Washington Novaes: “Essa coisa de meio ambiente não existe porque o meio ambiente é tudo”

Imagem: Reprodução/TV Anhanguera

Reges Schwaab*

Uma parte da história do jornalismo de qualidade acerca das questões socioambientais passa pelo trabalho dedicado de Washington Novaes, falecido em 25 de agosto, aos 86 anos, em Goiás. Um profissional que sugeriu caminhos e acompanhou diferentes fases da abordagem do tema no país. Em seu percurso, soube bem como abrir espaço e ajudar a pensar a cobertura sobre meio ambiente em distintos contextos. 

    Na atualidade, os problemas ambientais são reconhecidos publicamente pela dinâmica social na qual se inserem e pelo modo como ingressam nas agendas globais e nacionais, exigindo atenção jornalística mais cuidadosa. O cenário de riscos, que afeta todos os modos de vida, tornou impossível não reconhecer que o esforço deve vir também dos jornalistas. Novaes, podemos arriscar, é nome central para pensar viéses de atuação nesse cenário. Apesar dos distintos entraves e desafios, o lugar do jornalismo sobre meio ambiente no Brasil deve muito ao que Washington Novaes produziu, e como ele realizou a proposta jornalística que tinha em mente, em uma intencionalidade clara e embasada. 

    Na internet, uma rápida busca pelo nome do jornalista nos levará a diferentes contribuições, seja fazendo jornalismo, seja produzindo crítica ou opinião, em um esforço continuado pelo bom debate. Era um defensor de que o jornalista buscasse formar seu repertório para atuação. E a despeito do intenso trabalho com temáticas ambientais e socioambientais, chegou a declarar, certa vez, que não se considerava um jornalista especializado em meio ambiente: “Eu sou jornalista, como sempre fui. Mas tenho uma história de vida e de profissão que me levou a um interesse cada vez maior por isso ”.

    A declaração, assim como a frase que dá título ao presente texto, estão no episódio “Meio ambiente: a mídia ainda de olhos fechados”, exibido pelo Observatório da Imprensa em 12 de junho de 2012, às portas de mais uma Conferência da ONU sobre Meio Ambiente, novamente no Brasil, a Rio+20 (vídeo a seguir). Algum tempo depois, em entrevista para as jornalistas Paula Chamorro e Mônica Ribeiro, elaborou sua crítica em termos semelhantes: “Eu sempre tento esclarecer que não sou ambientalista. Eu sou jornalista, e se trato muito dessas questões é porque não há como isolar o meio ambiente do restante. O meio ambiente está em tudo que a gente faz, na nossa vida toda. Não pensar nas chamadas questões ambientais significa deixar os problemas crescerem, e esses problemas são cada vez maiores”.

“A gente sempre esbarra em uma mesma questão, que são as lógicas financeiras se sobrepondo às chamadas lógicas ambientais” – Washington Novaes

    Em cerca de seis décadas de atuação, Washington Novaes foi colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Popular (GO). Na TV Cultura de São Paulo, foi supervisor de Biodiversidade e comentarista do programa Repórter Eco. Passou por diferentes funções nos jornais Folha de S. Paulo, Estado, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Última Hora, Correio da Manhã, e nas revistas Veja e Visão. Foi por sete anos editor-chefe do Globo Repórter, editor do Jornal Nacional e comentarista do Globo Ecologia, da Rede Globo. Como produtor independente de televisão, dirigiu as séries Xingu – a terra mágica, Kuarup, Pantanal e Xingu – a terra ameaçada, frutos de sua especialização em questões indígenas. Entre seus livros estão Xingu – uma flecha no coração (Brasiliense, 1985), A quem pertence a informação (Vozes, 1989) e A Década do Impasse – da Rio 92 à Rio+10 (Estação Liberdade, 2002). Recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Goiás (em 2009).

    Em diferentes ocasiões, afirmou que o repórter que ingressa no tema ambiental tem de mudar sua visão de mundo e conhecer uma grande variedade de assuntos. Seu olhar atento também desafiava a repensar a cobertura corrente: “Se a imprensa resolvesse levar a sério a questão ambiental, teria que mudar toda a cobertura”, comentou certa vez. Seu trânsito por meios de referência e o tempo de profissão permitiam uma análise mais conjuntural. No episódio do Observatório da Imprensa, conversando com Alberto Dines, outro grande nome do jornalismo e da crítica à imprensa, Washington Novaes sintetizou um dos entraves no tratamento mais adequado do tema ambiental no Brasil, o conflito de interesses do mercado de comunicação: 

Eu acho que os meios de comunicação, durante muito tempo, viram as questões sobre o meio ambiente como coisa de hippies ou de profetas do apocalipse. Hoje, se tem a consciência de que é quase impossível discutir qualquer tema sem levar o meio ambiente em conta, porque tudo o que o ser humano faz causa algum impacto sobre o meio ambiente. O problema é que isso atinge interesses poderosos e a mídia fica com medo de ferir esses interesses. Então tudo isso se torna bastante complicado. 

Veja o episódio completo:

    As alterações do clima, hoje tratadas como emergência climática, o crescimento da população, o caos urbano e aumento da demanda por matéria-prima, com exploração desenfreada do ambiente, além do desrespeito aos povos tradicionais, temas demasiado complexos e inter-relacionados, não condizem com a descontinuidade e a falta de aprofundamento. Em sua visão, o jornalismo carecia de uma abordagem mais assertiva: “A comunicação tem que dar uma sequência no debate sobre o meio ambiente e não ficar cobrindo apenas fatos episódicos”, fazendo referência ao abandono das abordagens findado seu suposto “ciclo”. Um outro trecho do programa ilustra esse pensamento. Na interação com Dines, Washington Novaes exemplifica a recorrente incorreção do jornalismo na abordagem das pautas ambientais:

Dines – E a imprensa tem medo…

Washington – É. E fica ali se equilibrando entre as contas e um outro problema, esse você conhecDines – E a imprensa tem medo…e bem, que é a falta de continuidade no tratamento das questões. Noticia num primeiro momento em que há um impacto.

Alberto Dines – Como agora, nesse momento [à época, vésperas da Rio+20] 

Washington Novaes – … e depois esquece totalmente. Que é que está tratando, por exemplo, das consequências dos desastres climáticos na região serrana do Rio de Janeiro há mais de um ano [falando em 2012]. Quem está indo lá ver o que está acontecendo, o que foi feito para resolver? […] Não há sequência e os problemas vão acontecendo. Por exemplo, ninguém viu que 400 mil pessoas ocuparam as margens das represas de abastecimento de água de São Paulo, em áreas ilegais. Ninguém viu isso? E de repente vira um problema enorme. Como você faz com 400 mil pessoas ali, sem redes de esgotos, despejando esgoto e lixo na beira do manancial.

    A atenção respeitosa com as temáticas indígenas foi traço marcante em toda sua trajetória, em especial no trabalho em livros e no audiovisual. Novaes sublinhava a necessidade de respeito e profundo reconhecimento ao modo de vida e aos ensinamentos dos povos tradicionais. Por tal esforço, quando no centro do programa Roda Viva (TV Cultura), no ano 2000, recebeu um questionamento do então senador Blairo Maggi, sobre se teríamos de passar a viver como indígenas, se esta seria sua opinião. Washington Novaes rapidamente contestou: “Não, nós não teríamos competência para isso. Mas nós poderíamos aprender com eles”. 

    O exemplo de Washington Novaes é demasiado importante para ser resumido, cabendo recomendar o estudo de sua produção. Mas podemos ter sempre em conta que seu trabalho e sua obra compreendem um gesto de repensar constante do jornalismo por um princípio ecológico, justamente na potencialidade geradora que o fundamenta, em lógica dialética. Emerge um sentido cidadão e adequado ao tempo que vivemos, capaz de contemplar o cenário de exigências que se desenha para as práticas jornalísticas e o tema ambiental.

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Cobertura jornalística em ano de eleições e pandemia: onde está a discussão da política ambiental no Brasil em chamas?

Fonte: Captura de tela do site G1

Por Débora Gallas Steigleder*

Notícias sobre acontecimentos que ameaçam ecossistemas e o bem-estar das populações humanas, em plena pandemia, deveriam ser recebidas com preocupação e suscitar o debate público sobre as estratégias políticas para o enfrentamento de crises que se sobrepõem. Assusta, por exemplo, que fatos como o crescimento de registros de supressão da vegetação nativa na Amazônia soem repetidos diante da recorrência de crimes ambientais incentivados pelo próprio governo federal.

Publicada em 19 de agosto, um ano após os incêndios criminosos na Amazônia dominarem o noticiário nacional com a chegada da nuvem de fumaça à cidade de São Paulo, reportagem de Carolina Dantas para o G1 informa sobre as queimadas que têm ameaçado os biomas Pantanal e Amazônia nas últimas semanas. A produção contextualiza o impacto do fogo de acordo com o ecossistema afetado. Também recorre a infográficos para auxiliar na visualização dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Especiais e recupera informações veiculadas em outras emissões da Rede Globo, como Jornal Nacional e Fantástico. A relação entre os efeitos das queimadas na saúde humana também apareceu em G1 nesta semana, mas através de conteúdos produzidos por agências, como esta notícia da Reuters, assinada por Pedro Fonseca. O texto destaca estudo da Fundação Oswaldo Cruz sobre a probabilidade de aumento das doenças respiratórias na Amazônia, região já castigada pela Covid-19. O conjunto dos materiais de fato evidencia a gravidade da situação às leitoras e leitores do site.

Fonte: Captura de tela do site G1

No entanto, sentimos falta de um chamado à ação na cobertura. O que resta ao público além de lamentar o acúmulo de catástrofes? A menos de três meses do pleito que elegerá novos representantes nas Prefeituras e Câmaras de Vereadores, como o jornalismo pode pautar iniciativas ambientalmente responsáveis, de caráter preventivo, frente às campanhas políticas que estão por iniciar? Observando os conteúdos também publicados na editoria Natureza de G1 na mesma semana, uma possibilidade seria dar espaço às reivindicações dos indígenas Kayapó Mekrãgnotire, que realizam protesto na BR-163, no Pará. Afinal, a motivação dos ativistas indígenas tem a ver com os direitos negados a seu povo enquanto o incentivo ao progresso prioriza a construção de rotas para o escoamento de grãos produzidos em áreas com histórico de desmatamento e queimadas.

E, para evidenciar as conexões intrínsecas entre as questões ambientais, é necessário ir além do factual em matérias como a que reporta a liberação de novos agrotóxicos pelo Ministério da Agricultura em 20 de agosto. Aqui no Observatório, já falamos sobre o uso de venenos estar relacionado à lógica produtiva das monoculturas para exportação de commodities, atividade agroindustrial que motiva a degradação dos biomas brasileiros. Falta à cobertura jornalística destacar tais relações e evidenciar soluções, muitas das quais já emergem das próprias comunidades. Iniciativas como o cultivo de soja orgânica no Mato Grosso do Sul, conforme reportado por Brasil de Fato em 20 de agosto, poderiam ser abraçadas pelo poder público, mesmo que em pequena escala, a fim de garantir uma produção ecológica de alimentos, que respeite os ecossistemas e garanta e comida de qualidade para a população.

Entendemos que o papel do jornalismo é cobrar ações mais contundentes dos governantes na resposta à pandemia e aos problemas sociais, ambientais e educacionais que a partir dela se intensificam. Mas também acreditamos que o jornalismo pode catalisar mudanças sociais ao visibilizar alternativas para um planeta em crise.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Mongabay reforça o jornalismo ambiental no Brasil

Imagem: Captura de tela – Capa do site em português da agência de notícias criada pelo ambientalista Rhett Ayers Butler  para chamar a atenção sobre a importância social e ecológica das florestas tropicais

Roberto Villar Belmonte*

O jornalismo ambiental praticado no Brasil ganhou um reforço internacional. Desde 2019, a agência de notícias Mongabay começou a trabalhar com jornalistas brasileiros para cobrir no país mais megadiverso do planeta pautas sobre florestas tropicais, conservação, desmatamento, povos indígenas e infraestrutura. 

Notícias ambientais para informar e transformar é o que promete o serviço de jornalismo independente criado pelo ambientalista estadunidense Rhett Ayers Butler, de 42 anos, atualmente com 500 correspondentes em 70 países e produções originais em inglês, indonésio, espanhol e português. 

No seu site em português, a Mongabay diz que “visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento”.

O jornalismo ambiental com foco em conservação da vida silvestre não é inédito no Brasil. Esse também é o viés do site O Eco, criado em 2004, e da extinta revista Terra da Gente (2004-2014). A novidade é que a Mongabay chega em um momento de barbárie ecológica fomentada por um governo federal de extrema direita.

O fundador da Mongabay faz questão de dizer no site em inglês que não se posiciona acerca das controvérsias ambientais. Ela não seria uma organização que advoga em prol das florestas tropicais, mas uma agência de notícias que praticaria um jornalismo independente baseado em fatos.

Como a cobertura é especializada, não há uma publicação de conteúdo com a mesma frequência dos sites de hard news. No site em português, há praticamente uma publicação diária. O site sempre tem uma manchete principal e três destaques. E um detalhe importante: jornalistas colaboradores são pagos. 

No sábado passado (15 ago. 2020),  a manchete de capa era uma notícia sobre os dados mais recentes do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP): 242 focos de incêndio na Amazônia Legal brasileira entre 28 de maio e 12 de agosto, “quase a área do município de São Paulo”.  

Entre os destaques, uma reportagem assinada pelo jornalista Dimas Marques, criador do site Fauna News, explicando “como funciona o comércio ilegal que transforma papagaios livres em pets”, publicada no dia 13 agosto. O crime aconteceria anualmente no bioma Cerrado entre agosto e novembro.  

Em outro destaque na capa do site em português, Tiffany Higgins alerta: “O governo federal planeja escavar e dragar milhões de metros cúbicos de rochas e areia do Rio Tocantins no Pará – inclusive no delicado ecossistema conhecido como Pedral do Lourenço, habitat de espécies endêmicas de peixe”. 

Mongabay foi lançado em 1999 como um site de divulgação científica sobre florestas tropicais. A transformação em agência de notícias internacional ganhou fôlego em 2012 com a contratação de uma equipe na Indonésia. Em 2016, Rhett Butler lançou o serviço em espanhol focado na América Latina e no ano passado chegou ao Brasil.

O nome Mongabay é uma homenagem do ambientalista Rhett Butller a uma pequena ilha (Nosy Mangabe) localizada no nordeste de Madagascar considerada um paraíso da vida silvestre. O logo da agência de notícias é inspirado em um pequeno lagarto (day gecko) que vive naquela região. 

A Mongabay não é o único serviço estrangeiro que cobre meio ambiente no país. Pautas ambientais também fazem parte do noticiário da Agência Inter Press Service (IPS), El País Brasil, The Intercept Brasil, Le Monde Diplomatique Brasil, BBC Brasil e Deutsche Welle Brasil.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A explosão em Beirute e as verdades que o jornalismo insiste em não contar

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Por Ursula Schilling*

Uma imagem que lembra um cenário de guerra. Assim foi o momento da explosão em um depósito portuário de nitrato de amônio em Beirute, capital do Líbano. Assim também serão muitos dias para as milhares de pessoas afetadas pelo evento. Foram quase três mil toneladas da substância que viraram uma nuvem em formato de cogumelo, muito semelhante a uma bomba atômica. Acredite, isso não é uma coincidência. 

O acontecimento tomou conta dos noticiários. Mídias impressas, televisivas, radiofônicas e digitais deram (e seguem dando) amplo espaço à questão, atendendo a critérios jornalísticos de noticiabilidade. O Jornal Nacional de 5 de agosto, um dia após a tragédia, dedicou 5 minutos – um tempo expressivo quando falamos de TV – ao assunto, mas, como a maioria dos veículos, não passou da superfície da notícia em sua abordagem. 

Foi uma cobertura-padrão: o primeiro minuto e meio trouxe os números oficiais de mortos e feridos e uma sequência de imagens de agências de notícia sobre a explosão e os instantes seguintes. Depois, hipóteses para a explosão, o pronunciamento do governo libanês, segundo o qual o depósito estocava o material de forma incorreta há seis anos (seis anos!). Uma das preocupações, além da evidente destruição, são os problemas respiratórios que a liberação de gases vai causar. Aos que ainda têm suas casas, as autoridades estão pedindo que evitem sair. 

Na sequência, o de sempre: mobilização internacional, mensagens de solidariedade, buscas por soterrados, prejuízos financeiros. Falou-se em instabilidade política e até em terrorismo. Mencionou-se a iminência de escassez de alimentos, reforçando o mito de que somente com as monoculturas de commodities, que acarretam ampla utilização de agroquímicos, é possível alimentar o mundo. 

A essa altura, o leitor deve se perguntar “mas e o jornalismo ambiental?”, “não é este um observatório para analisar tópicos relativos ao tema?”. O nitrato de amônio é a base para muitos fertilizantes sintéticos amplamente utilizados em diferentes tipos de cultivo. Na continuação da matéria sobre o desastre em Beirute, durante mais quatro minutos, o Jornal Nacional apontou a substância, que tem nitrogênio em sua fórmula, como essencial para a agricultura. Para justificar sua utilização, apesar dos riscos, trouxe diferentes “vozes de autoridade”. Um engenheiro agrônomo e a ANDA – Associação Nacional de Difusão do Adubo – que definiram a substância como fundamental para a qualidade de vida das pessoas –, ambos defendendo o caráter comum, estável, seguro (supostamente mediante o manejo correto) do composto, cujas entrada no Brasil, estocagem, e manipulação são controladas pelo Exército. 

Trabalhadores da indústria dos fertilizantes não foram ouvidos. Pessoas afetadas pela sua produção, incluindo por eventos como explosões, tampouco. Estudiosos que defendem a agroecologia, nem falar. Prevalece o viés da necessidade pela “segurança alimentar” e pela empregabilidade das pessoas. É a prevalência da lógica do “Agro é pop”, defendida pela emissora do programa em questão. Além disso, nada foi dito sobre a história dos fertilizantes, originalmente utilizados pela indústria bélica para a fabricação de bombas. Os “adubos” vieram somente depois, haja a vista a necessidade de lucro, encontrar utilidade para o produto e manter o negócio após a grandes guerras. É um caminho obscuro de interesses, lobbies e incontáveis mortes. Esses produtos, sem falar nos agrotóxicos utilizados em larga escala, estão na nossa mesa diariamente. Isso sequer tangenciou a cobertura. 

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Qual é a solução? É a realização de um jornalismo mais “alargado”, como propõem as discussões acerca do jornalismo ambiental. Afinal, quase todas as pautas são ambientais – habitamos este mundo e nossa existência está ancorada nos seus recursos (naturais). Começar questionando aquilo que é tido como “fato dado” é um ponto de partida importante. É pelo questionamento que se chega ao ímpeto de mudança, uma mudança com potencial de gerar real transformação. 

Os valores-notícia são importantes, mas devem acompanhar o aperfeiçoamento e a busca por conhecimento por parte dos jornalistas. Não basta responder às perguntas “o quê, quem, como e onde”. Os “porquês” devem ser explorados com mais profundidade e compromisso com o papel/potencial educativo que as mídias de massa têm. A TV aberta, por exemplo, segue sendo a que tem maior alcance entre os brasileiros. 

É preciso romper a superfície dos fatos. É preciso contar histórias mais completas, suscitar o debate, provocar a reflexão. Por ora, nesses quesitos, o jornalismo hegemônico, quase como um todo, tem falhado miseravelmente. 

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Lições dos (a)típicos fenômenos climáticos para o jornalismo

Fonte: Captura de Tela do site de Zero Hora

Há cerca de um mês, a palavra ciclone-bomba tornou-se comum nas conversas cotidianas dos brasileiros da Região Sul e no repertório do jornalismo. No dia 30 de junho, 12 pessoas morreram em Santa Catarina, Paraná, e Rio Grande do Sul, e outras milhares ficaram desalojadas devido ao vendaval que alcançou 168 km/h em alguns locais.

Uma semana depois, no dia 7 de julho, outro ciclone extratropical, mas de ventos menos intensos, provocou chuvas fortes no Estado gaúcho. Rios, já cheios do fenômeno anterior, transbordaram. No dia 11 de julho, 7,1 mil gaúchos estavam desalojados ou desabrigados e, até 20 de julho, 194 pessoas permaneciam fora de suas casas.

No centro do debate sobre a tragédia gerada por ambos os fenômenos – uma amostra de quadros que poderão ser cada vez mais comuns no futuro e que não podemos dissociar dos eventos que atingiram o Rio Grande do Sul – deveriam estar as mudanças do clima. Cabe lembrar que, há poucos meses, uma estiagem, abordada por Ângela Camana neste Observatório, impactava, ao menos, 70% dos municípios do Estado.

Embora não haja consenso científico sobre esses fenômenos meteorológicos decorrerem das mudanças climáticas, sabe-se que a alternância de situações extremas, da falta de chuva ao seu excesso, é um dos sinais que cientistas apontam estar relacionados às alterações do clima. Essa é uma das conclusões da reportagem de Zero Hora que indicou propostas possíveis para mitigar os efeitos desses desastres ambientais, como promover ações integradas entre prefeituras, construir estruturas públicas de absorção de água, oferecer programas de habitação para moradores de áreas de risco e usar tecnologias eficientes.

Inspirado na noção de jornalismo de soluções, que busca resoluções para problemas sociais, o texto de Zero Hora oferece ideias de caminhos que a gestão pública pode trilhar. Mas o problema é complexo e, sobretudo, humano. Os habitantes de áreas de risco, não têm suas vozes ecoadas na reportagem. O destaque coube a pesquisadores e autoridades da Defesa Civil. A falta de espaço aos atingidos pelas enchentes não se restringiu a essa matéria, mas pôde ser notado de modo reincidente na cobertura de diversos jornais da imprensa gaúcha.

Fonte: Lauro Alves para Agência RBS

Em notícia de 02 de julho, o Jornal do Comércio tratou dos impactos do ciclone-bomba com base nas informações da Defesa Civil, sem, no entanto, ouvir pessoas que presenciaram os momentos de pânico. No Correio do Povo, a cobertura da enchente na Capital Gaúcha foi mais ampla que a realizada no Vale dos Sinos. Ao passo que uma notícia sobre o desalojamento de famílias do arquipélago de Porto Alegre realizou entrevistas com as pessoas atingidas, outra matéria, também sobre famílias que sofreram com a inundação, agora em São Leopoldo, usou apenas as informações disponibilizadas pela secretaria municipal.

Desastres como esses, provam a necessidade de o jornalismo ver humanidade em cada número da Defesa Civil. Especialmente considerando a constância das enchentes nas bacias hidrográficas que abastecem o Guaíba, os dois ciclones não devem ser tratados como fenômenos traumáticos já superados, ou já saturados. São exemplos da necessidade de empenho da gestão pública quanto à mitigação, e de uma discussão mais aprofundada, no âmbito das notícias locais, que possibilite conectar a maior seca dos últimos anos, seguida, semanas depois, de uma enchente histórica, com as alterações climáticas que aí se manifestam.

As milhares de pessoas fora de casa no estado perderam bens, passaram frio, sofreram medo de saques em suas residências, sem esquecer, é claro, dos riscos em função da pandemia do Coronavírus. O jornalismo pode, mais do que contar a tragédia, se deixar impregnar pelos narrares de quem sofreu com a força dos ventos ou a invasão das águas em seus lares, ouvindo as suas demandas, e pautando, com maior complexidade, os desafios que esses fenômenos climáticos geram.

* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: mathias.lengert@gmail.com