Jornalismo ou comunicação ambiental?

Imagem: Captura de tela – Assuntos em destaque na capa do movimento editorial Um Só Planeta, do Grupo Globo, no dia 22 de maio de 2021

Roberto Villar Belmonte*

O Grupo Globo lançou em 2021 um movimento editorial para enfrentar a crise climática chamado Um Só Planeta. Formada por 19 veículos, entre eles os jornais O Globo, Valor Econômico e a rádio CBN, a iniciativa tem desde o início quatro patrocinadores: Ambipar Group, Braskem, Engie e Natura.

Manifesto publicado no final de março explica que o objetivo é produzir um jornalismo que combate a indiferença, encoraja e gera a faísca que inspira: “Estamos aqui para, ao seu lado, provocar uma real e transformadora mudança de padrões mentais e comportamentais em relação ao lugar que moramos”.

O portal do movimento tem cinco editorias: clima, energia, finanças, sociedade e biodiversidade. Há também 22 colunas e blogs de especialistas, entre eles Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, e Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.

Angelina Jolie posa coberta de abelhas e pede mais conservação era uma das cinco notícias mais lidas no sábado passado, 22 de maio, assim como o primeiro sequenciamento genético de uma serpente brasileira — a jararaca e o plano de Joe Biden para tornar as casas e edifícios americanos “mais verdes”.

No mesmo dia, a manchete de capa do portal criado pelo Grupo Globo para enfrentar a crise climática era a seguinte: “Do cativeiro à vida boa no Cerrado: elefantes ganham segunda chance em Santuário na Chapada dos Guimarães”. O texto descreve a curiosa iniciativa com apenas uma fonte, o diretor do local.

Inaugurado em 2015, o local resgata animais que passaram a vida em circos e zoológicos. Ainda segundo a notícia, a presença dos elefantes, atualmente quatro animais vivem por lá, ajudaria na regeneração da antiga fazenda de gado localizada no cerrado mato-grossense.

Apesar de não ter relação com a crise climática, a iniciativa foi divulgada pelo movimento editorial que pretende “provocar uma real e transformadora mudança de padrões mentais”. Histórias interessantes rendem pauta neste tipo de jornalismo de soluções, desde que sem conflito, sem denúncia e sem investigação.

Já o cerco ao ainda ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, principal pauta ambiental dos últimos dias, tem tudo a ver com enfrentar a crise climática. Mas esse não é considerado um tema para o Um Só Planeta. Para esse movimento editorial patrocinado, só importam as soluções econômicas e tecnológicas.

Por que a política de desmonte e o agora cerco ao ministro que incentiva a destruição da floresta amazônica são pautas frequentes no jornal O Globo e são ignoradas no portal construído pelo mesmo grupo para praticar um jornalismo que combate a indiferença, encoraja e gera a faísca que inspira para enfrentar a crise climática?

O que está em disputa no campo do jornalismo brasileiro desde os anos 1990, quando o setor empresarial entrou no debate ambiental, é o que pode e deve ser dito sobre o meio ambiente. Os consultores de marketing batem insistentemente na tecla da comunicação de boas histórias, consideradas, essas sim, inspiradoras e dignas de atenção.

E o jornalismo que combate os poluidores? Desmobiliza, assusta e afasta os consumidores da causa ambiental, dizem. É por isso que quando o Grupo Globo cria um portal patrocinado para “enfrentar a crise climática” o que aparece é um conteúdo de comunicação ambiental em sintonia com o mercado (“verde”).

A mistura entre jornalismo e comunicação é uma das características da atual fase da profissão consolidada no último quarto do século passado. Segundo Charron e De Bonville (2016, p.30), nesse jornalismo de comunicação “o tom e o estilo do discurso promocional impregnam o discurso da imprensa”.

Tal confusão parece ser menos latente em empreendimentos jornalísticos que surgiram no país nas últimas duas décadas, entre eles revista piauí, O Eco, Repórter Brasil, Infoamazônia, Agência Pública, The Intercept Brasil e Amazônia Real. Jornalismo ambiental sem combate é (só) comunicação.

Obviamente que a comunicação ambiental, praticada por todo tipo de profissional e em qualquer mídia, é necessária e fundamental no enfrentamento da crise climática. No entanto, jornalistas não deveriam, em nome da mobilização da sociedade para um novo mercado, abrir mão da função crítica que define a profissão.

Referência:

CHARRON, Jean; DE BONVILLE, Jean. Natureza e transformação do jornalismo. Florianópolis/Brasília: Insular/FAC Livros, 2016.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Licenciamento ambiental: a complexidade além da didática

Imagem: Reprodução da reportagem publicada na Folha de São Paulo

Patrícia Kolling*


Com o objetivo de escrever para este observatório, fui em busca de textos jornalísticos que tratassem da pauta da semana: o projeto de lei com novas regras para o licenciamento ambiental e sua aprovação na Câmara dos Deputados. Numa busca rápida encontrei no G1, a matéria Nova lei do licenciamento ambiental: entenda os próximos passos e o que está em jogo que, de forma didática e interessante, tornou o tema compreensível em sete pontos: o que é licenciamento ambiental, o que diz o novo projeto aprovado na Câmara, os argumentos dos dois lados (a favor ou contra), os próximos passos, o que está em jogo, o que dizem as organizações ligadas ao meio ambiente e o que diz o relator do projeto. O tema é técnico e, ao ser instrumento de uma lei, torna-se ainda mais complexo, sendo necessário que o texto jornalístico o decodifique para uma linguagem acessível à população. A jornalista Carolina Dantas faz isso, ao explicar e exemplificar termos, como “licenciamento simplificado” ou “bifásico”, “de fase única” e “por adesão e compromisso”, propondo um comparativo com a lei em vigor. O texto traz um especialista em direito ambiental para detalhar o ponto mais criticado da nova lei, a Licença por Adesão de Compromisso (LAC) que exige apenas uma autodeclaração do empreendedor. Mostra os argumentos de quem é a favor do Projeto de Lei: “acelerar o processo e reduzir a burocracia e dos contrários novos empreendimentos” e de quem é contrário: “aumentar a destruição dos biomas brasileiros, colocar em risco populações tradicionais e piorar ainda mais a imagem do Brasil no exterior”. O texto também mostra o que aconteceria na prática hoje, se o projeto fosse aprovado no Senado e sancionado pelo presidente: estradas como a BR-163, que corta a Amazônia e faz o transporte de grãos entre Pará e Mato Grosso, e a BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, poderiam ser asfaltadas sem a necessidade de um licenciamento ambiental.


A matéria jornalística, porém, não nos permite compreender, como um projeto de lei tão criticado por dezenas de organizações, ambientalistas, políticos e pesquisadores e que deve piorar ainda mais a imagem internacional do Brasil frente as questões ambientais, consegue ser aprovado na Câmara dos Deputados por 300 votos. Ou seja, os meandros políticos e econômicos do cenário de aprovação deste projeto de lei não são apresentados pela jornalista do G1.


Na Folha de São Paulo, dois textos trazem à tona alguns destes aspectos. A repórter Danielle Brant, na matéria Câmara conclui votação de projeto que flexibiliza licenciamento ambiental, citando o deputado Camilo Capiberibe (PSB-AP), destaca que com a aprovação deste projeto de lei o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, entrega ao presidente da República o que foi combinado quando ele foi apoiado à presidência da Câmara e que este é sonho do presidente: ocupar a Amazônia, sem nenhum tipo de restrição, como na época da ditadura militar.


Uma análise de Ana Carolina Amaral, Licenciamento de exceção traz risco ao ambiente e também ao empreendedor, também na Folha de São Paulo, traz os argumentos das organizações ambientais para o perigo do projeto de lei, que pode criar uma insegurança jurídica, pois dá aos estados e municípios o poder de definir as atividades ou empreendimentos que necessitam de licenciamento. Além de abordar a necessidade de debate público do projeto, o que não foi realizado até o momento. Os textos da Folha nos dão indícios de que a aprovação em regime de urgência desse projeto, em um momento de tensão na CPI da covid, e sem debate público, foi uma estratégia dos deputados ligados ao agronegócio, ao centrão e à base do governo. Porém, não aprofundam os interesses econômicos do projeto, que são levantados nos comentários de um leitor da Folha, ao reclamar do jornalismo produzido: “nenhuma palavra sobre: ao se transferir a responsabilidade do licenciamento a estados e municípios, estimular-se um afrouxamento dos patamares mínimos de restrições no sentido de atraírem-se investimentos; o autor do projeto ser um produtor rural já condenado; as diversas modalidades de exploração que, injustificadamente, tornaram-se isentas de fiscalização”. Ele ainda questiona o fato de nenhum ambientalista ou ONG ter sido fonte da matéria. “Mais parece propaganda da lei”, encerra do leitor.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

Desertos de notícias imprescindíveis

Imagem: Reprodução de JornalJá/ Deriva Jornalismo.

Por Eliege Fante*

Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, foi construída pelos imigrantes europeus sobre um território de encontro entre os biomas Mata Atlântica e Pampa, ou seja, um florestal, outro campestre. A transformação dos hábitats das outras espécies da flora e da fauna nas estruturas que sustentam o desenvolvimento econômico inspira os demais municípios do estado. No entanto, a qualidade da água e do ar estão precárias, apesar do cumprimento dos padrões legais, com o agravante de a conservação dos ecossistemas não ser uma prioridade na gestão deste território. Por exemplo, através da atualização da lista das espécies ameaçadas da flora de POA, tão reivindicada pelo movimento ambientalista. Documento elaborado pelo Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá) em 2016, e entregue ao Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam) e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM), explicava: “Sem as informações do estado de conservação de nossa flora e fauna e da capacidade de suporte de atividades de impactos negativos e potencialmente sinérgicos, estaremos licenciando empreendimentos no ‘escuro’. Ou seja, sem a base de dados necessária para predizermos as consequências futuras de tais atividades, em geral progressivamente degradadoras, em um contexto local de expansão urbana quase sem limites”.

Enquanto a pauta da conservação, para o próprio desenvolvimento, segue sob disputa de sentidos entre os grupos sociais, com representação no Comam e na Secretaria, informações circulantes denunciam o avanço da especulação imobiliária sobre o que resta de áreas naturais em Porto Alegre. E, com o agravante de constituir uma ameaça às vidas humanas, e suas culturas, que estão no Território Indígena (TI) Pindó Poty, no bairro Lami, Zona Sul. A maior parte das informações tem sido divulgada pelas próprias fontes – que poderiam ser entrevistadas pela imprensa-, através dos seus sites e páginas de redes sociais, a respeito de invasões na área, que ainda não teve concluído o processo de regularização fundiária pela União e a Fundação Nacional do Índio (Funai). A mobilização da comunidade Mbya Guarani e de diversas entidades apoiadoras, entre elas, muitas não-indígenas, segue intensa: denunciando, cobrando a responsabilidade dos órgãos, realizando eventos públicos e atividades no território, como o plantio e replantio de mudas frutíferas. No entanto, a qualidade da cobertura dessa pauta imprescindível, pela imprensa porto-alegrense, está precária. É o que sugere o resultado de uma busca, realizada em oito de maio último, em oito sites de jornalismo com palavras-chaves “Indígenas”, “Índios”, “Lami”.

Nos quatro sites da imprensa hegemônica, apenas no Correio do Povo, a busca resultou em uma notícia com a palavra-chave Índios e com Lami (a mesma), publicada em 22 de abril de 2021: “Ato reivindica demarcação de terra indígena, em Porto Alegre”. Reportou a mobilização em prol da demarcação do Território Indígena (TI) com as seguintes fontes citadas: o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), José Otávio Catafesto de Souza, que confirmou que o processo não está andando e as informações sobre motivações dos invasores se referirem a especulação imobiliária; nota do Ministério Público Federal sobre ação ajuizada em 2019 determinando a finalização dos procedimentos administrativos de identificação e delimitação das áreas de ocupação tradicional indígena pela União e Funai e, ainda que, em julho de 2020, soube de um casebre irregular situado na TI; e a Funai, que apenas repetiu que o processo está em andamento. Impossível não deixar aqui para refletirmos: por que nenhum membro da comunidade Mbya foi entrevistado? Caso chegue alguma resposta, poderemos publicar neste espaço.


Abaixo, um quadro apresenta as palavras-chaves e os links cuja busca atribuiu os resultados. E, ao clicar no nome do jornal, o link conduz à apresentação que a empresa de comunicação faz de si.

Fonte: Elaboração própria.

Imprensa não hegemônica: correlação invertida


Já nos quatro sites da imprensa não-hegemônica, a busca com as palavras-chaves que, não trouxe nenhum resultado relativo à pauta em questão aqui, ocorreu em apenas num deles. É o que mostra o site do Extra Classe clicando em Indígenas, Índios ou Lami. Neste caso, assim como nos casos das outras três buscas (nos jornais hegemônicos) que não resultaram em notícias como era esperado, vale ressalvar que a falta de ordem na data pode ter impedido a sua identificação. A seguir, veremos um pouco de cada uma das únicas notícias publicadas pelos outros três sites.


O Jornal Já publicou reportagem do jornalismo independente “Deriva”, que está acompanhando no local a sucessão de acontecimentos, intitulada “Invasores montam barracos e desmatam território indígena no Lami, em Porto Alegre”. A pesquisa no site do Já apontou a notícia, de 20 de abril de 2021, através das palavras “indígenas” e “Lami” (não foi possível copiar o link). Além de trazer as informações dos órgãos públicos responsáveis, disponibilizou uma entrevista no YouTube com o cacique da TI, informações sobre os estragos causados pelos invasores e o contexto histórico: “A Aldeia Pindó Poty está em um território ancestral. Compõe junto com as aldeias do Cantagalo, Itapuã, Ponta do Arado, Lomba do Pinheiro uma grande área de circulação e de ocupação deste povo originário nas matas da Zona Sul da cidade de Porto Alegre.” Fotos grandes e de qualidade ilustram ricamente o encontro presencial do jornalista com as fontes principais.


Também ilustrada com imagens, o Matinal publicou, em 22 de abril, “Por omissão da Funai, guaranis de todo o Estado vêm a Porto Alegre blindar território de invasores”. A reportagem foi a mais completa, na diversificação das fontes, em comparação com as outras deste grupo. Foi localizada a partir das palavras-chaves Índios e Lami.

Ligada à palavra-chave “Lami”, o Sul21 trouxe informações importantes a partir de entrevista com uma fonte vinculada a entidade indigenista, em 20 de abril, sob o título “Mbya Guarani denunciam invasão de terra indígena no Lami para construção de loteamentos irregulares”. Parece que nenhum membro da comunidade Mbya Guarani foi entrevistado: “De acordo com o Cimi, a comunidade já notificou o Ministério Público Federal (MPF) e a Fundação Nacional do Índio (Funai) cobrando medidas para evitar as invasões. Os indígenas, segundo o Cimi, temem ser expulsos de suas casas pelos invasores.”


Em comum, nos oito sites selecionados para este exercício de observação, foi marcante a insistência dessa imprensa porto-alegrense, em seguir repetindo (das fontes), reproduzindo, e assim, produzindo, o conceito equivocado de “índio”. Daniel Munduruku tem explicado com generosidade o que nos cabe aprender como o Nonada, entre outros, já fizeram.


Já entre os quatro sites que publicaram a pauta, marcou, também, a coincidência entre a data da publicação e a convencional comemoração do “Dia do Índio”. Como as Retomadas Indígenas estão bastante ativas, a cobertura sobre o estado de conservação das últimas áreas remanescentes dos dois biomas nos municípios gaúchos, especialmente em Porto Alegre, deve se ampliar significativamente, ainda mais podendo-se ouvir as fontes “guardiãs da biodiversidade” conforme a ONU classificou os povos indígenas recentemente.


Não obstante seja conhecido o conjunto de dificuldades enfrentadas nas redações jornalísticas em geral, as crescentes demissões e a consequente sobretensão naqueles profissionais mantidos, além da sobreposição da pauta da covid-19, as pautas não mudam os status, como o de imprescindíveis. A qualidade das informações que os habitantes dos municípios necessitam para exercer a cidadania, também aparece na iniciativa Atlas da Notícia, que visa mostrar onde se encontram os chamados “desertos de notícias”, ou seja, aqueles que não possuem meios jornalísticos. Porto Alegre que possui os sites mencionados, e muitos outros, certamente não é um deserto, entretanto, a precária e limitada cobertura coloca esta população sob o risco de viver em um deserto de pautas imprescindíveis.

*Eliege Fante é jornalista e pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação. Integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e é associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS). E-mail: gippcom@gmail.com.

Conteúdos patrocinados vão esvaziar ainda mais a dimensão coletiva e política da pauta ambiental?

Imagem: Captura de tela do Estadão

Por Reges Schwaab*


Tendência entre grandes grupos de jornalismo, os estúdios de conteúdo – que se ancoram em elementos do fazer jornalístico, mas oferecem conteúdo sob encomenda -, começam a ter nas temáticas ambientais um filão de mercado. O fenômeno também pode ser lido no contexto de uma discussão sobre os rumos da economia no pós-pandemia e da própria crise do jornalismo (ou das empresas de mídia).


Um exemplo recente é o Estadão Blue Studio, do jornal O Estado de S. Paulo, que nos últimos dias entregou diversos conteúdos relacionados ao ambiental sob o guarda-chuva do projeto Retomada Verde, lançado no ano passado. O argumento central do Retomada é, justamente, dar conta de um “movimento global” que estaria ganhando espaço no Brasil, “com empresários, economistas e personalidades endossando a necessidade de fortalecimento da bioeconomia, de cidades mais sustentáveis e de um novo modo de vida e consumo”.

Tais projetos editoriais evidenciam o ambiental como eixo central do contemporâneo, e um “verde” tomado como objeto pelo próprio jornalismo. O extinto Movimento Planeta Sustentável, da editora Abril, revistas com edições verdes ou guias de sustentabilidade, o movimento Um só Planeta, do Grupo Globo, bem como o exemplo aqui assinalado, traduzem também uma tentativa de apaziguamento da natureza complexa e plural de um tema multifacetado.


Essas proposições estão ancoradas na parceria com atores econômicos selecionados, bastante cientes da importância de estarem colados a um discurso de referência. Os próprios causadores da degradação ambiental se apropriam da crítica à sua atuação para usá-la a seu favor, como argumenta André Soares em “A natureza e a cultura do eu” (Ed. Univali, 2003). Os jornais, por sua vez, utilizam seu valor simbólico e a imagem que usufruem na comunidade discursiva que alimentam como seus grandes produtos. Uma perspectiva crítica não deve ser perdida, uma vez que o viés jornalístico nem sempre é o preponderante, os horizontes editorial e empresarial têm sempre mais força nessas iniciativas. Fosse somente pelo interesse jornalístico, as editorias de meio ambiente seriam permanentes e alvo de real investimento.

Imagem: Captura de tela do Estadão

Neste exemplo, temos um texto bem escrito, com a utilização de fonte de alta credibilidade e reconhecida competência no tema. Ao navegar pela página do Retomada, os conteúdos que têm origem em ações com empresas, sob encomenda, recebem uma tarja de conteúdo patrocinado. Todavia, ao termos o tema assumido como projeto editorial e empresarial do próprio grupo de mídia, sempre caberá perguntar quem define a agenda. As pautas emergem naturalmente da observação apurada da realidade cotidiana? Ou elas estão determinadas por um contrato? Todas ou somente algumas? E se, eventualmente, algum dos patrocinadores estiver no centro de um acontecimento negativo, como isso se processará jornalisticamente? E mais: em um país assolado por ondas sucessivas de informação fraudulenta (fake news), em que a estética da notícia é usada para gerar identificação com conteúdos falsos como se fossem verdadeiros, haverá, no exercício da leitura e visualização desses conteúdos, o real entendimento e separação do que é genuinamente jornalístico do que atende a interesses acordados previamente? Com o andar da carroça, as abóboras não estarão tão acomodadas a ponto de não mais haver diferença de tom ou enquadramento entre os dois tipos de conteúdo?

Talvez estejamos observando, nesse caso, movimentos da busca por sobrevivência das empresas jornalísticas. Se for, que resultados trarão para a pauta ambiental nos jornais e revistas? Tudo isso merece ser debatido também a partir do estatuto do jornalismo, questionando se ele ainda pode ser preservado. Pensando nas premissas da liberdade, da pluralidade e da independência, a produção de conteúdo sob demanda pode ser classificada como produto jornalístico, pode figurar no mesmo espaço do jornal/site? E quando tudo está no mesmo espaço, seguindo o mesmo formato e linguagem, a tarja de conteúdo patrocinado é suficiente? Vale lembrar que lavouras de milho transgênico interferem e modificam as variedades tradicionais plantadas nas lavouras vizinhas.

Em se tratando de jornalismo, o interesse privado, que é igualmente central na economia verde, jamais trará resultados de matiz coletivo, ou seja, no sentido de amplificar a compreensão do social e ajudar a produzir o bem comum de forma equânime. Considerando a necessidade de um debate público realmente abrangente, e diante do cenário de desmonte das políticas ambientais no Brasil, a fragilidade do jornalismo enfraquece ainda mais a compreensão macro do ambiental, e sempre acaba por esvaziar a dimensão política do tema. Certamente a tecnologia tem seu papel no desenho de soluções, há muito que se discutir. Como adverte o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, no entanto, o caminho não está em transformar problemas éticos em problemas técnicos apenas.

* Jornalista, doutor em Comunicação e Informação, professor na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo ambiental e a arte de contar boas histórias, mesmo que sejam más

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

*Por Ursula Schilling

Em tempos de #ForaSalles e de Cúpula do Clima, pode parecer difícil disputar espaço para outras abordagens sobre a pauta ambiental, mas é necessário e, felizmente, há exemplos de que é possível. Chamo a atenção para a reportagem publicada no site The Intercept Brasil, “Syngenta sabia dos riscos de agrotóxico que matou 100 mil pessoas, mas preferiu lucrar”, sobre a omissão da referida empresa no manejo do herbicida “paraquate”, um dos seus produtos mais vendidos. O químico, que é extremamente tóxico para humanos, segundo a matéria, também “perturba as membranas celulares das plantas e interfere no processo de fotossíntese, de modo que os efeitos podem ser vistos dentro de algumas horas. Por funcionar com tanta rapidez, o paraquate foi celebrado como um avanço significativo quando foi introduzido nos anos 1960”.

A longa reportagem levou em consideração 400 documentos, e o esforço de investigação resultou numa história bem apurada e com uma série de elementos. Se levar informações qualificadas ao leitor/espectador é a premissa básica do profissional de imprensa, o bom jornalismo também é, como diz o jargão, a arte de contar histórias — ainda que sejam más histórias. O desenvolvimento adequado, rítmico e consistente da narrativa envolve o leitor e, assim, ajuda a promover o engajamento no tema, em especial numa área que, como pontuado neste Observatório, necessita de ativa militância para que seja cotidianamente pautado pela opinião pública.

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

Considerando a necessidade de uma perspectiva sistêmica para a cobertura midiática ambiental e não isolada das pautas cotidianas, o tema em questão — agrotóxicos — parece ainda pouco explorado, sobretudo nos meios de comunicação de massa. No caso de um portal como o The Intercept, a pauta recebeu um espaço grande o suficiente para atestar a importância do assunto. O tom é de denúncia, e o primeiro acerto se dá logo no título: sem meias palavras, destaca-se a importante informação — por vezes silenciada ou naturalizada nas coberturas-padrão — de que agrotóxicos, literalmente, matam.

Ao aprofundar o tema, no entanto, há um foco excessivo na questão da ingestão deliberada do paraquate (em suicídios), não trazendo um elemento central para a denúncia: estes produtos são usados em larga escala em lavouras de todo tipo, e os alimentos produzidos a partir da agricultura tradicional, que se vale de tais recursos para ganhar produtividade, vão para os nossos pratos. Haveria, certamente, espaço para uma melhor amarração, para uma abordagem que não desse a impressão de que o problema está em tomar deliberadamente uma dose do veneno. De qualquer forma, são importantes os fatos e dados trazidos pela matéria, mostrando a lógica da empresa e os efeitos funestos dela decorrentes.

Cabe reiterar ainda que, para o tipo de jornalismo que vai na contramão do desmonte das redações e da sobrecarga dos seus profissionais, é preciso uma porção de recursos fundamentais: humanos (jornalistas com condições dignas de trabalho e capacitados), materiais (para pesquisa, deslocamentos e tudo o mais necessário para uma boa apuração) e imateriais (tempo, coragem e retaguarda para fazer frente à oposição de gigantes da indústria de sementes e agroquímicos, por exemplo). Não é fácil fazer jornalismo de qualidade, mas torna-se cada vez mais imprescindível.

*Jornalista e membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Mesmo com o trabalho da imprensa, a boiada segue passando

Por Eloisa Beling Loose*

Na semana passada, o podcast Mamilos destacou em “A boiada passou – e agora?” os vários problemas ambientais que estão sendo agravados desde que a estratégia de desmonte das políticas públicas ambientais começou a ser executada pelo governo federal. O programa aponta que, “desde o início da gestão Bolsonaro, foram assinados 57 atos legislativos que enfraqueceram as regulamentações ambientais. Quase metade deles foram assinados durante os primeiros 7 meses da pandemia de coronavírus”. A ampla repercussão que teve a reunião do dia 22 de abril de 2020, quando o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles disse que a pandemia poderia ser entendida como uma oportunidade para o governo “passar a boiada” sobre a área ambiental, já que o foco do debate público ficaria na crise sanitária, completa quase um ano, e os prejuízos, ainda que publicizados, só crescem – como fica evidente em críticas internacionais direcionadas ao Brasil.

Além do enfraquecimento da fiscalização e das políticas em prol da conservação do ambiente, o negacionismo climático e o discurso de que o desenvolvimento econômico depende da exploração dos recursos naturais sustentam medidas que colocam em risco aqueles que defendem a natureza e lutam pelo interesse coletivo. No mês passado, Michelle Bachelet, alta comissária da Organização das Nações Unidas para Direitos Humanos, criticou as ações brasileiras em relação à falta de combate ao desmatamento na Amazônia e no Pantanal – algo que já se tornou frequente no âmbito internacional – e denunciou os ataques sofridos por jornalistas e ativistas. Já que os jornalistas “fazem questão” de cobrir a destruição ambiental, torna-se necessário menosprezá-los, intimidá-los e aumentar a circulação de informações falsas, afinal, uma das maneiras de gerar dúvidas sobre o que realmente está acontecendo é desacreditar os mensageiros.

De acordo com a coluna de Jamil Chade, no Uol, Bachelet afirmou nessa ocasião que “No Brasil e outros países da Amazônia e do Pantanal, a redução da aplicação das leis ambientais durante a pandemia levou a um aumento da mineração ilegal e do corte ilegal de madeira, com impacto particularmente prejudicial sobre os povos indígenas”.  Tais protestos estão relatados em uma série de acontecimentos, que periodicamente são apresentadas por diferentes veículos de imprensa, mas que não estão sendo suficientes para reverter esse quadro. Somente nos últimos dias,  identificamos notícias a respeito de ataque a terras indígenas, como o incêndio que ocorreu no território do povo Tremembé, e de crimes socioambientais, como o transbordamento de uma lagoa administrada por uma mineradora de ouro, que poderia ter contaminado as água do Rio Tromaí (a empresa negou que houve rompimento de barragem ou que as águas pudessem causar algum dano), a explosão do garimpo ilegal em território ianomâmi e a ampliação da exploração ilegal no estado do Mato Grosso.

Apesar de os estudos científicos apontarem que os indígenas são os melhores guardiões das florestas e, portanto, fundamentais para a mitigação da crise climática, como revelou relatório produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) nesta semana, a facilitação do avanço da boiada sobre os bens coletivos só mira o crescimento econômico. A repercussão da Agência Pública ressalta que o relatório coloca em xeque o posicionamento do presidente Bolsonaro, mas, mesmo assim, a suposta objetividade de alguns meios não deixou evidente para o público o nexo causa-consequência existente entre as políticas do governo e o desastre anunciado que segue seu curso. 

Ainda que a cobertura ambiental tenha se expandido, com um volume maior de notícias sobre a temática, como esses fatos estão sendo reportados? O trabalho da imprensa pode ser diferente? Quais são as abordagens necessárias para interromper a passagem da boiada? Para que possamos refletir!

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Amazônia à venda e outras circunstâncias de um retrocesso

Por Mathias Lengert*

O Brasil, um país com meio milênio de apropriação de terras, vê seu legado obscuro avançar com a grilagem na Amazônia. Tal como nos tempos ditatoriais, a floresta – cuja destruição conta com a simpatia do sistema político – é considerada um obstáculo para o desenvolvimento. A eleição de Carla Zambelli (PSL-SP) para a presidência da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados testemunha esse desinteresse com uma ferida aberta que tarda a ser tratada. “Foi uma circunstância”, afirmou a deputada ao minimizar a responsabilidade do Governo no aumento de focos de incêndio na Amazônia nos últimos dois anos. Em entrevista, concedida ao Estadão após a sua nomeação, Zambelli culpou as narrativas da oposição pela imagem negativa que o país possui na gestão ambiental.

Entre disputas políticas que lançam o debate público a uma espiral de desinformação e retrocesso, esperamos do jornalismo um alento. Que ele seja capaz de questionar deputados negacionistas sobre o desmatamento ilegal que insiste em ser escondido, com uma posição de escuta às vozes que a grilagem e o garimpo ameaçam calar, mobilizando, assim, leituras críticas do mundo. Observa-se, no entanto, que o Estadão assumiu uma postura de frágil contestação na entrevista, sem questionar o alinhamento dos membros da Comissão de Meio Ambiente com as agendas de Ricardo Salles e da bancada ruralista.

Em contrapartida, o fôlego da investigação jornalística do documentário da BBC Brasil sobre a negociação de pedaços da floresta amazônica no Facebook consolidou em si um espaço de denúncia. Muitas das áreas à venda pertenciam a unidades de conservação ou terras indígenas – especialmente da tribo Uru Eu Wau Wau. Os lotes oferecidos não possuíam títulos públicos. Três dias depois da publicação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou a investigação deste mercado ilegal.

A produção revela ainda que o esquema de grilagem de terras tem a anuência de políticos. Entre os citados, a investigação evidencia um nome que ressoa entre os recentes acontecimentos da Câmara. Trata-se do Coronel Chrisóstomo (PSL-RO), apontado por grileiros como um aliado em Brasília. No dia 12 de março, duas semanas após a publicação do documentário, o deputado federal foi eleito vice de Zambelli na Comissão de Meio Ambiente. Alguns dos parlamentares não parecem se constranger em nomear políticos que são a antítese dos cargos que irão ocupar.

O exercício investigativo da BBC, por sua vez, é um reduto de resistência às narrativas daqueles que compartilham das posições de Zambelli e Chrisóstomo, sinalizando não apenas a ocorrência dos crimes, como também promovendo as reivindicações de povos indígenas. O jornalismo ambiental é constituído desse ato da escuta do outro, assumindo um posicionamento sensível e crítico. E, para tanto, é necessário indicar as interconexões de questões socioambientais complexas, sem se abster de referenciar projetos políticos ecocidas.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A luta das mulheres que fortaleceram o Jornalismo Ambiental


Por Carine Massierer*

Se vocês me dão licença, hoje vou tomar conta deste espaço para recuperar a trajetória de luta de algumas mulheres jornalistas pelas causas ambientais. Neste Dia Internacional da Mulher, apresento um pouco de história e de lembranças das nossas desbravadoras com o objetivo também de homenageá-las.

É importante ressaltar que as mulheres jornalistas, ao longo da história, têm contribuído para a formação de núcleos de ecojornalismo pelo Brasil (como é o caso do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul – NEJ-RS), para a criação da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), em 1998, e da Rede de Comunicação Ambiental da América Latina e do Caribe, em 2000. No entanto, antes mesmo destes movimentos e, em paralelo a eles, tivemos uma série de jornalistas que foram pioneiras em dar repercussão para a temática ambiental.

Este é o caso da paranaense Teresa Urban, que se formou em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná em 1967. Considerada uma combatente do regime militar, Teresa foi presa, exilou-se no Chile e depois voltou ao Brasil onde passou a atuar no jornal A Voz do Paraná no final da década de 1970. Teve participações nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, e na revista Veja, entre outros, consolidando-se como uma pioneira no jornalismo ambiental. Teve a oportunidade de escrever diversas obras, contando com 21 títulos. Aderiu aos projetos das ONGs SOS Mata Atlântica e Mater Natura. Contribuiu para o mapeamento dos remanescentes da floresta de araucária no estado do Paraná e ajudou a desenvolver a Rede Verde de Informações Ambientais, além de atuar também no Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). É uma das criadoras da Rede Verde, que transmite pelo rádio informações ambientais para todo o Paraná. Teresa Urban faleceu em 2013.

Mara Régia Di Perna é carioca, radicada em Brasília e tem uma história de mais de quatro décadas ligada ao radiojornalismo ambiental brasileiro e à Amazônia. A jornalista é profissional da Rádio Nacional, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde dirige o programa Viva Maria (40 anos) e Natureza Viva (26 anos). Já recebeu o Prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente e teve grande visibilidade com a reportagem sobre o desaparecimento de abelhas e outros polinizadores no oeste do Pará. A grande reportagem ‘A morte dos polinizadores’ contém 17 páginas e pode ser lida no portal Amazônia Latitude e também ouvida nas plataformas digitais.

A gaúcha Ilza Maria Tourinho Girardi começou a se envolver com a questão ambiental há mais de 40 anos, quando se tornou sócia da Cooperativa Ecológica Colméia (1979). Ela esteve presente na criação do NEJ-RS em 1990 (único núcleo ainda ativo no país), criou a primeira disciplina de Jornalismo Ambiental no Brasil em 2004, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental, em 2008, sendo mobilizada sempre pela qualificação da informação ambiental. Em 2015, Ilza recebeu o prêmio Pioneiras da Ecologia por seu ativismo ecológico e trabalho acadêmico na área, contribuindo para a formação de jornalistas conscientes, críticos e engajados em prol de um mundo sustentável. Até é hoje ela foi a única jornalista mulher premiada.

A ideia que resultou na formação, em 1998, da RBJA também surgiu de uma mulher: Liana John. A jornalista especializada em ciência e em meio ambiente sugeriu que deveríamos “[…] nacionalizar alguns temas que sejam locais e que mereçam uma cobertura mais global de toda a imprensa” (BELMONTE, 2020). Ela recomendou, na época, a formação de clubes que, na verdade, se tornam núcleos. Destaca-se que muitas jornalistas faziam parte das listas de debates ambientais que existiam na década de 1990. Estas listas, conforme Belmonte, reuniam integrantes de todo o país, como Regina Scharf, do jornal Gazeta Mercantil, e Maria Zulmira, do Repórter Eco, da TV Cultura. Patrícia Palumbo, da Rádio Eldorado, também foi pioneira na época abordando temas ambientais no radiojornalismo de São Paulo, assim como Lúcia Chayb, da Revista Eco 21.

Muitas outras jornalistas foram fundamentais para ampliar a visibilidade que a pauta ambiental tem hoje no Brasil e merecem nosso reconhecimento. Junto à homenagem, registro a lacuna existente na literatura na área sobre o papel das mulheres na construção do Jornalismo Ambiental. Que possamos resgatar esse legado e preservar a memória dessas mulheres, que nos inspiram até hoje.

Referência:
BELMONTE, Roberto Villar. Uma breve história do jornalismo ambiental brasileiro. Revista Brasileira de História da Mídia, vol. 6, nº 2, 110-125.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A morte de Aruká Juma e o Jornalismo Ambiental posicionado

Reprodução de imagem: Gabriel Uchida, Kanindé – Amazônia Real.

Por Matheus Cervo*

É com muita tristeza que o Brasil amanheceu no dia 17 de fevereiro com a notícia da morte de Aruká Juma, o último homem da etnia Juma existente. Após a sua partida devido às complicações da infecção pelo novo coronavírus, suas três filhas chamadas Borehá, Maitá e Mandeí são as últimas sobreviventes dos Juma, ainda que elas tenham tido filhos com indígenas Uru-Eu-Wau-Wau que tiveram contato com a tradição de seu povo. É com essas informações que podemos perceber que a morte de Aruká está longe de ser um fenômeno isolado, já que muitas práticas genocidas foram ocorrendo na governança bolsonarista e nas últimas décadas.

A agência de jornalismo independente Amazônia Real solicitou os boletins médicos sobre o período de internação nos meses de janeiro e fevereiro, recebendo informações de uma profissional da Casa de Atendimento de Saúde Indígena (Casai) de Humaitá (AM), órgão do Ministério da Saúde. Segundo ela, Aruká Juma foi medicado no Hospital Sentinela com azitromicina, ivermectina, nitazoxanida e sulfato de zinco. Esses remédios fazem parte do coquetel de “tratamento precoce” que foi promovido pela necropolítica de Jair Bolsonaro que não é reconhecida para tratamento dos infectados pela covid-19 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Essa notícia que expõe o “tratamento precoce” que Aruká Juma recebeu não hesita em aderir ao que foi dito nas notas de pesares da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib). Nessas notas – que foram expostas inteiras no final da reportagem da Amazônia Real -, as organizações afirmam veemente que a morte de Aruká foi resultado de políticas públicas omissas e incompetentes do governo Bolsonaro que vão além da divulgação intensiva de tratamentos ineficazes e perigosos. 

Por já estarem sujeitos à vulnerabilidade e risco de desaparecimento, o povo Juma era considerado como de recente contato e constava como um dos povos a serem protegidos por Barreiras Sanitárias para evitar o seu contágio durante a pandemia. O pedido da instalação foi feito por essas organizações e foi deferido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julho de 2020. Contudo, o ministro Luís Roberto Barroso deu o prazo de até setembro para que as barreiras fossem instaladas, mas o governo não cumpriu o seu dever e decidiu instalar, em dezembro, apenas um posto de controle de acesso na BR 230 – Rodovia Transamazônica – sem comprovar sua eficácia.

Além do que foi aqui brevemente mencionado, a reportagem citada na Amazônia Real realizou uma gênese do conflito de terras que o povo Juma enfrenta, de forma mais intensa, desde a década de 1960, guerra que foi, paulatinamente, gerando o desaparecimento desses indígenas. Essa perspectiva histórica foi publicada na íntegra em 2015, mas foi recuperada na matéria que anunciou a morte do último indígena Juma junto com detalhes trazidos pelas notas de pesares. Por isso, o Jornalismo Ambiental feito pela Amazônia Real acerta ao noticiar a dura realidade da morte de Aruká Juma com uma posição crítica e não neutra, expondo práticas genocidas que possuem uma profundidade que excede em muito a sua morte pelo coronavírus. E, para finalizar, é como antropólogo que acredito que o jornal acerta também ao permitir que uma jornalista indígena como Luciene Kaxinawá cubra um tema tão importante ao invés de falar sobre a morte de Aruká pela mediação de algum especialista.

* Cientista Social com ênfase em antropologia e atual mestrando do programa de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com bolsa Capes.

A política da mudança do clima: do internacional ao local

Imagens: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Enquanto é discutida a viabilidade de se realizar os Jogos Olímpicos de Tóquio em meio à maior crise sanitária desde o último século, outro “comitê” esportivo nos chamou a atenção recentemente aos efeitos do aquecimento global. Trata-se da candidatura simbólica para a Olimpíada de verão de 2032, no lugarejo de Salla, que conta com 3.400 moradores no Ártico finlandês. A ideia, exposta nesta matéria da Folha de São Paulo, é denunciar a emergência climática e seus efeitos em uma cidade com modo de vida ligado ao frio e à neve, daí o motivo de ser “possível” a realização do evento com modalidades tipicamente de verão.

Se o exemplo desta iniciativa cumpre um importante papel elucidativo através da alegoria, causa apreensão, em todas as sociedades, o descompasso de atividades simbólicas, acordos e promessas políticas em relação às efetivas atuações, no mundo real, para a redução das emissões. Ao mesmo tempo, uma notícia do início de fevereiro informa que o Tribunal de Paris declarou a responsabilidade do governo da França pela inércia no combate às mudanças climáticas. Conforme explica a Revista Época, a ação foi movida por ONGs que reuniram mais de dois milhões de assinaturas. E Jorge Abraão enfatizou, em sua coluna na Folha de São Paulo, a relevância e o pioneirismo do resultado ao criar jurisprudência e referência, além de encorajar ações contra governos que não cumprem os compromissos assumidos. 

Já no Brasil, sabemos que o melhor caminho para alcançarmos nosso compromisso é pela redução e eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia. Desafio necessário e viável, torna-se, no entanto, mais difícil de ser realizado à medida que o governo federal move mundos (e poucos fundos), desde 2019, para impedir a devida repressão a este crime ambiental. Como um agravante, a política local também é, em geral, grande aliada dos inimigos da floresta. A “desamazonização da Amazônia”, coluna de Fabiano Maisonnave na Folha, aborda a hegemonia do discurso antiambientalista na região, caracterizado pelo ínfimo contrapeso de políticos amazonenses de perfil socioambiental. Cabe questionarmos aí, além da forma de atuação da mídia local, também o papel que cumpre a abordagem da grande mídia nacional sobre aquela região, por vezes tratada como exótica e distante — a Amazônia vista com o olhar do Sudeste do Brasil.

A ação da mídia é fundamental para além das denúncias de crimes ambientais, mas mobilizando uma ampla e complexa visão socioambiental da região. Deve envolver, ainda, o estímulo às políticas de criação de maior valor agregado em atividades econômicas sustentáveis, que não deixem a população economicamente à mercê de um discurso ecologicamente suicida. A composição deste dilatado cenário de combate à emergência climática é complexa, mas certamente abrange mais que a atuação de organismos globais e das esferas federais. Tendo em vista o emaranhado de interesses em conflito na região amazônica, o cerne da questão parece mesmo requerer uma atuação direta em nível local.

* Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.