Um certo jornalismo e a cidade como “cenário de oportunidades”

Imagem: Instituto De Planejamento Urbano De Florianópolis (IPUF)

Por Míriam Santini de Abreu*

“Nas cidades, as fórmulas urbanísticas disseminadas pelo neoliberalismo a transformaram em um grande negócio: privatizações, desregulamentações, cidade empreendedora, competição entre cidades. (…) A cidade pode ser vista então como palco das relações sociais ou palco dos negócios, mas ela pode ser vista como o próprio negócio ou mercadoria. Há uma diferença entre ser suporte, palco onde as coisas acontecem, ou objeto central do processo de acumulação.” — Ermínia Maricato, arquiteta e urbanista, professora titular aposentada da USP¹

Se a disputa pelo espaço urbano e natural provoca conflitos, cabe evidenciar, na cobertura jornalística, se estão visibilizados os diferentes interesses e interpretações dos sujeitos implicados nesses conflitos. Espera-se a dita “pluralidade de fontes”, mas a quantidade de pessoas ouvidas necessariamente não garante pluralidade de opiniões, mesmo em coberturas anunciadas como robustas.

O jornal Notícias do Dia, único jornal impresso diário da Grande Florianópolis, comemorou 17 anos e, em agosto, lançou o projeto Super 17 ND para dedicar o mês ao debate sobre o futuro da região. O jornal pertence ao grupo ND, parceiro da Rede Record. O projeto teve oito cadernos temáticos, quatro videocasts e uma série de quatro seminários do chamado Fórum 2050. Segundo o grupo, a produção das reportagens envolveu mais de 40 profissionais durante quatro meses. 

A partir da análise de dois cadernos, “Plano diretor, desenvolvimento da cidade e oportunidades” (15 de agosto) e “Cidades sustentáveis e o saneamento” (22 de agosto), conclui-se que a cidade de Florianópolis é tomada como um “cenário de oportunidades” – como destaca o editorial do caderno sobre o Plano Diretor – mapeadas e interpretadas por um conjunto de fontes prioritariamente oficiais, empresariais e institucionais. A experiência de viver na “Ilha da Magia” por diferentes classes sociais passa praticamente ao largo das 44 páginas dos dois cadernos analisados.

O caderno sobre o Plano Diretor, com 24 páginas, tem 17 fontes, sendo apenas 3 delas ligadas ao meio universitário e críticas ao modelo do novo Plano Diretor de Florianópolis, aprovado pela Câmara Municipal em maio passado (Lei 739/23). O conjunto de fontes oficiais, empresariais e institucionais é interrompido em três únicos momentos: uma retranca de dois parágrafos sobre um engenheiro de software que escolheu Florianópolis para morar, uma notícia que abre com declaração aleatória de sete linhas de um morador do Centro, e outra retranca, de cinco parágrafos, sobre um casal que saiu do Norte da Ilha para morar em São José, município vizinho, em um apartamento do programa Minha Casa Minha Vida, em função dos altos valores do metro quadrado na Ilha.

A retranca é parte de uma reportagem de duas páginas que tem o mérito de levantar uma situação grave, a falta de habitação social na capital catarinense, que não faz esse tipo de moradia desde 2019 e, nos últimos 16 anos, construiu apenas 424 casas populares, número muito abaixo da média estimada pelo Ministério das Cidades. Mas o texto não desenvolve como tal situação aflige milhares de famílias em Florianópolis e no município vizinho, ambos na lista do metro quadrado mais caro do país.

Duas páginas do caderno são de conteúdo patrocinado, informado em tímida linha de pé de página, com comercial casado na página vizinha. Outras duas páginas, com duas fontes ligadas à construção civil, tratam cansativamente de novas tecnologias de materiais ligadas ao setor.

O caderno sobre saneamento, com 20 páginas, é ainda mais magro de fontes: apenas oito, sendo apenas uma fora do rol de fontes oficiais, empresariais e institucionais. Trata-se de uma moradora de São José que trabalha em Florianópolis e leva cerca de uma hora e meia do trabalho para casa, realidade esgotada em oito linhas. A frase que finaliza o único parágrafo afirma: “O trânsito congestionado e a falta de um sistema de transporte coletivo integrado são as principais causas do tempo elevado de deslocamento casa-trabalho”. Há um mundo de experiências vividas no espaço urbano da Grande Florianópolis insinuadas no curto parágrafo, mas apagadas no caderno. Como no do Plano Diretor, o caderno sobre saneamento também dedica uma página a conteúdo patrocinado com comercial casado.

O fato de a cobertura apostar mais em fontes protocolares, que deixam os textos sem a marca da rua, do vivido, impede o melhor aproveitamento de ganchos importantes, como o da reportagem intitulada “Mais de 40% da população de Florianópolis não tem acesso à rede de esgoto”. Parte expressiva dela parece alimentada por releases da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) e da Prefeitura.

Os dois cadernos, em especial o do Plano Diretor, tangenciam as críticas dos movimentos populares à lei aprovada em maio que revisou o Plano Diretor de Florianópolis. Na ocasião, foi ignorada, na votação e na mídia local, um Substitutivo Global dos movimentos que identificou 26 inconstitucionalidades, entre outras infrações, presentes no anteprojeto da Prefeitura.

O editorial do caderno sobre saneamento, no título, afirma que “Saneamento é o ponto-chave para uma cidade mais humana”, e que “a única forma de fazer isso é cuidando das pessoas”. Difícil é saber, no jornalismo do Grupo ND, onde param os cuidados e começam as oportunidades.

¹Palestra de abertura da 10° edição do Ciclo de Palestras “Quintas Urbanas” promovido pelo Núcleo de Análises Urbanas do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da FURG. Disponível em: file:///C:/Users/2274/Downloads/5518-Texto%20do%20artigo-15608-1-10-20151203.pdf.

*Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em Educação e Meio Ambiente.  

Notícias fazem associação das ondas de calor extremo com as mudanças climáticas

Imagem: MetSul

Por Cláudia Herte de Moraes*

Temperaturas muito altas para o período, destacadas por vários veículos de imprensa brasileira nesta terça, 22 de agosto de 2023. Mas será que esses fatos são acompanhados pela preocupação com as mudanças climáticas?  O mundo está cada vez mais quente, o que acelera a crise do clima e, por consequência, se amplifica o risco de eventos climáticos extremos, como as ondas de calor, incêndios naturais e enchentes.

Ao trazer a notícia de que nesta semana teremos uma intensa onda de calor, generalizada, no Brasil, matéria do G1 não fala diretamente da emergência climática, mas deixa linkada uma reportagem do início de agosto, que  trata dos efeitos do aquecimento global, agora rebatizado como “era da fervura global”, pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. Também fez ligação com o podcast “O Assunto”, que tratou dos “Recordes de calor e a ameaça à vida humana”, produzido por Natuza Nery. 

O texto do UOL, ao final das informações sobre as altas temperaturas, traz um trecho associando a onda de calor e as mudanças climáticas: “Um novo estudo da Unicamp detalha os efeitos das mudanças climáticas em Campinas, cidade de 1,1 milhão de habitantes no interior do Estado. Entre 1989 e o ano passado, a média das temperaturas máximas locais subiu 1,2ºC. E se não frearmos as emissões de gases de efeito estufa, a alta não deve parar por aí.”

Já a Folha de SP é bastante direta em seu título: Entenda por que mudanças climáticas causam tanto calor e incêndios na Europa” e subtítulo: “Sem redução de gases-estufa, ondas de calor e queimadas serão mais intensas e frequentes, alertam cientistas”.

Na cobertura do tema, as notícias de outros países também figuram nos portais. Como essa, da Agência Reuters publicada no UOL, que fala sobre como os incêndios se espalham na Europa diante da onda de calor, causando mortes e destruição na Grécia, Espanha, Itália e França. Não faz ligação com as mudanças climáticas.

Já no site da Época Negócios, a fonte ouvida MeteoSuisse estabelece a associação: “A mudança climática antropogênica fez com que a altitude da linha de zero grau aumentasse significativamente a cada estação”. Informa ainda que há “um impacto considerável nos habitats de humanos, animais e plantas. Recordes sucessivos para o indicador foram estabelecidos nos últimos 10 anos.”

Com esse rápido recorte do noticiário, podemos perceber que a gravidade dos problemas ambientais está batendo à porta e, com isso, a maior parte das notícias já traz a percepção de que os eventos extremos de calor fazem parte da ebulição global e da emergência climática. Mas ainda é necessário, ao discutir esse tema, trazer o debate sobre o que fazer para mitigar o aquecimento global, com a redução de emissão de gases de efeito estufa. Não há tempo para o conformismo, é preciso agir preventivamente.

As mudanças climáticas são tema frequente neste Observatório. Em julho, as ondas de calor já eram sentidas no Hemisfério Norte, e sobre isso escreveram Michel Misse Filho e de Débora Gallas. Confira ainda a análise do tema em 2022, feita por Carine Massierer.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Novo PAC, Plano de Transformação Ecológica e a cobertura da mídia

Imagem: Geraldo Falcão/Agência Petrobrás

Por Janaína C. Capeletti*

O governo federal lançou na última semana um novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com a promessa de investir R$ 1,7 trilhão em todos os Estados do país. O novo PAC possui nove eixos prioritários, sendo que a área batizada como Transição e Segurança Energética receberá o segundo maior volume de recursos, com projeção de receber R$ 449,6 bilhões até 2026 e R$ 91,1 bilhões pós-2026. O valor fica atrás apenas dos projetos para Cidades Sustentáveis e Resilientes.

Além do PAC, o ministro da Economia, Fernando Haddad, apresentou o Plano de Transformação Ecológica. Entre as ações previstas estão: nova infraestrutura verde, finanças sustentáveis, economia circular, adensamento tecnológico, bioeconomia, transição energética e adaptação à mudança do clima.

Como esperado, houve ampla cobertura dos veículos de comunicação nacionais e regionais, alguns dando destaque ao Plano de Transformação Ecológica especificamente, como o Correio Brazilense e o G1, que apresentaram falas do ministro e pontos básicos do projeto. O portal o Eco também noticiou e questiona, no texto, como o governo irá equilibrar o retorno de grandes obras de infraestrutura e a preservação ambiental. O Globo Rural abordou a previsão de investimentos em biocombustíveis e energia limpa, já o R7 enfatizou os investimentos que a Petrobras planeja, que inclui um fundo de descarbonização.

Os textos, em geral, não discutem de forma aprofundada o projeto, apenas reproduzem o discurso governamental, sem a escuta de outras vozes que pudessem ampliar o debate em torno de pautas tão relevantes para a sociedade. Não há crítica sobre os reais impactos do PAC na questão ambiental, se o que está sendo posto realmente é positivo e viável. Pode ser que repercussões mais específicas sobre as propostas do governo ocorram nos próximos dias.

O site Capital Reset foi, dos veículos analisados, o que mais aprofundou o tema com a matéria “Em novo PAC, 62% dos recursos para energia ficam com fósseis”. O texto apresenta informações claras que permitem perceber as incongruências de discurso e ação do governo com relação à pauta ambiental.

O site Um só planeta, com a matéria “Novo PAC prevê transição ecológica, mas também investimento bilionário em petróleo e gás e projetos ambientalmente polêmicos”, também apresentou uma visão mais analítica com relação ao PAC, destacando os projetos  já em andamento e que são duvidosos com relação ao impacto ambiental positivo.

Vivemos uma emergência climática, não há mais espaço para que compromissos assumidos em termos governamentais sejam ambíguos, reforçando uma condição que já se mostra inviável em termos planetários. Os veículos de comunicação têm o compromisso de informar, e como vimos nos textos citados, eles fizeram bem o seu papel, mas é preciso ir além. É também compromisso do jornalismo ouvir diferentes vozes e questionar. Espera-se que esta pauta seja ampliada.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com.

As dificuldades na cobertura de um bioma campestre

Pesquisa encontra até mais de 50 espécies de plantas/metro quadrado no campo nativo pampeano. Como restaurar tamanha biodiversidade campestre? – Imagem: Eliege Fante/Rede Campos Sulinos.

Por Eliege Fante*

A recente boa notícia do governo gaúcho sobre o plantio de “800 mil mudas no bioma pampa”, ler aqui e aqui, denotando resultados de Projeto iniciado em 2018 “a partir de dados alarmantes sobre o bioma pampa, entre eles, a diminuição de quatro milhões de hectares de área entre 1985 e 2021 (de 18,2 mi/ha para 14 mi/ha)”, foi repetida por grande parte da imprensa, através de rádios como a Guaíba e outras do interior do estado, tevês e internet. Por conhecermos as adversidades enfrentadas pelos jornalistas para realizarem os seus trabalhos, entre outros obstáculos diante do extremado enxugamento das redações, cabe problematizar esta mera repetição/republicação com a imprensa-empresa.

A publicação dos chamados relises é comum, bem como a necessidade conhecida por jornalistas, de complementar as informações que veiculam. Uma semana depois, outro relise foi meramente repetido, só que a respeito da renovação do Projeto, tendo sido exaltado pelo governo e igualmente por GZH, entre outros veículos de imprensa. O fato é que os relises republicados anunciam benefícios para o Pampa, mas afirmam que o recurso provém do cumprimento de débitos de Reposição Florestal Obrigatória (RFO), ou seja, relacionado às áreas florestais.

RFO destinada à recuperação de áreas na Mata Atlântica faz sentido, mas não tem o mesmo peso para a conservação de um bioma predominantemente campestre como o Pampa. É importante, sim; mas o desmatamento no Pampa é muito menor do que a supressão de campos, tendo sido de 3 mil hectares em 2022 segundo o MapBiomas. E a Rede Campos Sulinos estima que a supressão de vegetação campestre no Pampa tenha sido, em média, de 145 mil hectares por ano entre 2012 e 2020. Esta é a maior perda de vegetação nativa entre todos os biomas brasileiros, e os pesquisadores se perguntam quanto dessa supressão foi autorizada de acordo com a Lei 12.651/2012 (que não é Código Florestal, é Lei de Proteção a Vegetação Nativa). Fica aí sugerida uma pauta para a imprensa.

“No Pampa, o que faz sentido é restaurar campos nativos, haja vista a perda anual de milhares de hectares”, comentou um especialista. O uso de recursos da RFO na recuperação de campos nativos do Pampa seria uma boa notícia, porém essa confirmação depende do envio de um pedido de informação, pois, na notícia consta apenas que “A RFO é uma medida legal para compensação ou reparação ambiental pela supressão ou manejo de vegetação nativa. A cada árvore suprimida, o empreendedor precisa compensar as perdas com valores equivalentes a outras 15 mudas”. O exemplo da árvore não facilita a compreensão ainda mais que o gravíssimo risco de extinção encontra-se na vegetação campestre característica do Rio Grande do Sul e da matriz cultural.

Urge qualificar a produção dessas notícias por meio da escuta de fontes diversificadas, especialmente de técnicos dos órgãos ambientais, que igualmente são fontes oficiais do Estado. Ou seguiremos festejando a circulação de informações incompletas quando poderiam evidenciar as demais ações cabíveis e, o mais importante, eficazes para evitar a extinção do Pampa. E a primeira delas é “Dar imediato cumprimento ao previsto na Lei n° 12.651/2012, implementando a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com exigência de Reserva Legal, representando no mínimo 20% da área total das propriedades rurais do bioma Pampa”, conforme explicitado na Carta Aberta da Coalizão pelo Pampa.

Afinal, quantas notícias a imprensa publicou sobre o uso produtivo das áreas de reserva legal no Pampa, onde o manejo pastoril é permitido e merece ser incentivado? Enquanto isso, predominam as notícias sobre a conversão do Pampa através dos incentivos às lavouras, em especial de soja, mas também de arroz, milho e eucaliptos. Por fim, é preciso ultrapassar a ideia falaciosa de que áreas de campo com pecuária são de uso consolidado, porque o manejo pastoril conserva a biodiversidade do Pampa. Para tanto, a imprensa-empresa tem que aceder à escuta de fontes diversificadas, bem como pautar as recomendações técnicas dos órgãos ambientais para estancar a supressão da vegetação nativa campestre.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membra do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e assessora de comunicação da Rede Campos Sulinos.

Quando há vontade política, há mitigação ambiental

Por Carine Massierer*

A vontade política pode não conseguir, sozinha, recuperar a destruição do meio ambiente ocasionada pelas mãos humanas, mas, com certeza, pode contribuir para a mitigação de danos ambientais. A decisão de editar um decreto para reconhecer estado de emergência climática em mais de mil municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas foi anunciada pela ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, ao visitar áreas atingidas por alagamentos em Manaus no dia 26 de março. Na capital do Amazonas, conforme registrado pela imprensa, as fortes chuvas fizeram com que 172 famílias ficassem sem acesso às suas casas. A postura da ministra gerou grande repercussão na imprensa, ao manifestar que o governo federal debate internamente decretar estado de emergência climática em cerca de 1.038 municípios mapeados como mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

Imagem: Captura de tela do site do Jornal do Brasilem 29 de março de 2023. Governo estuda decretar emergência climática permanente em mil cidades (jb.com.br)

A matéria foi publicada em periódicos impressos e online como o Jornal do Brasil, Gazeta do Povo, Correio Braziliense, Bem Paraná, assim como em empresas televisivas como o Canal Rural. O site de jornalismo independente, Headline, também destaca o anúncio da ministra, mas com um novo olhar (Quase 20% das cidades brasileiras podem entrar em estado de emergência permanente devido ao clima | HEADLINE), propondo uma ampliação da pauta e dando destaque ao decreto de estado de emergência permanente devido ao clima. O veículo aponta que não estão apenas sendo pensadas ações paliativas às consequências das mudanças climáticas, como tem acontecido em relação às estiagens em estados do Sul do país e às excessivas chuvas no Mato Grosso, Acre, Ceará e outros.

Na matéria do Headline, consta que o objetivo da medida seria permitir obras preventivas nos 1.038 municípios e que os projetos seriam de prevenção para médio e longo prazo.

Assim, vemos, na prática, que a repercussão na mídia mostra a importância da ação política com vistas à mitigação climática. Através de enfoques mais amplos e elaborados, a exemplo do Headline, identificamos que a pauta pode indicar, ainda, que não basta mitigar efeitos. Nesta linha, percebe-se que comunicação e jornalismo de qualidade podem contribuir para a clareza de que as mudanças climáticas estão aí e exigem a tomadas de atitudes urgentes e eficazes dos seres humanos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo sobre mineração no RS: onde estão os povos tradicionais?

Por Eutalita Bezerra*

Imagem: Site do Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa

Em 2019, neste observatório, Carine Massierer abordou a nova fronteira da mineração no Rio Grande do Sul. De lá até aqui, muitos passos foram dados em relação aos projetos citados em sua análise. O Mina Guaíba, de extração de carvão, foi arquivado em março deste ano. Também arquivou-se o Projeto Caçapava do Sul, que propunha a implantação de uma mina de Chumbo, Zinco e Cobre às margens do rio Camaquã. O projeto Retiro, de extração de Titânio, ainda está em discussão. Atualmente, mais de 150 plantas de mineração manifestam interesse de se instalar no estado. Dentre estes, o Projeto Fosfato Três Estradas, em Lavras do Sul, que teve suas Licenças de Instalação (LI) liberadas pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) e Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), no início deste mês.

O projeto que prevê a extração, beneficiamento e comercialização de minério de fosfato destinado à elaboração de fertilizantes para a agricultura, em Lavras do Sul, já havia sido trancado anteriormente por constarem vícios no processo de licenciamento, causando prejuízos ao meio ambiente e às comunidades e povos tradicionais do Pampa. Para esta análise, tomamos notícias publicadas sobre o assunto no momento da liberação da LI, a fim de entender como o contraponto à posição da empresa interessada, a Águia Fertilizantes, foi apresentado.

Em 1º de novembro, o Diário de Santa Maria divulgou online e, também, em sua edição impressa, que “Lavras do Sul terá a primeira mina de fosfato da região sul do Brasil”. O texto foi uma reformulação de release enviado pela prefeitura de Lavras do Sul, também publicado pelo jornal Minuano, de Bagé, maior cidade da Campanha Gaúcha, região na qual Lavras está inscrita. Neste, com o título “Águia Fertilizantes obtém licença de instalação de mina de fosfato em Lavras do Sul”, o texto descreve os participantes do evento, do que consta o empreendimento e quanto material será extraído, além da geração de empregos e vida útil da mina. Destaque para a perspectiva de dobrar a produção inicial entre oito a dez meses. Nada sobre os perigos dessa extração para o meio ambiente foi citado. A liberação foi destaque na capa do referido jornal.

Até o momento, no mês de novembro, apenas duas publicações foram feitas no Jornal Minuano sobre o assunto. Além da matéria já citada, mais uma inserção sobre o Projeto Fosfato Três Estradas foi feita pelo Minuano na edição de 5,6 e 7 de novembro, sob o chapéu “Política”, também em sua capa. No texto intitulado “BRDE firma termo para financiar mina de fosfato”, são destacados os R$15 milhões de aporte para as obras. Novamente, trata-se de texto exclusivo sob a perspectiva da empresa, sendo o CEO da Águia Fertilizantes a única fonte a se pronunciar.

Ainda em 1º de novembro, o Correio do Povo publicou “Licença para minerar fosfato em Lavras”, texto que mescla as mesmas informações do release da prefeitura de Lavras com fala do secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, Domingos Velho Lopes, para quem “[…]esse empreendimento não se afasta um centímetro do ambientalmente correto”. O texto aponta, ainda, que o estudo recebeu atenção de um grupo técnico multidisciplinar da Fepam e do Departamento de Recursos Hídricos da Sema. Nenhuma menção é feita aos povos tradicionais do Pampa ou mesmo aos perigos da exploração de fosfato.

A Zero Hora publicou sobre o assunto em 8 de novembro apostando na proposta de que a exploração de fosfato no estado ajude a reduzir a dependência nacional de importação de fertilizantes, com a expectativa de que o projeto de Lavras impulsione a produção noutras regiões. Do mesmo modo, o jornal não ofereceu uma linha para tratar das ameaças da exploração para o meio ambiente e para os povos tradicionais.

Com tantas plantas de mineração buscando instalação no estado e a falta de interesse do jornalismo em abordar quaisquer outras perspectivas da questão que ultrapassem a economia, o Bioma Pampa, bem como os povos tradicionais, seguem em perigo. Do lado de cá, propomos criar espaços em que se possa ouvir e multiplicar as perspectivas dissidentes, de modo que a pressão popular traga efeitos, como os vistos na Mina Guaíba e no Projeto Caçapava do Sul. A Licença de Operação para o Projeto Fosfato Três Estradas ainda não foi concedida. Pode haver tempo.

Referência:

Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa: https://comitepampa.com.br/

* Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do grupo de pesquisa Jornalismo Ambiental. Email: eutalita@gmail.com

Planeta em Transe: Cristiane Fontes amplia enfoque da cobertura climática

Captura de tela – Vídeo do sexto episódio da série especial de entrevistas do projeto Planeta em Transe do jornal Folha de S. Paulo

Por Roberto Villar Belmonte*

Com duração de um ano, Planeta em Transe “é uma série de reportagens e entrevistas com novos atores e especialistas sobre mudanças climáticas no Brasil e no mundo”. Ainda segundo descrição publicada pelo jornal, este projeto de cobertura especial da Folha de S. Paulo acompanha também as respostas à crise do clima nas eleições de 2022 – com destaque para a região amazônica – e na COP27, a 27ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que acontece no Egito entre 6 e 18 de novembro.

A jornalista ambiental Cristiane Fontes trabalha tecendo parcerias internacionais que ajudam a compreender e diversificar as vozes da luta ambiental. Logo após publicar, em meados de abril, as conclusões da pesquisa que coordenou intitulada “Narrativas Ancestrais – Presente do Futuro: Percepções sobre os Povos Indígenas no Brasil na última década (2011-2021)”, ela lançou no final de maio o projeto editorial Planeta em Transe em parceria com o jornal Folha de S. Paulo e apoio da Open Society Foundations.

A proposta anunciada é a realização de 24 entrevistas, publicadas quinzenalmente em texto e vídeo, com especialistas e ativistas que atuam no tema da crise climática, 12 brasileiros e 12 de fora do país. No entendimento do coordenador de justiça climática para a América Latina na Open Society Foundations, Iago Hairon, não é possível falar de direitos humanos sem falar da crise climática. Por isso, segundo ele, é preciso entender as narrativas das pessoas que estão na linha de frente.

Até o momento, apenas seis episódios foram produzidos em texto e vídeo, com três fontes brasileiras e três de fora do país: Uganda, Inglaterra e Estados Unidos. As entrevistas no formato pingue-pongue (pergunta e resposta) são realizadas pela própria Cristiane Fontes e pelo repórter e colunista Marcelo Leite, jornalista especializado em ciência e ambiente do Folha de S. Paulo. Os vídeos também são assinados pela editora de Ambiente do jornal, Giuliana de Toledo.  

Episódio 1

Vanessa Nakate, ativista climática de Uganda

Episódio 2

Eduardo Assad, pesquisador de mudança do clima na agricultura

Episódio 3

Joana Setzer, professora brasileira na London School of Economics

Episódio 4

Farhana Yamin, advogada e ativista britânica

Episódio 5

Ângela Mendes, ativista e filha de Chico Mendes

Episódio 6

Gillian Caldwell, diretora da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional

Esta parceria entre Cristiane Fontes e Marcelo Leite começou a ser alinhavada no ano passado. No início de dezembro de 2021, os dois já publicaram entrevista pingue-pongue – usando a cartola Mudança Climática – com a matemática e filósofa Tatiana Roque, autora do livro “O Dia em que Voltamos de Marte: Uma História da Ciência e do Poder com Pistas para um Novo Presente”, obra que detalha os avanços tecnológicos e disputas em torno dos paradigmas científicos nos últimos quatro séculos.

Mas foi somente no final de maio de 2022 que o jornal Folha de S. Paulo anunciou a estreia do novo projeto editorial. Desde então, além dos seis episódios já mencionados, notícias, reportagens e entrevistas com a cartola Planeta em Crise estão sendo publicadas sobre política e mudança do clima. Um exemplo foi a conversa da colunista Ana Carolina Amaral com Joenia Wapichana, única deputada indígena do Brasil na atual legislatura, que saiu na edição de 23 de julho.

Outro exemplo é a reportagem publicada por Giovana Girardi na edição de 17 de outubro sobre as emissões de metano do Brasil. Girardi, ex-repórter de ambiente do Estado de S. Paulo lançou em junho a série de podcast Tempo Quente, da Rádio Novelo, projeto já tratado neste Observatório.

Do ponto de vista dos estudos do jornalismo ambiental, duas questões chamam a atenção neste projeto editorial criado por Cristiane Fontes em parceria com Marcelo Leite. Primeiro a proposta de trazer para a agenda pública vozes de pessoas que atuam na linha de frente da crise climática, não apenas cientistas ou empresários, mas também ativistas. Espera-se que militantes da guerra ambiental apareçam com mais frequência nas páginas do jornal Folha de S. Paulo.

Outro ponto relevante é a participação de diversos repórteres do jornal na produção de notícias e reportagens sobre a crise climática no Brasil, o que mostra a relevância cada vez maior do jornalismo ambiental. Este, aliás, é o grande desafio dos cursos de jornalismo no país: formar profissionais capazes de tratar com proficiência as causas, as consequências e as política públicas necessárias para dar conta da crise climática. Com ou sem milicianos no poder.

Referências

27ª Conferência das Partes (COP 27) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima

https://unfccc.int/cop27

https://cop27.eg

Narrativas Ancestrais – Presente do Futuro: Percepções sobre os Povos Indígenas no Brasil na última década (2011-2021)

http://www.amoreira.info/narrativasancestrais/

*Roberto Villar Belmonte é professor de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Cai o ministro, segue a boiada: o PL490 é sobre a vida de todos nós

Por Ângela Camana*

Imagem: Captura de tela do site El Pais Brasil

Os acontecimentos desta última semana de junho, narrados em textos que ocuparam as capas dos principais portais de notícias, são representativos de um argumento recorrente entre aqueles e aquelas que se dedicam a pensar o jornalismo ambiental: as “questões ambientais” não estão restritas a uma editoria específica, pois as transbordam. A cobertura sobre a tramitação do PL490 – que altera a legislação sobre terras indígenas, instituindo, entre outras mudanças, o marco temporal – foi manchete ao longo de toda a semana, mobilizando discussões que vão desde os arranjos político-partidários à denúncia do ataque que este projeto de lei promove aos direitos dos povos originários e, em última instância, à própria natureza, já que abre margem para o garimpo e a grilagem. Poucos textos, no entanto, abordaram o fato de que a preservação da floresta é cara não unicamente aos que nela habitam, mas a todo o planeta, já que a manutenção da biodiversidade é necessária à regulação do clima, por exemplo. E, infelizmente, a pauta também chegou às páginas policiais, devido à ação truculenta da polícia para sufocar a manifestação dos indígenas de diversas etnias em frente ao congresso – com repercussão inclusive em veículos internacionais, como o The Guardian.


Observar a cobertura que a imprensa brasileira dedicou ao PL490 já é uma tarefa a ser sugerida nas salas de aula dos cursos de jornalismo de todo país – pois, por mais que algumas notícias relutem em assumir, trata-se de pauta cujas fronteiras editoriais são borradas: direitos humanos, economia e política são indissociáveis da natureza. Averiguar as estratégias narrativas adotadas pelos veículos acerca de uma pauta que envolve mais de 500 anos de história, a usurpação de terras indígenas, torna-se um desafio ainda maior quando observamos que este debate irrompe justamente na semana em que o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles deixa o governo.
Ricardo Salles – como lembram jornais mundo a fora – está envolvido em acusações de tráfico de madeira e é possível que novas provas venham à tona nas próximas semanas. Não podemos esquecer que Salles é também o autor da célebre sugestão de que o Brasil deveria aproveitar a pandemia para “passar a boiada”. De fato, é a perspectiva que se coloca, sobretudo quando observamos a nomeação de um ruralista como novo ministro.
Infelizmente, parece que se vão os ministros, mas seguem seus bois – e estes passam por cima da Constituição, dos biomas e dos direitos indígenas. Como diz Eliane Brum em sua coluna semanal, no El Pais, a votação do PL490 é um ponto de não retorno: “A boiada passa inteira e nós todos, inclusive os autores do crime, ficaremos embaixo dos cascos porque a floresta vai virar outra coisa. E a coisa que vira não vai regular o clima”.
Fica o convite, então, para que o jornalismo brasileiro pare de se debater entre suas muitas cartolas pré-prontas e assuma, de uma vez por todas, que o ambiente seja não só uma pauta, mas um aliado. E é importante para todos nós que se imponha um freio à boiada e aos boiadeiros.

Cais Mauá: Com quantos adjetivos negativos se (des)faz um espaço?

*Eutalita Bezerra

Imagem: Captura de tela do site do Jornal do Comércio

Nos últimos quatro ou cinco anos, por conta da minha pesquisa de doutorado, investiguei a cobertura acerca das construções (ou destruições) nas áreas de Cais no Brasil. Em certo momento, buscando uma analogia entre o que ocorria no Cais José Estelita, em Pernambuco, no qual um conjunto de empreiteiras leiloou o terreno à beira do rio e propôs erguer ali um paredão de edifícios, e um possível futuro do Cais Mauá, em Porto Alegre, folheei as publicações tradicionais da cidade. A expectativa era de traçar paralelos entre as narrativas. O silêncio sobre o assunto era de tal forma significativo que inviabilizou a análise.

No último ano, porém ,tenho percebido um crescimento das discussões sobre o assunto nas páginas gaúchas, possivelmente mobilizado pelo já inaugurado Cais Embarcadero e por novas possibilidades para a região. Um exemplo pode ser visto no último dia 15 de junho, em que duas publicações foram feitas pelo Jornal do Comércio, ambas tratando de uma possível “revitalização” e exploração econômica da antiga área portuária de Porto Alegre.

A primeira delas, intitulada, “ ‘Projeto Cais Mauá é emblemático e único no País’, diz responsável no BNDES”, publicado sob a cartola “Patrimônio”, trata especialmente dos esforços do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, instituição responsável pelo estudo que vai sugerir ao Estado o formato para atrair interesse do setor privado naquela área.

Ao tratar sobre o espaço, convém destacar os termos utilizados, seja para descrevê-lo ou para apontar os caminhos já tomados: espaço degradado, desafio, concessão fracassada, conjunto deteriorado. O tombamento de alguns dos armazéns pelo patrimônio histórico também é citado como um entrave, inclusive apresentado como um dos responsáveis pela rescisão de um contrato anterior para obras na região.

Apesar de tantas agruras, o Banco parece enxergar ali potencialidades. Sua localização privilegiada, no centro da cidade, bem como seus mais de três quilômetros de extensão, o tornam de tal maneira “único” que merece a atenção do Departamento de Ativos Imobiliários da instituição financeira. Ao mesmo tempo, este, segundo a publicação, evitou comentar o potencial da área, bem como o volume de investimentos esperado.

Já a segunda publicação vem na coluna Pensar a Cidade, tutelada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul, com a cartola “Urbanismo”. Sob o título “Estudo sobre o Cais Mauá inicia com escuta ao público”, informa acerca dos primeiros de dez workshops propostos pelo Consórcio Revitaliza, grupo de oito empresas delegadas, junto com o BNDES, pelo estado para definir o melhor uso para a área.

O texto descreve os encontros como reuniões para apresentar “levantamentos iniciais sobre a área, bem como coletar sugestões sobre como poderia ser usada e qual a percepção das pessoas sobre o Cais e sua relação com a cidade”. O primeiro encontro teria ocorrido apenas com empresários e o segundo, apontado como “dia de maior debate”, recebeu a comunidade local, do entorno ou com algum interesse direto na área.

Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, representantes de entidades da sociedade civil, como o Observatório das Metrópoles e da Associação Amigos do Cais do Porto, foram nominados no texto como vozes dissidentes. O texto admite, ainda, novas reuniões com entidades de arquitetura, universidades e imprensa sobre as “singularidades criativas que caracterizam o local”. O mesmo texto também admite que em pelo menos dois dos encontros serão realizadas devoluções, informando o que se pode ou não incorporar ao projeto a partir das contribuições recebidas.

Nesta publicação, embora o caminho pareça mais aberto que aquele vislumbrado noutras oportunidades ao se discutir o futuro de áreas de Cais, a naturalização do olhar para o espaço como apenas um ativo,necessariamente nos chama a atenção, mas não é o ponto mais importante neste momento. O que nos atinge com mais propriedade é o fato de que, mesmo quando em abertura a contribuições que fujam da lógica acumuladora e espoliadora, não há qualquer menção ao potencial impacto ambiental decorrente de sua utilização. Não é possível, aliás, dizer que esse assunto não foi tratado na reunião. Mas é plenamente factível afirmar que, caso tenha sido, o jornal não tomou como importante o suficiente para ser citado num texto que conta com três subtítulos.


Ao jornalismo, especialmente em momentos decisivos como este, em que o impacto de um empreendimento de grande envergadura não é analisado em sua potencialidade e nos seus riscos, cabe reforçar que o silêncio também é narrativa. E aqui retomo o olhar ao que ocorreu em Pernambuco: lido como um não-lugar pelos jornais, o terreno do Cais José Estelita, hoje e adiante, serve a uma ínfima parte da população. Seguirá com a expectativa do que poderia ter sido e não foi.


Para um destino diferente, os jornalistas precisam explanar as questões ambientais envolvidas nessa pauta hoje. É mister admitir que este não pode ser um assunto para segundo momento, quando as definições “sobre o que se pode ou não incorporar ao projeto”, como dito anteriormente, já estejam tão cristalizadas que seja impossível enxergar outros caminhos.

* Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eutalita@gmail.com

Desmatamento no Brasil: informação já temos, o que precisamos é agir

Cláudia Herte de Moraes *

Fonte: https://www.oeco.org.br/reportagens/relatorio-mostra-que-998-dos-desmatamentos-no-brasil-em-2020-foram-ilegais/

A informação e a comunicação de dados ambientais são crescentes, sendo cada vez mais relevantes para dar subsídios à tomada de decisões, especialmente, aos formuladores de políticas públicas. Num mundo ideal (ou pelo menos inteligente), sociedade e seus cidadãos, bem como os poderes instituídos deveriam utilizar o conhecimento destes dados para proteger a vida em primeiro lugar, e respeitar os preceitos da proteção ambiental é um caminho bastante importante para o Brasil, devido aos seus biomas ricos em biodiversidade. No lançamento do MapBiomas Alerta, em 11 de junho de 2021, o destaque foi dado ao crescimento do desmatamento em todos os seis biomas brasileiros que fazem parte do monitoramento. O crescimento foi de “13,6% em 2020, atingindo 13.853 km2 (1.385.300 hectares), uma área nove vezes maior que a cidade de São Paulo. Desse total, 61% estão na Amazônia.”. A análise inédita de 74.218 alertas de desmatamento no Brasil está publicada e aberta ao público. (https://mapbiomas.org/pais-perdeu-24-arvores-por-segundo-em-2020).


O MapBiomas Alerta é uma iniciativa do consórcio MapBiomas constituído por mais de 20 instituições, entre ONGs, universidades e startups de tecnologia. Seu objetivo é processar os alertas de desmatamento emitidos por cinco sistemas: o Deter (do Inpe, para a Amazônia e o Cerrado), o SAD (do Imazon, para a Amazônia), o Glad (da Universidade de Maryland, para Mata Atlântica, Pantanal e Pampa), o Sirad-X (do Instituto Socioambiental, para a bacia do Xingu), e ainda incluindo os dados do novo SAD Caatinga (da Universidade Estadual de Feira de Santana e da Geodatin).


A iniciativa MapBiomas surgiu para buscar ferramentas para a compreensão sobre os fatos relacionados ao território brasileiro em relação à emissão de gases de efeito estufa no país, conforme pontuou Tasso Azevedo (Observatório do Clima), na live de lançamento do MapBiomas Alerta. Com isso, é possível organizar o conhecimento tanto em relação ao desmatamento, quanto a outras transformações importantes nos biomas, por exemplo, com a exploração e extração mineral, a utilização de água, a urbanização entre outras. A base do trabalho se dá com auxílio de softwares de aprendizagem de máquina, capaz de auxiliar na interpretação de imagens de satélites, cruzamento de dados, trazendo aos mais de 100 profissionais envolvidos, a possibilidade de interpretação de dados em nuvem, de forma ampliada e em tempo recorde.


A equipe do MapBiomas concluiu que o desmatamento está crescente em todos os biomas e é, em sua vasta maioria, composto de casos de atividades ilegais. Mais de 70% se dá em domínios privados e há possibilidade de responsabilização de ⅔ das áreas desmatadas. No entanto, também apontam que 99% das propriedades rurais não tiveram desmatamento em 2020 – e sofrem com a impunidade daqueles que infringem as leis. Para tratar deste tema neste Observatório de Jornalismo Ambiental, fizemos uma busca exploratória no Google, em busca da repercussão nos jornais, com os termos “Relatório inédito do MapBiomas Alerta”, na data de 13 de junho. A partir das publicações encontradas, pudemos conferir que houve boa repercussão das informações, tanto em portais, jornais alternativos e sites especializados ou institucionais, quanto em jornais e portais mais tradicionais da imprensa brasileira.

Listagem das principais notícias sobre MapBiomas Alerta

Com essa repercussão, que deve ser ampliada durante esta semana, podemos concluir que estamos num momento de intensa proliferação de informações e dados ambientais, sendo que o nosso maior problema é o que está sendo feito (ou não) com estas informações e alertas científicos. Estamos ingressando na década considerada determinante quanto aos destinos e rumos de nossa civilização, levando em conta que estamos muito próximos do ponto de não-retorno quanto à mudança do clima global. A informação ambiental está clara e os cidadãos e seus representantes na política, especialistas e empresários, todos nós precisamos entender esse alerta. A hora é, portanto, de ação. O jornalismo também precisa direcionar sua cobertura quanto aos alertas, e avançar ainda mais no questionamento sobre a falta de ação, especialmente por parte de agentes públicos e de fiscalização, para que haja a real responsabilização dos desmatadores no Brasil.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br