 500 quilômetros rio abaixo, entre os municípios de Jacareacanga e Santarém. Na época, o levantamento, apresentado no site através de um infográfico muito didático, mostrando a diferença das áreas e rios afetados de 1984 até 2021, não obteve grande impacto noticioso. Provavelmente, muitas comunidades tradicionais, de pescadores, indígenas e moradores da região estariam sendo impactadas por essa poluição ao longo dos anos.

Neste ano, porém, quando os possíveis danos da mineração, chegaram à região turística de Alter do Chão, podendo impactar economicamente, o tema conquistou repercussão nacional. O Jornal Nacional apresentou duas matérias sobre o assunto. Uma no dia 19 de janeiro, destacando a mudança da coloração da água e a preocupação quanto a poluição que ela traz, e mostrando o crescimento do garimpo na bacia do Tapajós. A notícia cita dados da Polícia Federal sobre o despejo, pelo garimpo, de 7 milhões de toneladas de rejeitos no Tapajós, e de uma pesquisa da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), que detectou altos níveis de mercúrio no sangue dos moradores de Santarém.

Cinco dias depois, o tema voltou a ser notícia no Jornal Nacional, apresentando imagens aéreas e de satélites, que mostram o rio Tapajós sendo invadido pela lama dos rios Crepori e Jamannxim. “Em julho de 2019, a mancha de lama já era visível na região de Santarém. Em 2020, a linha ficou ainda mais forte e, em julho de 2021, a mancha estava ainda mais intensa”, diz a notícia, mostrando que o problema já é antigo, mas somente agora teve destaque ao atingir uma região visitada por muitos turistas.

O importante nessas matérias jornalísticas, além do factual, é que auxiliam o público a compreender os impactos do garimpo no ecossistema como um todo. A bióloga da UFOPA, Heloisa Meneses, entrevistada pelo InfoAmazonia destaca que, além de causar uma alteração visível na cor do rio, a atividade garimpeira ilegal impacta a composição biótica da água, o funcionamento das cadeias alimentares e, consequentemente, os ecossistemas aquáticos. A matéria do Jornal Nacional ressalta os riscos da poluição da água tanto para as populações tradicionais, como para toda a população amazônica. O coordenador do Mapbiomas, Cesar Diniz complementa que: “A chegada de sedimento garimpeiro até próximo da foz é um problema ambiental e humano muito grave. Essa é a preocupação. Mesmo na seca, o carreamento de sedimentos do Tapajós, até próximo de sua foz no Amazonas, está preocupantemente alto”. O InfoAmazonia mostra que a poluição nos rios amazônicos tem uma conexão direta com impactos ambientais que estão sendo observados no Oceano Atlântico, com a floração de enormes massas de macroalgas, em especial o sargaço, no mar do Caribe.

Mesmo trazendo muitas informações sobre os prejuízos do garimpo ao meio ambiente e a população, os meios de comunicação foram cautelosos em responsabilizar o garimpo pela mudança de coloração da água. O InfoAmazonia, citando a bióloga da Universidade Federal do Oeste do Pará, Heloisa Meneses, diz que um conjunto de fatores, como as alterações climáticas, pode ser responsável pela mudança de coloração da água, “no qual o garimpo e o desmatamento têm um papel importante por serem dois potenciais poluidores”, avalia Meneses. Ela explica que que além de liberar resíduos na água, a atividade garimpeira promove a “movimentação do solo”. “Tudo isso altera a dinâmica dos rios, do ponto de vista químico-físico e biológico”.

A notícia da BBC Brasil, publicada também pela Folha de São Paulo, trouxe o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. Ao explicar sobre a vazão dos rios e as características da coloração das águas, ele ressaltou que a melhor maneira de determinar a causa da água barrenta no Tapajós em Alter do Chão, seria analisar o conteúdo dessa água. “Essa análise conseguiria distinguir a argila oriunda do Amazonas, da lama proveniente de garimpo”, diz o geólogo. Seja por prudência ao responsabilizar uma atividade econômica tão poderosa como a mineração por esse dano ambiental, ou por responsabilidade com a informação jornalística, a contextualização e abrangência na apuração e abordagem do tema são importantes para a informação do leitor e telespectador.

* Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Araguaia.

Velhas promessas e novas questões: a Baía de Guanabara e a privatização do saneamento

Imagem: Baía de Guanabara. Fonte: Pixabay

Por Michel Misse Filho*


Importante cartão-postal brasileiro e recorrente pauta jornalística ambiental, não é novidade dizer que a Baía de Guanabara padece de um processo de poluição que vem de décadas. Desde 2001, o 18 de janeiro é o Dia Estadual da Baía de Guanabara, ocasião menos celebrativa do que reflexiva, que remonta ao crime ambiental decorrente do vazamento de um duto da Petrobrás, com graves consequências para o ecossistema — sobretudo no fundo da baía, longe dos bairros turísticos.


A data deste ano vem acompanhada de “velhas novidades” para a região. A concessão do saneamento básico para a iniciativa privada promete a resolução do histórico problema nos municípios do entorno da baía, como São Gonçalo e cidades da Baixada Fluminense, na periferia metropolitana, que contam com alguns dos piores índices de tratamento de esgoto do Brasil¹; junto às favelas, elas também detêm as maiores concentrações de pessoas pobres e negras da região metropolitana.


Ao longo das últimas semanas, a baía foi assunto em três matérias publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo. A primeira, “Baía de Guanabara ‘fura fila’ e vê nova promessa de despoluição”, faz uma boa retrospectiva das muitas promessas fracassadas de despoluição e apresenta dados sobre saneamento e qualidade da água. Mas a notícia, de fato, é a implantação de um sistema emergencial (o “coletor de tempo seco”), ao longo dos próximos cinco anos, antes do sistema tradicional de esgoto (o “separador absoluto”). Para que se diminua o passivo ambiental da baía de forma mais rápida e com menor custo, o esgoto seguirá sendo escoado nas redes pluviais, mas será coletado e tratado antes do despejo nos rios — nos dias de chuva, todavia, o sistema não dá vazão, as comportas se abrem e a poluição segue o curso. Ficam adiadas, assim, as obras definitivas de saneamento de residência por residência; e permanecem os valões de esgoto na porta das casas e os riscos à saúde da população. A controvérsia é bem colocada e trabalhada pelo jornalista, com bons argumentos de ambos os lados: no fundo, estaria a despoluição de um ambiente sendo priorizada em relação à saúde das pessoas?


A resposta não é trivial, o assunto não é leviano e o consenso mais palpável é que os dois sistemas, em algum momento, precisam ser concretizados de forma complementar num modelo duplo. A segunda matéria da Folha, no entanto, dá pistas sobre interesses privados e alertas à sociedade. Numa entrevista com o presidente da concessionária, a promessa de limpar a Praia de Botafogo em cinco anos intitula a matéria, jogando luz sobre o principal cartão-postal da cidade. A recuperação da baía é tratada como oportunidade de projeção internacional da empresa; e, por que não, podemos supor, de avalizar e justificar a privatização do saneamento Brasil afora. Um olhar atento ainda deve questionar as implicações imobiliárias do empreendimento, sobretudo pela dificuldade — admitida na entrevista — de tornar balneáveis as praias da periferia, próximas à Ilha do Governador.

Longe de uma discussão que contraponha pessoas e ambiente em polos distintos, é preciso garantir que os benefícios de lazer, econômicos, sanitários etc. de uma eventual despoluição contemplem toda a população da desigual baía. A terceira e última matéria, por fim, retoma pontos já conhecidos da população, como a triste constatação de que os botos-cinza, presentes no brasão municipal, tendem ao desaparecimento; e o bom exemplo da preservação e recuperação de manguezais da região. Que desenterremos, do fundo da lama dos mangues do recôncavo, a esperança de uma baía economicamente indutora, ambientalmente rica e socialmente igualitária.

¹O Ranking de Saneamento 2021 do Instituto Trata Brasil coloca quatro cidades do entorno da baía entre as dez piores do Brasil em tratamento de esgoto — as únicas fora da região Norte.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

Patrimônio material e imaterial em Ouro Preto na cobertura jornalística

Imagem: Deslizamento do Morro da Forca que destruiu um casario histórico em Ouro Preto. 
Fonte: Redes Sociais, autor(a) desconhecido(a).

Por Matheus Cervo*

Os extremos climáticos na América do Sul se tornam cada vez mais parte do nosso cotidiano. Logo após a passagem de 2021 para 2022, tivemos a presença de uma grande onda de calor no sul do continente e fortes chuvas registradas em Minas Gerais e na Bahia – fenômenos que não podem ser desconectados do colapso climático que segue em curso.

Não é surpresa que esses extremos estejam atingindo parte do nosso patrimônio histórico e social, visto que isso tem acontecido de forma cada vez mais agressiva. Como mais um evento desse tipo, o aumento das chuvas em Minas Gerais causou a destruição de um casario histórico no Morro da Forca em Ouro Preto devido a um deslizamento de terra no dia 13 de janeiro. Com isso, uma parte do jornalismo brasileiro se debruçou sobre o ocorrido para discutir a situação da memória brasileira frente a esses fenômenos climáticos.

O G1 fez uma matéria chamada “Patrimônio Mundial da Humanidade, Ouro Preto convive com áreas de risco e danos ao casario histórico”. Ela se destaca por ter buscado especialistas de diferentes áreas para entender não só a destruição em si, mas o que pode ser feito para que se tenha um resguardo das edificações históricas do nosso país. Entre eles, foram mencionadas falas de uma professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) do departamento da Arquitetura e do Urbanismo, explicações de um geólogo e estudos sobre áreas de risco do Serviço Geológico do Brasil/CPRM. Além disso, tentaram entrar em contato com a administração municipal de Ouro Preto e com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), assim como trouxeram alguns dados antigos para mostrar que os deslizamentos de terra e as perdas ao patrimônio não são novidades nessa cidade.

O evento causou tanta comoção aos profissionais que se preocupam com a questão da memória que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) se pronunciou com uma nota no dia 14 afirmando que foi uma grande perda para toda a humanidade – o que foi resumido e noticiado pelo jornal O Estado de São Paulo. Essa grande mobilização da organização internacional se deve ao fato de Ouro Preto ser a primeira cidade brasileira inscrita na década de 1980 na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, sendo uma cidade que é monitorada pelo Centro do Patrimônio Mundial. Não é trivial salientar que a diretora ressaltou que medidas protetivas são ainda mais importantes em meio ao avanço das mudanças climáticas, o que foi noticiado pelo Estadão.

Percebe-se que, até aqui, cumpre-se com a necessidade de buscar pela complexidade dentro do jornalismo, especialmente nessa imbricação de áreas que estudam as questões ambientais relacionadas com a preservação do patrimônio nacional. Contudo, ainda dentro da discussão sobre memória e sociedade, é possível dizer que a cobertura desses fatos carece de uma discussão mais aprofundada acerca do patrimônio imaterial que se refere às sociabilidades e modos de vida existentes nesses locais. Depois desse evento que foi seguido de alguns outros deslizamentos noticiados, surgiram diversas matérias afirmando que Ouro Preto tem mais de 300 áreas de risco, sendo que 882 residências estão nessas regiões. Saíram notícias mostrando que 80 famílias foram removidas do bairro Taquaral e diversos serviços foram evacuados como forma de precaução.

Por isso, como o jornalismo ambiental poderia noticiar esses desastres ao patrimônio brasileiro sem prezar somente pelo material? Não seriam as formas de sociabilidade e as construções históricas de modos de vida específicos desses locais patrimônios imateriais tão importantes quanto as edificações? Não seriam elas também formas tão importantes de resguardo quanto a materialidade da nossa memória brasileira? São essas questões que ficam pungentes para aprofundamento dessa discussão sobre o que realmente é o patrimônio mundial da humanidade e como o jornalismo (assim como organizações como a Unesco) poderiam ter uma noção mais abrangente de como a memória se mantém viva na sociedade através das suas dimensões imateriais.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade.

Desafios da cobertura jornalística sobre os impactos do Plano Diretor

Imagem: Captura de tela da entrevista do Sul21

Por Míriam Santini de Abreu*


Os jornalistas que cobrem “Geral” ou “Cidade” sabem o tamanho do desafio de tornar atrativas as notícias e reportagens sobre mudanças no Plano Diretor, que, segundo o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2011), é o instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana do município. As mudanças mexem de forma direta no cotidiano dos moradores, mas explicar isso significa compreender a disputa pelo solo urbano e dar a entender termos como “gabarito”, “capacidade de suporte”, “potencial construtivo” e “coeficiente de aproveitamento”, assim como dezenas de siglas que nomeiam as áreas da cidade. Duas capitais do Sul, Florianópolis e Porto Alegre, estão discutindo alterações nos planos diretores, e os jornalistas se deparam com esse desafio.


Em Florianópolis, a cobertura jornalística sobre o tema expressa a realidade local de mídia, onde o grupo NSC, ex-RBS, tem magra cobertura local, e o grupo ND, ex-RIC, ligado ao grupo Record, alinha-se ao discurso da prefeitura e do empresariado. A prefeitura realizou Audiência Pública em 17 de dezembro e irá promover outras 14 em janeiro para apresentar as mudanças no Plano Diretor, desconsiderando críticas dos movimentos sociais organizados. Essas críticas se relacionam à forma, ao conteúdo e à organização do processo, em plena temporada de verão e com casos crescentes de contaminação por covid-19. As críticas não aparecem nas poucas notícias e raríssimas reportagens publicadas nos veículos dos dois grupos e, nas colunas e editoriais, são atribuídas a “grupos ideológicos de esquerda”, historicamente chamados de “os contra”, como na coluna de Moacir Pereira, comentarista político de longa data demitido do grupo NSC e contratado pelo grupo ND.


Desde o início de dezembro passado, quando a prefeitura apresentou a proposta de mudança do Plano Diretor, até agora, às vésperas das audiências para ouvir a população sobre os rumos da chamada “Ilha da Magia”, esses veículos não se prestaram a apresentar a proposta de forma detalhada e ouvir quem é crítico aos planos da atual administração. A cobertura se limita aos releases enviados pela prefeitura e às entrevistas de secretários e empresários descontentes com a mobilização do movimento popular, que tem obtido até agora vitórias na justiça para suspender as Audiências Públicas agendadas para janeiro. Nesse ínterim, em meio ao calor do verão e ao temor pelo recrudescimento da pandemia, a população da capital catarinense, a depender da cobertura jornalística local, pouco ou nada saberá do que planejam os gestores para mudar o uso do solo da cidade.


Já um bom exemplo de como um veículo pode oferecer informação de qualidade apareceu dia 7 de janeiro no site de notícias Sul21, que publicou entrevista pingue-pongue com o prefeito de Porto Alegre intitulada “Sebastião Melo: ‘O Plano Diretor que vamos mandar para a Câmara será bastante liberal’”. As perguntas permitem ao prefeito expressar o projeto para a cidade, mas não deixam de explorar contradições, aprofundar afirmações vagas e apresentar exemplos concretos em que o discurso oficial contradiz a prática da prefeitura. Também é visível o conhecimento dos jornalistas sobre a história da cidade e as ações de administrações anteriores, quando perguntam, por exemplo, se os projetos em curso estão mantendo o legado de preocupação ambiental de Porto Alegre. É importante assinalar que o Sul21 publicou em julho do ano passado um especial, intitulado “Que Porto é esse: quem ganha com as transformações na capital”, com sete reportagens repletas de entrevistas, dados e fotografias que oferecem ao leitor um prato colorido e apetitoso para compreender a disputa pelo espaço urbano na capital gaúcha. Os veículos de Florianópolis estão devendo um prato desses na cobertura dos impactos da mudança do Plano Diretor local.


*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo.

As mudanças climáticas em pautas sobre as enchentes na Bahia

Por Débora Gallas Steigleder*

Estudos de integrantes do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental sobre a cobertura ambiental no Jornal Nacional no ano de 2019 identificaram a ampliação e transversalização das pautas sobre meio ambiente no telejornal em relação a anos anteriores. A maior recorrência de temas ambientais nas edições do principal produto jornalístico da TV Globo pode ser explicada por dois fatores frequentemente sobrepostos: o desmonte das políticas públicas de proteção ambiental a partir da posse de Jair Bolsonaro como presidente e o aumento de ocorrências de tragédias de grande envergadura. A busca por explicações e soluções para os impactos dos fenômenos percebidos, no entanto, ainda fica em segundo plano. Após mais de dois anos, é possível perceber que este padrão se mantém na cobertura sobre as fortes chuvas que vitimam e vulnerabilizam cerca de 700 mil pessoas no sul da Bahia ao longo deste mês de dezembro.

Quando o acontecimento irrompe, os esforços de cobertura são direcionados para captar o drama humano. A contextualização da tragédia a partir dos locais mais afetados envolve o telespectador: nas edições dos dias 28 e 29 de dezembro, a situação na Bahia ganhou destaque na programação, com mais de sete minutos em tela. A abordagem de JN chamou à reflexão ao destacar que Jair Bolsonaro decidiu não interromper suas férias no litoral de Santa Catarina para se envolver nas ações do governo federal a fim de amparar da população afetada. Também chamou o público à ação quando coloca em pauta as redes de solidariedade que se formam em todo o Brasil para auxílio no resgate e na sobrevivência daqueles impactados durante o dezembro mais chuvoso dos últimos 32 anos na região.

Porém, uma cobertura realizada a partir de olhar complexo, de acordo com os pressupostos do jornalismo ambiental, deve se debruçar igualmente sobre as causas dessas tragédias, ainda que as consequências sejam visualmente mais impactantes e, portanto, tenham maior valor-notícia. Embora no discurso das fontes oficiais a expressão “desastre natural” seja recorrente, o jornalismo precisa incorporar a contextualização sobre o aumento dos eventos extremos como consequência das mudanças climáticas.

Este entendimento existe, mas ainda é periférico na mídia brasileira. Ao longo da semana, portais de notícias replicaram reportagens com explicações científicas que conectam as enchentes na Bahia à emergência climática, produzidas por veículos de abrangência internacional como RFI e BBC News Brasil. Em 28 de dezembro, Jornal Nacional chegou a exibir reportagem aprofundada sobre o agravamento dos desastres causados pelas chuvas diante da falta de planejamento das cidades brasileiras.

Trata-se de uma conexão necessária para que o público consiga compreender a relação de causa e consequência que envolve tais fenômenos; porém, poderia ser ainda mais detalhada com a incorporação da crise climática como plano de fundo, já que reconhecer sua inevitabilidade e a frequência cada vez maior dos eventos extremos implica em envolver a opinião pública nos debates sobre medidas de enfrentamento às mudanças do clima. De quebra, também fortalece o debate sobre a responsabilidade dos governantes que permanecem inertes diante do caos.

Referências
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas. Ampliação e transversalização da pauta ambiental no Jornal Nacional. Comunicación y cambio climático: contribuciones actuales. Sevilha: Ediciones Egregius, 2020. p. 15-33. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Eloisa-Beling-Loose/publication/348815171_AMPLIACAO_E_TRANSVERSALIZACAO_DA_PAUTA_AMBIENTAL_NO_JORNAL_NACIONAL/links/601196e8a6fdcc071b9936a1/AMPLIACAO-E-TRANSVERSALIZACAO-DA-PAUTA-AMBIENTAL-NO-JORNAL-NACIONAL.pdf.

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; STEIGLEDER, Débora Gallas; LOOSE, Eloisa Beling. Novos rumos da cobertura ambiental brasileira: um estudo a partir do Jornal Nacional. TraHs: Revista Trayectorias Humanas Trascontinentales, Limoges, n.7, p. 47-62, 2019. Disponível em: https://www.unilim.fr/trahs/2054#tocto1n3.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação. Integrante do GPJA.

Um dia da caça ou todos do caçador?


Por Ursula Schilling*

Não há como negar. A pauta ambiental tem tido, talvez como nunca antes, espaço em diferentes veículos, ainda que isso signifique poucas boas e robustas coberturas e muitas rasas, pouco comprometidas e até muito ruins. Não há como negar, também, que, apesar do crescente espaço dado ao tema “meio ambiente” na mídia, a destruição e o desmonte (basta dedicar algum tempo de leitura às análises deste Observatório) avançam em velocidade assustadora. Ser ambientalista e fazer jornalismo ambiental tem sido como enxugar gelo no sol quente do verão.

A tarefa de combater e informar sobre os retrocessos ambientais tem sido ainda mais extenuante e desafiadora no Brasil de 2021. Há duas semanas, por exemplo, ganhou repercussão o Projeto de Lei (5544/2020 ) que regulamenta a prática da caça esportiva de animais no Brasil, envolvendo atos de perseguição, captura e abate. Após a polêmica em torno do assunto, o Pl foi retirado da pauta do dia (14 de dezembro) da Câmara dos Deputados. A caça é proibida no Brasil.

Coincidência ou não, um dia antes, o jornalista André Trigueiro, uma referência para muitos ecojornalistas, abordou o assunto em seu comentário durante o programa Estúdio I da GloboNews.

Trigueiro não apenas criticou o Projeto de Lei, mas fez uma análise sistêmica da questão, aplicando o jornalismo ambiental de fato. “Como alguém se diverte, em pleno 2021, matando bicho?”, pergunta enfaticamente ao questionar como tal tópico pode estar em discussão, ainda por cima, na Comissão de Meio Ambiente. Falou sobre o lobby das armas envolvido na ideia, sobre uma possível liberação da caça num já dramático cenário de extinção de muitas espécies, e sobre o absurdo (entre outros tantos) da alegação, que consta no texto do Pl, de que isso estimularia a interação do homem com a natureza.

Imagem: Captura de tela da GloboNews

Em cinco minutos de fala, Trigueiro demonstra que é possível fazer jornalismo sério, combativo e respeitoso. Analisar os fatos não é fazer juízo de valor e dizer “isso é bom, isso é mau”. É contextualizar, é trazer argumentos bem embasados que nos ajudem a entender as implicações envolvidas em cada situação. Um jornalismo que produz informação e esclarecimento acerca do mundo, seja sob que aspecto for, pode, por fim, gerar conhecimento transformador da realidade.

Só assim, talvez um dia, possamos nos dar conta de que somos quase todos caça. Que os dias têm sido quase todos dos caçadores, mas que somos em maior número. Que nosso poder de mobilização existe. Mas precisa acontecer. A mudança começa no âmbito individual, mas ela só ganha força no coletivo. Aqui, um jornalismo responsável e ativo faz muita diferença.

El País deixa o Brasil e jornalismo ambiental perde importante veículo

Fonte: Captura de imagem do site El Pais Brasil

Por Nicoli Saft*

No dia 14 de dezembro, o El País publicou uma nota anunciando o fim de sua edição em língua portuguesa. Iniciada com o calor dos protestos de 2013, a edição brasileira cobriu os importantes acontecimentos que aconteceram no país desde então com um olhar crítico. 

Em outubro do ano passado o jornal adotou o modelo de paywall e passou a cobrar assinaturas de três dólares mensais. A nota argumenta que, embora contando com um número considerável de assinantes digitais, o jornal não adquiriu sustentabilidade financeira.  A partir de agora, textos sobre o Brasil poderão ser encontrados em espanhol no El País America.

A finalização das atividades pegou de surpresa não somente os leitores: segundo a diretora do El País Brasil, Carla Jimenez, a redação ficou sabendo do fim da edição quase ao mesmo tempo que o restante do país.

Aqui no Observatório citamos reportagens do El País Brasil ao menos 18 vezes desde nossa criação em 2019. Foi um jornal que mostrou outros olhares sobre os agrotóxicos, contando a pulverização de veneno por cima de áreas indígenas; falou sobre os impactos econômicos das queimadas da Amazônia e mostrou formas criativas de aproximar o leitor desse crime, mostrando o tamanho da destruição se acontecesse em sua cidade. Mais recentemente, conectou o aumento da conta de luz ao desmatamento e à emergência climática , e essas foram apenas algumas das reportagens do El País Brasil que nos impactaram.

Claro, nem todas as menções foram positivas. Ao falar sobre o acordo comercial entre a União Europeia e a Mercosul, a edição brasileira do jornal espanhol não voltou seu olhar para o Brasil . A situação nos faz lembrar que embora exalem brasileiridade em diversos momentos, o jornal ainda é espanhol.

Possivelmente um dos fatos mais marcante para nós a respeito do El País Brasil, é que o jornal era casa de Eliane Brum por todos esses anos, abrigando suas profundas análises de um olhar vindo do “centro do mundo”. A colunista foi surpreendida com a notícia do fim da edição brasileira ao chegar de uma viagem a Terra do Meio. Em seu twitter anunciou que sem dúvida continuará escrevendo, mas ainda irá comunicar como será isso.

O fim do EL País Brasil nos deixa mais uma vez pensando sobre os modos de negócio jornalístico e como fazer um veículo que se autossustente nos dias atuais, mas não vou me demorar sobre isso dessa vez. A mensagem de Eliane Brum nos deixa esperança de ver algo novo nascer. A edição brasileira do jornal era liderada por mulheres que fizeram um incrível trabalho por esses oito anos. O fim é triste, mas espero que os jornalistas que faziam tudo acontecer continuem a fazer um jornalismo engajado e a enriquecer o jornalismo brasileiro de alguma forma.

Como vai a cobertura sobre a biodiversidade?

Por Eliege Fante*

Tramita, desde o primeiro semestre de 2021, no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre (Comam), um processo sobre a pertinência de o município estabelecer um instrumento legal que promova a gestão, efetivamente, responsável da biodiversidade. Estamos falando da proposta de Minuta de Resolução que reconhece a “Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção e Raras da Flora do Município de Porto Alegre com ocorrências reconhecidas cientificamente”. A pesquisa, o documento e a proposta decorrem de um trabalho voluntário, realizado desde 2015, por especialistas renomados de entidades ambientalistas, de órgãos ambientais do Rio Grande do Sul e de universidades. A Câmara Técnica de Áreas Naturais e Paisagem Urbana (CT ANPUR) do Comam aprovou a proposta que foi apresentada em detalhe na reunião do Conselho em 30 de setembro de 2021. Já a Câmara Técnica de Legislação e Educação Ambiental (CT LEAMB) ainda não tem posição definida sobre o instrumento legal mais adequado. A dúvida, por parte de alguns integrantes nessa CT, paira sobre como atender esta necessidade sem descuidar os demais interesses socioeconômicos, baseados nos conceitos de desenvolvimento sustentável, economia verde e retomada da economia. Há quem considere o suficiente a Smam seguir utilizando a Lista constante no decreto 52.109/2014 que “Declara as espécies da flora nativa ameaçadas de extinção no Estado do Rio Grande do Sul”, a qual não tem previsão de ser atualizada porque este trabalho era feito pela Fundação Zoobotânica (FZB), extinta em 2018 pelo governo José Ivo Sartori (MDB) através do decreto 54.268. Portanto, a FZB assim como as outras fundações extintas não eram “armários desnecessários da administração” (CP, 7 ago. 2015) como Sartori declarou.  

De fato, o reconhecimento dessa biodiversidade, rara e ameaçada, autóctone em Porto Alegre, implica considerar a existência dessas espécies da flora no caminho de megaprojetos que tentam obter licenças ambientais. Um dos casos é o da proposta de alteração no regime urbanístico da Fazenda do Arado Velho com o projeto de lei complementar (PLC) na Câmara de Vereadores, cuja tramitação foi suspensa pela Justiça, na semana passada (03/12), até que se elaborem “todos os estudos, diagnósticos técnicos e debates”. A Fazenda fica na zona sul, onde estão os remanescentes dos dois biomas constituintes deste território: Mata Atlântica e Pampa. Vestígios ainda podem ser encontrados nas demais zonas na forma de áreas verdes cuja redução gradativa, causa efeitos perniciosos sobre a qualidade do ar, da água, dos solos e, por conseguinte, da saúde dos habitantes embora essas relações não sejam abordadas pela imprensa. 

A imprensa não costuma aprofundar os temas através do acompanhamento dos trâmites nos conselhos e outros fóruns públicos, tampouco através do incentivo à formação complementar em áreas das ciências naturais. Ao menos, não na mesma medida que incentiva a formação para a cobertura econômica e de futebol. Uma consequência é a dificuldade generalizada no reconhecimento do papel da biodiversidade preservada para o equilíbrio climático, por exemplo. Tanto que a imprensa não questionou quando Porto Alegre, através da Smam, assumiu o compromisso de reduzir as emissões dos gases de efeito estufa durante a COP 26, na Escócia, sem citar medidas que contemplassem a biodiversidade. 

A cobertura temática com enfoque apenas econômico é opção simplificadora e exacerba os riscos em tempos de emergência climática. Pois, ainda que tenha sido divulgada a precariedade do estudo e relatório de impacto ambiental do empreendedor que ambiciona construir condomínios na Fazenda do Arado, uma comparação entre as espécies da flora descritas nesse documento com as espécies da Lista que está no Comam, mostra que ao menos quatro espécies estão ameaçadas também em Porto Alegre: Regnellidium diphyllum (samambaia de duas folhas, que ocorre em áreas úmidas); Cattleya tigrina (orquídea-de-natal); Solanum arenarium (arbusto parente da jurubeba que ocorre em restingas); Urera nitida (urtigão-da-praia). Ou seja, estão em risco de extinção no Estado e na capital. Devemos lembrar que o Artigo 245 da Lei Orgânica de Porto Alegre considera Área de Preservação Permanente (APP) ambientes que abrigam espécies ameaçadas e raras de flora e de fauna, cabendo ao órgão ambiental do município, definir medidas para a sua proteção. Neste sentido, foi encaminhada uma proposta de Resolução que reconhece as listas da flora ameaçada e rara no município, pela Câmara Técnica de Áreas Naturais e Paisagem Urbana (CT ANPUR) e que está sob análise na CT LEAMB do Comam. 

Observamos que a imprensa prefere ouvir as fontes oficiais esquecendo-se que as fontes técnicas, ou seja, os servidores dos órgãos dos governos e dos poderes instituídos são igualmente fontes oficiais e, com a vantagem, entre outras, da visão de longo prazo e histórica dos temas em disputa na sociedade. Ou saberia, por exemplo, que há apoio de técnicos da Smam às Listas e, à respectiva Minuta de Resolução citada anteriormente. Não só isso: há uma recomendação para que este trabalho seja publicado e acessado por toda a população. Assim como, recentemente, acessamos o Guia de Plantas Campestres dos Aparados da Serra, lançado na Feira do Livro deste ano e apresentado em São Francisco de Paula e Cambará do Sul como um reconhecido instrumento para a gestão municipal. 

Evitar que a temperatura global ultrapasse 1,5º C requer mudanças de paradigmas igualmente da imprensa. Coberturas efetivamente responsáveis contemplam também a biodiversidade, quanto ao estado de conservação bem como das políticas protetivas, e às pautas nos espaços além dos oficiais. Sem esquecer do exercício que pode representar para a cobertura da COP 15 em 2022, a Conferência das Partes sobre a Biodiversidade, que vai definir a “nova Estratégia Global de Biodiversidade Pós-2020” no contexto da extrema perda de espécies da flora e da fauna em todo o mundo. 

* Eliege Fante é jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pelo PPGCOM-UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental CNPq-UFRGS e representa a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) na CT LEAMB do COMAM.