Jornalismo ambiental: complexidade para ligar os pontos

Imagem: Captura de tela do programa Direto ao Ponto de 8 de fevereiro de 2021. Jornalistas entrevistam Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente
Fonte: Reprodução Youtube / Canal Jovem Pan News

Por Débora Gallas Steigleder*

Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, nossa principal tarefa é comentar os destaques da semana na cobertura jornalística sobre meio ambiente. Mas o que priorizar quando percebemos a sobreposição de debates urgentes em um curto espaço de tempo? A análise é ainda mais desafiadora quando há cobertura pulverizada sobre temas relevantes, mas que não são “pautas quentes”, ou seja, aqueles assuntos que, dotados de impacto evidente e inquestionável, repercutem em todos os noticiários do dia.

Dois conteúdos publicados na semana anterior inicialmente me chamaram a atenção pela relevância e pela similaridade de formato: são entrevistas com fontes de reconhecida autoridade em seu campo de atuação – a ciência. A primeira selecionada se chama Diretora de Meio Ambiente da OMS: “70% dos últimos surtos epidêmicos começaram com o desmatamento”. Trata-se de entrevista com María Neira realizada por Juan Miguel Hernández Bonilla e publicada em 6 de fevereiro em El País, traduzida da edição em espanhol. A fala de Neira alerta para a relação entre a conversão de florestas tropicais em áreas de agricultura intensiva e a propagação de novos vírus entre a população humana. 

Este tema não é inédito para o jornalismo, pois ele já havia sido tratado em profundidade, por exemplo, em uma reportagem de João Moreira Salles publicada em outubro de 2020 na Revista Piauí. O texto abordou a possibilidade de a Amazônia ser o epicentro de uma próxima pandemia devido ao acelerado processo de destruição da floresta. Mas, na medida em que as coberturas se tornam mais recorrentes, o público pode contemplar outras perspectivas para melhor compreender o fenômeno.

Neste sentido, outra entrevista publicada na mesma semana dá continuidade à necessária conversa sobre as conexões entre riscos ambientais e impactos na população humana e na biodiversidade, especificando a Amazônia como personagem principal. Savanização da Amazônia já está ocorrendo traz entrevista com o cientista Carlos Nobre realizada por Daniela Chiaretti e publicada em 5 de fevereiro em Valor Econômico.

Percebemos que a continuidade da cobertura complexa, que se propõe a ligar os pontos entre causas e consequências, problemas e soluções, é ainda mais urgente no contexto de domínio do poder por negacionistas da ciência. Em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, no dia 8 de fevereiro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu que o governo federal trabalha com “ações”. Ao ser questionado pela jornalista Sucena Shkrada Resk sobre as políticas ambientais que deveriam ser implementadas frente ao processo de savanização da Amazônia constatado por Carlos Nobre, Salles disse se tratar de uma “opinião alarmista”. 

Na sequência, em resposta à jornalista Ana Carolina Amaral, que o questionou sobre as decisões do governo contestadas judicialmente por ausência de embasamento técnico, o ministro deslegitimou a atuação das organizações não governamentais, universidades e imprensa. Afirmou que “a imprensa, aparelhada pela esquerda, e os partidos se juntam e tocam ação no Judiciário” e que a afirmação de que o país sofre com o desmonte ambiental é “militância disfarçada de jornalismo”.

De cara com o desmonte para o qual o governo fecha os olhos, o jornalismo ambiental deve seguir no esforço de evidenciar os riscos globais, atuando de forma contínua e se valendo de diferentes formas e conteúdos para realizar a cobertura de pautas tão urgentes. Afinal, somente uma diversidade de abordagens pode dar conta da complexidade dos fenômenos ambientais.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deboragallas@gmail.com.

Brasileiros percebem o problema das mudanças climáticas, mas o que falta para o país encarar a questão?

Imagem: Reprodução parcial de notícia d’O Globo publicada em 04/02/2021

Por Ângela Camana*

Na primeira semana de fevereiro, diversas pautas ambientais dominaram os noticiários – o acordo da Vale para reparação em Brumadinho e a possibilidade de extração de petróleo próximo ao arquipélago de Fernando de Noronha acenderam um alerta para condução das questões de preservação no país. Na contramão destes acontecimentos, a divulgação de uma pesquisa realizada no ano passado surpreendeu pelos resultados positivos: a percepção de que as mudanças climáticas estão em curso é quase uma unanimidade entre os brasileiros, e 77% dos entrevistados reconhecem que tais transformações são provocadas pela ação humana.  O estudo, encomendado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio) em parceria com o Programa de Comunicação de Mudanças Climáticas da Universidade de Yale, foi conduzido pelo IBOPE em todo o Brasil entre os meses de setembro e outubro de 2020. A iniciativa lançou um site próprio, no qual a pesquisa completa pode ser acessada.

Os dados são robustos e levantam questões importantes, que deveriam ressoar na atuação da imprensa. O primeiro deles é o fato de que 77% dos brasileiros dizem que a preservação ambiental deveria ser prioridade, e não o crescimento econômico – o contrário, aliás, das práticas do atual governo. Além disso, quando perguntados sobre as queimadas na Amazônia, mais da metade dos entrevistados defende que cabe ao Estado buscar soluções. Esta cobrança de atitudes dos governantes e de políticas públicas preservacionistas poucas vezes é vista no jornalismo sobre meio ambiente, que ainda se dedica a pautas baseadas em ações individuais. Os dados sugerem que a imprensa assuma um papel mais ativo a fim de fiscalizar e pautar políticos e instituições, chamando-os para a ação.

Um segundo elemento que merece destaque – e que deve chamar a imprensa brasileira à responsabilidade – dá conta de que, apesar de reconhecerem a questão como importante, apenas 25% dos entrevistados dizem ter conhecimento o bastante sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas. Este número está, ainda, associado à escolaridade e acesso à internet, o que demonstra a importância do papel que a grande imprensa pode realizar, expondo o tema aos estratos sociais brasileiros menos escolarizados — que são, em geral, os mais vulneráveis aos próprios efeitos das mudanças climáticas.

Ainda que se deva reconhecer a dificuldade da cobertura desta temática, este dado corrobora para o diagnóstico de que o jornalismo brasileiro ainda é muito fragmentado e preso ao factual. Os números deste estudo abrem margem para que se produza conteúdo, em seus diversos formatos, com maior profundidade. A própria repercussão do estudo na grande imprensa  foi pouco além de reproduzir os dados e compará-los com pesquisa semelhante realizada nos Estados Unidos, perdendo a oportunidade de produzir análises de qualidade. Isso para não falar da ausência de autocrítica.

Por fim, a investigação divulgada nesta semana reforça a importância de que jornalistas se engajem com a temática ambiental, buscando ampliar seu repertório face às principais questões da atualidade. É o que propõem iniciativas como o ClimaInfo  e mesmo o Minimanual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas, lançado por este grupo.


*Ângela Camana é jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia. Membro do GPJA e do TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). E-mail: angela.camana@hotmail.com.

A humanização no jornalismo ambiental brasileiro

Imagem: Reprodução de notícia publicada em Mongabay no dia 18/01/2021

Por Patrícia Kolling*

Começar a ler um texto jornalístico, se deparando com a foto acima, que reflete um sorriso franco, um olhar firme e um rosto expressivo, é como sentir vida no texto e na história. O texto referente à foto conta a história de Osvalinda Alves Pereira, trabalhadora rural que vive no Projeto de Assentamento Areia, no município de Trairão, no sudeste do Pará. No dia 24 de novembro ela foi a primeira brasileira a receber o prêmio Edelstam, premiação sueca concedida as pessoas que contribuíram de forma excepcional, e com grande coragem para a defesa dos direitos humanos.

Segundo a notícia, em 2012, Osvalinda montou uma associação de mulheres para capacitar agricultores a difundir o projeto agroflorestal já consolidado em seu lote. O sistema criava alternativa de trabalho e renda para os assentados até então submetidos a condições análogas à de escravos na extração de madeira. Desde então, uma série de ameaças foram feitas a Osvalinda e ao seu marido Daniel. Duas sepulturas (com cruzes) foram construídas a 100 metros da sua casa em 2018, o que levou o casal a se retirar do assentamento durante 18 meses.

O assentamento é porta de entrada para um corredor de áreas protegidas e, cobiçadas por madeireiros ilegais. Ler a história, os dramas e as conquistas da mulher e trabalhadora rural Osvalinda nos aproxima da realidade vivida por ela e por outras centenas ou até milhares de pessoas que lutam pela preservação ambiental.

O jornalismo ganha seus méritos, quando suas notícias e reportagens abrem espaço para histórias de vida e relatos humanizados que nos aproximam das pessoas e das causas ambientais, como se elas estivessem acontecendo do lado da nossa casa, e não a milhares de quilômetros de distância. O texto vai entrelaçando a história de Osvalinda a outras informações, trazendo à tona as contradições nos discursos políticos, as irregularidades na fiscalização da exportação de madeira e também números sobre o aumento de áreas de desmatamento, que teve seu maior patamar da década, e, paralelamente, a redução das autuações por esse crime.

A reportagem, relação com a história de Osvalinda, mostra como a desestruturação das atividades de fiscalização ambiental, podem deixar ainda mais desprotegidas pessoas que, como ela, defendem os direitos humanos e se opõe a realização desta prática ilegal. Ou seja, nos permite ver como as determinações governamentais, criadas e aprovadas em Brasília, que privilegiam a impunidade, podem impactar no dia a dia das pessoas Brasil a fora, colocando em risco suas vidas.

É claro, que, jornalisticamente falando, Osvalinda foi pauta desta matéria devido ao prêmio recebido internacionalmente, o que dá caráter de atualidade e novidade a notícia, porém, mesmo que não tivesse sido premiada, é uma cidadã com uma história de vida determinante para instituir a empatia da sociedade às causas ambientais. No mesmo dia da publicação da notícia do Mongabay, 18 de janeiro, o Jornal Nacional veiculou uma notícia com números sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, incluindo o Pará, como estado em que o aumento do desmatamento foi mais significativo. Notícia bem produzida, com dados do Instituto Imazon, muitas imagens, mas na qual sentiu-se falta de uma Osvalinda para despertar no telespectador a sensibilidade às causas ambientais.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

Crise da Covid-19 e ataques à imprensa e aos ativistas seguem como desafios para 2021

Imagem: Reprodução de notícia do UOL, de 16/01/2021

Por Cláudia Herte de Moraes*

No retorno do recesso e das “festas” de final de ano, logo nos deparamos com a realidade que infelizmente assola o mundo: a pandemia ainda persiste e o desfecho em nosso país continua totalmente envolto em incertezas. Os votos de um ano bom – aqueles feitos na virada do ano – não esconderam a grande dor que assola milhares de famílias brasileiras, que choram as mais de 200 mil mortes decorrentes da Covid-19. Ano passado parece que ainda não terminou, infelizmente. Muitos entoamos com esperança o verso que foi revivido em canção por Belchior e, mais recentemente, por Emicida: Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro. Ninguém aguenta mais, pois as tristezas são diárias e há tanto a fazer.

Nesta semana, a gravidade da situação da crise da saúde pública no Brasil se mostrou mais uma vez ao mundo, quando o oxigênio simplesmente faltou no Amazonas, matando vários pacientes que dele dependiam e colocando em risco de morte outros tantos, incluindo bebês prematuros e todos e todas que estão sob cuidados médicos no estado. Vale a pena destacar a reportagem de Wanderley Preite Sobrinho no UOL que traz uma análise de múltiplos fatores contribuintes para o descalabro que se instalou em Manaus – e que sirvam os alertas aos governos e aos cidadãos para uma atuação efetiva contra a pandemia em todo território.

Não é de hoje que os inimigos declarados daqueles que ocupam o poder estão tanto na imprensa, quanto entre ONGs e ativistas de modo geral, isso porque as denúncias e alertas decorrem especialmente destes setores. Em 2020, o direito à liberdade de expressão e de imprensa foi violado inúmeras vezes. No ano anterior (2019), um relatório da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) já apontava que a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência havia contribuído “grandemente” para derrubar a posição do Brasil no ranking da Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa, por dois anos seguidos.

No Brasil de 2021 seguem os ataques à imprensa, especialmente àquela considerada progressista, àquela que investiga o poder de forma mais independente. O site do Repórter Brasil, por exemplo, foi atacado com exigências de que apagassem arquivos de reportagens que denunciavam o mal dos venenos/agrotóxicos. Em 7 de janeiro, houve uma tentativa de invasão física ao local. O prognóstico é que estes ataques continuem, como pontuou Natália Viana da Agência Pública.

Em julho de 2020, a notícia foi o levantamento sobre a morte de ativistas ambientais e de direitos humanos, que são crescentes no mundo, sendo os indígenas os mais vulneráveis aos ataques. O Brasil figura em vexatório 3º lugar, segundo a ONG Global Witness. O ativismo ambiental é considerado essencial para o enfrentamento da mudança climática. A ocorrência de constantes assassinatos de ativistas diz muito sobre como a sociedade não defende aquelas e aqueles que lutam efetivamente por um futuro sustentável, viável e equilibrado.

Em 2021 precisamos pensar na construção de um “novo normal” que esteja baseado nos direitos fundamentais de todas e todos, com liberdade de expressão e de imprensa e com atuação firme de jornalistas e da sociedade contra os desgovernos na saúde e no ambiente. Precisamos lutar pela vida acima da morte e pelo ambiente sustentável acima do lucro.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Cobertura de biomas sendo arrasados. Até quando?

Imagem: Capturas da tela de notícia do National Geographic Brasil

Por Eloisa Beling Loose*

Nesta última semana, veículos de comunicação tradicionais, como IG e Exame,  por exemplo, cobriram o Dia da Amazônia (5 de setembro) com a mensagem de que não tínhamos muito a comemorar, afinal agosto registrou o maior volume de queimadas do ano e o segundo maior da década, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O problema se estende ao Pantanal, que arde em chamas e tem sido alvo da atenção da imprensa em diferentes veículos (Estadão, G1, Uol, Repórter Brasil, National Geographic Brasil, dentre outros), afinal, os focos de incêndio entre janeiro e agosto deste ano equivalem a tudo o que queimou no bioma nos seis anos anteriores, de 2014 a 2019, provocando muitas mortes e destruição.

No último dia 11, efeméride para mobilizar a preservação do Cerrado, o Correio Braziliense alertou: “[…] a degradação da savana é similar, ou até maior, ao desflorestamento na Amazônia, o que faz alguns pesquisadores afirmarem que, se assim persistir, o bioma poderá desaparecer em grande parte até 2030”.

Embora esses biomas tenham recebido mais visibilidade nos últimos dias, todos estão sendo devastados. A destruição da biodiversidade gera extinção de espécies, desequilíbrio dos serviços ecossistêmicos e agrava ainda mais as consequências das mudanças climáticas.

A Mata Atlântica, que compreende quase todo litoral brasileiro, é que vem sendo mais afetada desde o processo de colonização portuguesa e segue sendo pressionado, principalmente, pela expansão desordenada as cidades. Em julho, a Galileu reportou um estudo feito na Caatinga pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que aponta a perturbação antrópica crônica (construção de estradas de terra, pilhas de madeiras, gado, lixo, por exemplo) como um dos fatores que gera forte impacto na degradação dos biomas, sendo tão significativa quanto o desmatamento.

Já o Pampa, quase sempre silenciado pela imprensa nacional, não ficou imune à lógica da destruição: o Inpe verificou um aumento de 343% no número de ocorrências no primeiro semestre de 2020, em relação ao mesmo período no ano anterior, e a região ainda enfrenta as ameaças geradas pela exploração de minérios. A série de reportagens chamada Devastação no Pampa, o bioma esquecido, publicada no dia 8 pelo Colabora, detalha como o avanço do agronegócio e a exploração de minérios coloca em risco o modo de vida tradicional dos pequenos pecuaristas, considerados guardiões da biodiversidade, e impede a preservação do pasto nativo.

Imagem: Captura da tela de reportagens no site Colabora

O jornalismo tradicional segue atento àquilo que foge à dita “normalidade” e, por isso, os números recordes de queimadas, as efemérides, os novos estudos e as cenas chocantes de animais sendo mortos no Pantanal trazem a pauta à tona. Mas, em um mundo no qual o futuro é cada vez mais incerto, onde está a anormalidade?

Quando a imprensa naturaliza a deterioração do planeta, o processo destrutivo deixa de ser notícia. Quando o argumento econômico não é questionado, todo o resto é apresentado como inevitável – quando, de fato, não o é.

Diante de um projeto de devastação em larga escala, que atinge todos os biomas brasileiros, cabe ao jornalismo observar de forma mais panorâmica as causas ou as cadeias de relação que permitiram (e permitem) que o discurso do progresso desmate, queime e altere vidas orientada pela maior “oportunidade” de lucros. Os negócios baseados na exploração da natureza só beneficiam, a curto prazo, os exploradores, enquanto produzem uma série de malefícios para uma grande parcela da população.

A forma de seleção dos fatos jornalísticos precisa considerar mais aquilo que impacta nosso futuro – e não apenas o presente. Uma visão de longo prazo é necessária porque as consequências parecem cada vez mais irreversíveis.

É importante que veículos alternativos tragam aquilo que não foi mostrado pela grande imprensa (é uma complementariedade desejável), porém, por outro lado, não podemos desobrigar que jornalistas em outros meios, que geralmente têm maior alcance, reflitam sobre os motivos de tantas questões serem reportadas quando não há muito mais a fazer.

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Manchas de óleo voltam a aparecer no Nordeste: uma nova chance para pluralizar a cobertura

Print UOL 22.06

Imagem: Reprodução retirada da matéria do Uol de 22/06/2020.
Por Eloisa Beling Loose*

O ano de 2019 foi um ano repleto de grandes tragédias ambientais no Brasil. Começou com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho-MG e seguiu com aquelas já há anos conhecidas desencadeadas pelas fortes chuvas (porém, provocadas por uma série de problemas de gestão e ausência de políticas públicas), especialmente no Sudeste. Depois disso, o vazamento de óleo na costa nordestina, as queimadas e o avanço do desmatamento na Amazônia – só para citar os acontecimentos de maior envergadura. Em razão do alto impacto negativo, número de afetados, conflitos e dramaticidade envolvida em todos os casos, tais eventos permaneceram por muito tempo sob os holofotes da imprensa, sobretudo o vazamento de óleo, que ainda somava aos valores-notícia já citados o fator de ineditismo. Contudo, não basta que haja um acompanhamento da imprensa durante a tragédia. É preciso pensar no que está sendo dito, de que forma e por quem.

Na última semana voltaram a aparecer fragmentos de óleo em praias de diferentes estados do Nordeste. Conforme análises preliminares, aparentam ser do mesmo tipo daquele que se alastrou na costa do Nordeste no ano passado, decorrentes uma fase pós-vazamento, acarretada por fatores meteorológicos que revolveram o material que estava sedimentado no fundo do mar ou preso em corais. De acordo com informações divulgadas em março pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o vazamento de óleo tinha atingido até então 1.009 localidades, de 11 estados e 130 municípios brasileiros – mas, como podemos perceber, os efeitos do vazamento não cessaram. O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que esse foi o maior desastre ambiental da história no litoral brasileiro em termos de extensão.

As notícias recentes foram dadas por vários veículos, como G1, CNN Brasil e JC. O Uol publicou uma matéria mais extensa, na qual trata do aparecimento de restos de borracha também, lembrando que o ambiente afetado ainda não se recuperou. O reaparecimento das manchas é, no âmbito do jornalismo, um novo gancho ou gatilho, uma oportunidade para retomar esse assunto que, embora tenha sido foco de atenção da mídia por um longo período, ainda não tem respostas quanto ao volume e à origem do petróleo vazado, e nem quanto aos prejuízos e danos gerados a médio e longo prazo. Mesmo sendo uma tragédia sem precedentes por aqui, após a retirada da parte visível do problema e a falta de algum aspecto novo na investigação, suas consequências pararam de ser noticiadas.

Em levantamento feito sobre a cobertura ambiental do Jornal Nacional em 2019, o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA) verificou que a primeira matéria sobre o assunto é de 27 de setembro, quase um mês depois do seu surgimento, quando as manchas já atingiam nove estados, e que o assunto permaneceu na agenda até 30 de dezembro, totalizando 63 notas ou reportagens sobre o tema ao longo dos quatro meses em análise, em 44 edições, totalizando pouco mais de duas horas de cobertura sobre o assunto. O gráfico abaixo mostra que em outubro há um volume maior de reportagens que são, aos poucos, substituídas por notas cobertas (com imagens da tragédia) e notas peladas (quando apenas os apresentadores narram alguma informação):

Gráfico JN
Fonte: GPJA (2020).

Em dezembro de 2019 há apenas duas notas de 20 segundos sobre o assunto, uma sobre o auxílio-emergencial destinado aos pescadores (13.12) e outra sobre o retorno das manchas no Ceará (30.12). O arrefecimento da atenção da imprensa se dá porque inexistem novos fatos sobre a situação e as narrativas sobre os processos e fenômenos de duração lenta (como a contaminação que persiste nas águas e na cadeia alimentar, por exemplo) são ainda desafios que se impõem, cada vez mais, à lógica jornalística de reportar o que pode é palpável.

Uma análise mais específica sobre o derramamento de óleo em questão, coordenada pelo Intervozes e denominada “O Vozes Silenciadas – a cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira” (2020), foi realizada a partir de veículos de abrangência nacional e regional, e corrobora com nossa análise preliminar. O estudo identifica que o tema demorou quase um mês para receber visibilidade, deixou de ser coberto mesmo quando havia questões em aberto, fez uso recorrentes de fontes oficiais (não dando voz às comunidades locais e povos tradicionais, os mais afetadas pela contaminação) e pouco discutiu as versões. Mesmo tratando do tema diariamente, as informações não tinham contraponto ou aprofundamento e se baseavam no dito “jornalismo declaratório” – alimentado por um governo descomprometido com a questão ambiental.

O reaparecimento de fragmentos de óleo é uma nova chance para que o jornalismo trate daquilo que, no calor do momento, não foi possível abordar. Mais do que atualizar o contexto do desastre, é possível ouvir todas e todos que podem narrar suas experiências diante dos sinais, às vezes, vagarosos de degradação do ambiente e das mudanças geradas em suas vidas. As considerações do estudo do Intervozes destacam que o jornalismo, em seus diferentes formatos e alcances, deve se reinventar, pois “[…] ao darem espaço privilegiado a tais atores, os veículos reforçam o seu lugar de poder e, ao não promoverem, como deveriam, o confronto de ideias com outros segmentos sociais, com igual espaço de fala, legitimam as declarações oficiais como a verdade dos fatos”.

Diante disso, seguimos acreditando que as análises científicas sobre o trabalho da imprensa possam contribuir com outras formas de registro jornalístico; que o retorno das manchas de óleo possa servir agora para uma leitura menos apurada e mais plural dos efeitos da tragédia; e que o jornalismo possa se pautar mais sobre critérios de relevância e cuidado com a vida do que com a dramaticidade ou o apelo de uma imagem.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

O que mais podemos dizer quando cobrimos chuvas intensas?

Foto chuvas intensas

Imagem: captura de tela de imagem publicada no corpo da reportagem “Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste?”, publicada dia 3 de março no jornal O Estado de S. Paulo
* Por Eloisa Beling Loose

Nas últimas semanas as notícias e reportagens sobre os estragos desencadeados pelas chuvas fortes e constantes no Sudeste têm se repetido nos meios de comunicação. Fala-se muito das consequências (alagamentos, enchentes, deslizamentos, perdas materiais e mortes), mas as causas ainda são pouco evidenciadas ou apresentadas de forma parcial. Embora os governantes sejam ouvidos, essa não é a única versão que deveria ter espaço. Esse é um problema ambiental, social, cultural, político e econômico. Negar qualquer uma de suas facetas é sempre ter uma visão fragmentada e, portanto, incompleta dos fatos.

No último dia 2, após as fortes chuvas que atingiram, mais uma vez, o Rio de Janeiro, o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, afirmou que a culpa pela tragédia era das pessoas. O G1 e outros veículos repercutiram que a autoridade foi atingida por barro durante suas declarações na visita ao local afetado, já que reduziu o problema ao lixo não descartado corretamente. O prefeito culpabilizou a sociedade: “se vocês querem ajudar a nossa cidade, é conscientizar a população de que não pode jogar lixo nas encostas, não pode jogar lixo nos bueiros, não pode deixar lixo na rua. Esse é o grande problema do Rio de Janeiro”. Sim, conscientizar a população sobre a limpeza da cidade é importante, mas não é a única resposta e nem resolve por si só a questão. O que dizer sobre a responsabilidade pelo planejamento e gestão da cidade? O que as autoridades públicas têm feito para mitigar os danos das chuvas intensas? Quais as políticas públicas relacionadas à habitação? E quais são os projetos de enfrentamento às mudanças climáticas, provocadoras de fenômenos extremos cada vez mais frequentes? O que está sendo feito para evitar as perdas, que costumam se repetir todo ano?

Há muitas perguntas que precisam ser reiteradas para lembrar a todos que os efeitos das chuvas são tragédias anunciadas, respaldadas por previsões científicas sólidas. Logo, não são as vítimas as culpadas. Não é possível que jornalistas reproduzam esse discurso sem questionamentos. Quem mais sofre com a falta de ação do Estado, sempre é a população mais carente, aquela com menos recursos para se prevenir e se recuperar. Ninguém escolhe residir em área de risco por ter opções.

No trabalho diário é comum que o jornalismo se detenha aos impactos, àquilo que é visível agora e afeta diretamente a vida das pessoas, como no caso da notícia Mortes por chuvas no verão no Sudeste este ano já superam as de 2019, publicada dia 3 de março pelo UOL, e Buscas por vítimas de deslizamentos são encerradas em Santos e São Vicente; operação segue em Guarujá, publicada dia 7 pelo G1. Contudo, sabe-se que, a partir de uma cobertura mais extensa sobre o assunto, é possível observar mais do que o registro e o drama dos afetados, incluindo até mesmo a perspectiva da precaução. A dificuldade se dá em manter o tema na agenda pública, pois há um momento no qual o pico de atenção midiático desaparece; assim, quando o ciclo das chuvas reinicia, o desastre tende a ser apresentado como novo e se resumir em números e declarações que não explicam o porquê estamos assistindo, mais uma vez, a mesma história.

Na contramão da ênfase sobre as consequências, cito aqui um exemplo do que poderíamos ver mais na imprensa – em quantidade e aprofundamento: a reportagem publicada no dia 3 pelo jornal O Estado de S.Paulo, de Gilberto Amendola e José Maria Tomazela, no qual indaga-se: Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste? Nela são apontados diferentes elementos que agravam o que não temos condições de impedir: a força das chuvas. Nesse texto vários pontos de vista são visibilizados, relacionando os efeitos negativos das chuvas com as alterações do clima, a retirada da natureza dos centros urbanos, a ocupação desordenada, e a falta de políticas públicas que pensem no planejamento e na redução de riscos ambientais.

Mais do que naturalizar que as chuvas castigam as populações mais vulneráveis e que a responsabilidade é das próprias pessoas (que, por meio dessa lógica, elegeriam se colocar em perigo ao residir em áreas de risco), cabe ao jornalismo contextualizar as prioridades políticas dos governantes e esclarecer as razões para, ano após ano, continuarmos tratando a tragédia como algo novo, um acontecimento que irrompe da normalidade esperada. Como sublinha a reportagem de O Estado de S.Paulo, esse contexto é o “novo normal”. Como o jornalismo pode se adequar a isso? Como podemos fazer diferente diante de um cenário em que o futuro (e não apenas o presente) precisa ser considerado? Como dizer mais (no sentido de melhorar a compreensão) e pautar ações preventivas? Essas são algumas indagações que não poderiam ser lembradas pelos jornalistas apenas com a concretude dos prejuízos.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

Retrospectiva: 2019 foi o ano do meio ambiente (pelos piores motivos)

*Por Ursula Schilling

Até os mais desavisados ou menos interessados em acompanhar as notícias diárias sabem apontar pelo menos dois desastres ambientais de 2019. Pense um minuto. Provavelmente vieram a sua mente as queimadas da Amazônia e as machas de óleo nas praias do Nordeste, os mais recentes na linha de tempo. Faça um novo esforço e talvez você se lembre que, em janeiro, o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho/MG matou 259 pessoas (identificadas até o momento), desalojou e adoeceu outras tantas e causou danos irreparáveis à fauna e à flora.

Ao longo de 2019, o Observatório de Jornalismo Ambiental trouxa à discussão, semanalmente, exemplos de diferentes abordagens jornalísticas acerca da questão ambiental. Falamos aqui sobre o afrouxamento das leis ambientais, que estimularam ainda mais a utilização de agrotóxicos – os agrotóxicos, aliás, foram liberados num ritmo sem precedentes em 2019 -, o desmatamento, e, com ele, a ameaça às vegetações nativas. Discutimos amplamente as queimadas na Floresta Amazônica, as mudanças climáticas, o avanço da megamineração.

A partir das análises publicadas, vimos a pauta ambiental ganhar espaço, visto que não é mais possível calar tantos estragos. Compartilhamos exemplos de bom e de mau jornalismo. Deparamos com um jornalismo que ainda cala, que reporta fragmentos informativos, sem interesse em uma verdadeira problematização de questões urgentes.

Por outro lado, vimos emergir, ao mesmo tempo, um jornalismo questionador, com base em dados, feito com alma e com uma profunda preocupação com seu papel social, com sua função primeira de informar de fato. Por isso, deixei para a parte final dessa reflexão, formas de fazer jornalismo que nos provocam, inspiram e dão esperança, como o jornalismo de imersão de Eliane Brum, como as narrativas restaurativas do podcast Mamilos, como jovens e futuros jornalistas que questionam os critérios de noticiabilidade. E há muito mais. É possível contar histórias fugindo do senso comum. Tanto é possível que já é feito.

Tendo isso em conta, seguiremos com nosso trabalho de análise, convictos de que, para cada um que cala, que silencia, haverá um que grita, que propaga aquilo que precisa ser dito. Seguiremos questionando o papel e os limites do jornalismo na luta contra a desinformação. Seguiremos defendendo uma mídia mais combativa, um jornalismo de resistência em defesa da causa ambiental.

Que 2020 (também) seja o ano do meio ambiente. Por motivos melhores e mais animadores.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Relatos jornalísticos sobre a COP-25: a discussão extravasou o evento

Por Eloisa Beling Loose*

Muito antes da COP-25 começar, em 2018, ela já era assunto no Brasil. Falava-se em sair do Acordo de Paris, em proteger as riquezas naturais brasileiras dos interesses estrangeiros, colocava-se em suspeição a realidade das mudanças climáticas. Por fim, em novembro daquele ano houve o cancelamento da realização da COP em solo brasileiro.

Mesmo com a retirada da candidatura para sediar a COP-25, a agenda climática no país se fez muito presente em 2019, especialmente devido ao aumento das queimadas na Amazônia, amplamente noticiado pela imprensa nacional e internacional desde agosto, e que não pode ser isolado da crise climática. O desmonte de políticas públicas ambientais brasileiras e as manifestações já sentidas na pele em diferentes lugares fomentam o debate midiático e político de forma constante. Se no começo o receio apontado era que o Brasil perdesse o protagonismo internacional na discussão das mudanças climáticas – e com isso perderia também oportunidades de investimentos e negócios -, o fim do evento revelou que o país conseguiu ir além, sendo considerado “parte do problema” por negociadores que tentam avançar no enfrentamento do clima.

A BBC já noticiava em dia 11 de dezembro que Países em desenvolvimento acusam Brasil de tentar bloquear avanço em negociações do clima e, no fim da conferência, no domingo, dia 15,  a mais longa das cúpulas do clima realizadas pela ONU, manifestou mais sinais da postura contrária do governo: “O responsável pelo último dos impasses foi o Brasil, que não aceitava inicialmente dois parágrafos incluídos no acordo que faziam referências expressas sobre o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global”, expõe o texto Após atrasos e impasses, países aprovam texto final da COP25, publicado no portal R7. A proposta de fazer algo ambicioso já (o slogan da COP-25 é “Time for Action”) foi frustrada pela priorização dos interesses econômicos nacionais, baseados em combustíveis fósseis e em uma lógica de mercado calcada na exploração da natureza.

O papel do governo brasileiro já havia sido relatado pela imprensa e também criticado. O Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou claro que o “Esforço do Brasil é para conseguir recursos”, mesmo quando a finalidade da COP é outra. Muitos veículos, como G1, Uol, IG, Carta Capital e Veja, mostraram como o Brasil estava sendo malvisto quando divulgaram as anti-premiações do “Fóssil do Dia” e do “Fóssil do Ano”, reconhecimento da Rede Internacional de Ação Climática (CAN) aos países que tiveram a pior atuação na área.

O jornalista André Trigueiro, em podcast sobre a COP-25, nomeou de desastrosa a participação brasileira na Conferência, alertando para a gravidade do contexto. Também Amelia Gonzalez, em blog no G1, discute as regras feitas em torno dos mercados que buscam lucro sem considerar as pessoas, trazendo o exemplo de Belo Monte, que “ajuda que o Brasil mantenha uma boa imagem em Conferências sobre o Clima, como gerador de energia ‘limpa’, mesmo sendo um dos mais poluidores do mundo”. Em notícia do Nexo Jornal, o único aspecto positivo ressaltado recai sobre a participação da sociedade civil e outros setores e atores que buscam acordos pró-clima de forma direta, desvinculando-se do governo federal.

É importante recordar que a mudança de sede do Brasil para o Chile e depois para Madri há pouco mais de um mês da data do evento prejudicou a participação e articulação da sociedade civil, especialmente da América Latina, que contava com a oportunidade para pressionar os líderes de Estado. A colunista do El País, Eliane Brum, escreveu sobre a perda de uma oportunidade histórica, mas motivada por interesses que permitam a manutenção do status quo: “Os negociadores não querem sujar as mãos com as ruas da América Latina em diferentes tipos de convulsão. Preferem manter as negociações intermináveis em ambiente climatizado. A ironia aqui não é opcional. Querem mesmo controlar o clima do debate e não ser pressionado por aqueles que sofrem a falta de políticas públicas para enfrentamento do maior desafio da trajetória humana”. Ao promover o encontro na Europa, economicamente inviável para a participação da maioria dos impactados, pode-se pensar mais em como lucrar com os mercados de carbono e arquitetar caminhos para fazer mudanças mais brandas.

Apesar de as fontes oficiais ainda serem as mais procuradas e os discursos econômicos e políticos serem constantes nos relatos jornalísticos, percebe-se que a própria urgência de uma virada mobiliza outros atores, que passam também a ter espaços nas notícias (antes, durante e depois das COPs). Se na análise realizada a partir da cobertura de revistas brasileiras das COPs 15 e 16 identificou-se dificuldade dos veículos na construção de discursos próximos à sustentabilidade real, a perda de liderança do governo atual proporcionou que as vozes afetadas estivessem mais presentes nas matérias, como foi o caso da ativista adolescente Greta Thunberg, eleita a “Personalidade do Ano de 2019” pela revista Times e que chama a atenção para os mais vulneráveis aos riscos climáticos, e, em menor escala, da quilombola Luceli Morais Pio e da liderança indígena Sônia Guajajara.

Se houve um tempo em que a questão climática só era pautada de forma pontual, a partir da divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e das próprias COPs, percebe-se que está ocorrendo, gradualmente, uma extrapolação do assunto, que está conectado com aspectos políticos, econômicos, culturais, de saúde, de segurança… Tal transversalização do tema contribui para manter a atenção pública sobre o colapso e, quiçá, sensibilização para seu enfrentamento.

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que tem como o objetivo frear as emissões de gases de efeito estufa causadores da amplificação de riscos climáticos. A COP ocorre anualmente desde 1995, por um período de duas semanas, para avaliar a situação das mudanças climáticas no mundo e discutir formas de reduzir sua intensificação e, consequentemente, seus impactos. Os delegados governamentais dos países signatários dessa Convenção são os únicos com poder de voto, mas participam também dos eventos jornalistas e membros da sociedade civil. Desde 2015, quando foi assinado um grande acordo climático global, o Acordo de Paris, as conferências anuais têm se dedicado a como colocá-lo em prática, mas os processos decisórios costumam ser longos e lentos, pois as deliberações são tomadas por consenso entre as Partes – o que exige inúmeras negociações e nem sempre acarretam medidas à altura dos desafios impostos pela emergência climática.

A COP-25 encerrou, os resultados ficaram aquém do esperado mais uma vez, notou-se a desconexão das preocupações políticas com a urgência e gravidade do problema que precisamos enfrentar, porém ainda há tempo para agir. E o jornalismo deve fazer a sua parte enquanto prática social voltada para o interesse público. Que as mudanças observadas ao longo do tempo na cobertura jornalística sobre clima tenham um ritmo maior e possam ser amplificadas para alertar a todos sobre o que está de fato em risco quando falamos de crise climática: a nossa existência nesse planeta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

“É impressionante a imprensa dar espaço para esses adultos aí”

Por Reges Schwaab*

Diz. Afirma. Duas expressões recorrentes nas manchetes dos jornais de referência, em especial em seus portais digitais. Mas não só. Nesta quarta, 14, a manchete de terça ainda se repetia: “Bolsonaro chama Greta de ‘pirralha’ e diz ser contra desmatamento ilegal”. Diz. Afirma. E o fato de alguém dizer parece desobrigar o jornalismo da apuração. A triste frase do presidente, que rodou o mundo, e fez com que Greta Thunberg alterasse sua descrição no Twitter (imagem a seguir), pode não parecer caso para uma grande análise.  Mas, na verdade, faz lembrar do contexto mais amplo da disputa de sentidos acerca da emergência climática, a bandeira de protesto de Greta e outras milhares de pessoas, luta que mobiliza jovens, ativistas e cientistas em diferentes países.

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Imagem: Reprodução/Twitter

Poderíamos esperar uma grande repercussão do jornal acerca da afirmação sobre Greta? Talvez não. Mas a proposta é ver aqui outro viés. O “diz” e o “afirma” acompanham, recorrentemente, as manchetes sobre os chamados negacionistas, a quem o jornalismo resolve, em intervalos regulares, conceder espaço e mostrar que o aquecimento global não existe, ou não é fruto da intervenção humana. Isso porque todo jornal ainda insiste em se denominar “imparcial” e “comprometido com a verdade”, tendo de ouvir os “dois lados”.

“É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessa aí”, foi a frase de Bolsonaro na terça. Poderíamos fazer um jogo de inversão? Melhor não, pois cairíamos no mesmo preconceito. O insulto proferido contra Greta ecoa a desconsideração da criança e de que a infância seja um lugar de saber. Então, a luta de Greta é uma pirraça infantil. E não sendo nada mais do que gritos de uma criança, por que haveriam de ser considerados? Apareceram charges retratando Bolsonaro como um bebê diante de Greta. Mas soam na mesma direção, a criança que faz pirraça diante do adulto. A luta geral vai em outro sentido.

O “impressionante”, nos parece, é que mesmo diante de pilhas de dados científicos, produzidos por diferentes correntes acadêmicas, os que negam a interferência humana no ecossistema tenham suas afirmações amplificadas em nome da encenação de pluralidade jornalística. Sobre esse tema, merece leitura o texto de Herton Escobar na ComCiência (Dar voz à mentira não é imparcialidade, é irresponsabilidade). Basta verificar, são atores que nunca participaram de um debate científico sério sobre o tema. Só dizem. Isso inclui o presidente e o ministro do Meio Ambiente brasileiros.

Na semana em que as mudanças do clima foram um dos assuntos mais comentados no Twitter, diante da COP25, a Conferência da ONU sobre o clima, o Brasil dos já crescidos segue sem entender de futuro. Na crítica de Greta, que incomodou Bolsonaro, estava a evidência da culpa pública e coletiva pelo extermínio dos indígenas e pela falta de proteção ao território da Amazônia. E como escreveu Eliane Brum no El País, se a COP 25 não frear a destruição da Amazônia, seria melhor nem ter saído de casa. Greta não diz ao vento. A despeito de críticas direcionadas a ela, que aparecem a todo momento, Greta sabe: nada foi feito efetivamente pelos senhores tão adultos, nós aí incluídos.

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Imagem: Reprodução/Greta é eleita pela Time a personalidade do ano

Para ampliar: Crise climática e justiça ambiental

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).