Observatório de Jornalismo Ambiental

Terra Indígena Parakanã é invadida por caçadores e os indígenas da etnia awaeté recebem ameaças

Imagem: 60% da TI se situa no município de Novo Repartimento. Fonte: Terras Indígenas no Brasil – https://terrasindigenas.org.br/ Acesso em 02/05/2022.

Por Ilza Maria Tourinho Girardi*

A cobertura da imprensa local e nacional mobilizada em torno do desaparecimento de três homens não indígenas em Novo Repartimento, município do Pará, desde 24 de abril, motiva a análise crítica que se apresenta a seguir. Em primeiro, destaca-se a importância da contextualização sobre o lugar, um território indígena ancestral parakanã, que segundo Wikipédia, teve uma vila implantada pela empresa que construiu a Rodovia Transamazônica e, após, uma nova mudança no território com a inundação pelas águas da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Por isso, de um lado, o povo parakanã foi removido de suas áreas originais e circunscrito na Terra Indígena Parakanã, homologada em 1991, com 352 mil hectares e, de outro lado, o povo não indígena ficou alocado no município criado também em 1991, Novo Repartimento. Por fim, merece ser destacado ainda, que em 16 de abril, o Ministério Público Federal, o MPF, ouviu de lideranças parakanã o pedido de concretizar a desintrusão (retirada de não indígenas de uma terra indígena) de madeireiros e garimpeiros das suas áreas, conforme a lei vigente.

A circulação de não indígenas é frequente no território do povo parakanã apesar da sinalização, da lei vigente e dos apelos dos próprios indígenas com o apoio de entidades indigenistas. E, no domingo 24 de abril, ganhou repercussão o desaparecimento de três caçadores que entraram sem ser convidados na Terra Parakanã, no Pará. Importa saber que não foram convidados porque os habitantes não tinham ciência da presença desses homens nas suas áreas, o que só aconteceu após os indígenas receberem diversas ameaças e acusações de envolvimento com o desaparecimento e/ou a morte deles. 

Em geral, as notícias informaram que, familiares de Cosmo Ribeiro de Sousa, William Santos Câmara e José Luiz da Silva Teixeira fecharam um trecho da BR-230 Transamazônica por três dias exigindo que as autoridades entrassem na terra indígena para realizar as buscas. Após a autorização da Justiça, a rodovia foi liberada na noite de quinta-feira (28). O Ministério Público Federal pediu a instauração de inquérito pela Polícia Federal. Desde quinta-feira (28), após autorização da Justiça, mais de 150 agentes das polícias Federal e Militar, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e Corpo de Bombeiros saíram em busca dos três homens. A notícia foi repercutida em vários órgãos da imprensa. Para esta análise, foram selecionadas algumas que apresentam pistas sobre como produção das matérias foi conduzida.

Com a chamada “Três caçadores estão desaparecidos na Reserva Indígena Parakanã, em Novo Repartimento no sudoeste do Pará” o Jornal Liberal 2ª edição, de 26 de abril, relata a ocorrência e informa que o Ministério Público Federal acompanha as buscas e está em contato com a FUNAI, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal para evitar qualquer tipo de conflito entre os indígenas e os não indígenas. Informa ainda, mostrando as imagens, que os familiares fecharam um trecho da Transamazônica e o clima ficou um pouco tenso. A repórter relata que, conforme o Ministério Público Federal, moradores armados teriam ido até o local onde os caçadores sumiram e acusaram indígenas pelo desaparecimento dos três homens. Esclarece que segundo o Ministério Público Federal os indígenas apoiam as investigações.

No Jornal Hoje, da emissora Globo, de 30 de abril, o apresentador relata que a Polícia Federal encontrou três corpos na terra indígena Parakanã, no Pará, e que segundo as autoridades ainda não foi possível identificar os mortos.

A notícia do G1 “Autoridades federais fazem buscas a caçadores desaparecidos na Terra Indígena Parakanã, no PA”, acrescenta que a “área da reserva Parakanã tem tamanho equivalente a 350 mil campos de futebol e abriga cerca de 23 aldeias, com uma população de 1,5 mil indígenas”.

Veiculada no Portal Terra, em 28 de abril, a notícia “Caçadores desaparecem em terra indígena; clima é de tensão no sudoeste do Pará”, informa que três homens invadiram a terra indígena para caçar em Novo Repartimento. De acordo com a matéria “Moradores da região acusam indígenas pelo sumiço dos caçadores e falam em retaliação. Um grupo teria invadido uma escola indígena e agredido estudantesda aldeia”. Os indígenas, da etnia awaeté, passaram a receber ameaças diretamente e por meio de redes sociais. Esta notícia cita como fonte o Ministério Público Federal (MPF) do Pará, segundo o qual moradores da região entraram armados na reserva para ameaçar os indígenas. A indígena TaranaParakanã, estudante de Letras, contou que não indígenas invadiram a escola, no Posto Taxakoakwera, agrediram estudantes e, alguns portavam armas.

Conforme a mesma matéria, outra fonte citada através de nota, professores do Instituto Federal Rural do Pará, ao qual a escola é vinculada, cobraram uma ação enérgica das autoridades nas buscas pelos caçadores desaparecidos e denunciaram que os indígenas estão sendo alvo de preconceitos, já que não há nenhum indício de que tenham responsabilidade pelo desaparecimento deles. “O branco está invadindo as nossas terras e ameaçando o meu povo de morte”, disse, em vídeo, o cacique da aldeia Parano’wa, Xeteria Parakanã.

Ainda de acordo com a matéria, o MPF informou que está em contato com a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Polícia Federal e a Polícia Militar do Estado para as buscas aos desaparecidos e a proteção da comunidade indígena. A PF e a PM confirmaram o envio de efetivo para prestar apoio e minimizar a possibilidade de ocorrência de um conflito. A Funai informou que um grupo de mediação de conflitos acompanha a situação que, no momento, é tranquila. A entrada de pessoas estranhas ao grupo é proibida em terras indígenas, segundo lei federal de 1973. A TI Parakanã, com 352 mil hectares, possui 24 aldeias, onde vivem 1,4 mil indígenas, e está a cerca de 30 km da área urbana de Novo Repartimento. Devido ao contato recente com o homem branco, há menos de quatro décadas, os awaetés não dominam bem a língua portuguesa.

Contextualização importante, faz esta matéria ao recordar que em 25 de dezembro de 2013, cerca de 3 mil moradores de Humaitá, no sul do Amazonas, atearam fogo em prédios da Funai e postos de saúde indígena em protesto contra o desaparecimento de três homens na Transamazônica, quando cruzaram de carro a Terra Indígena Tenharim.  Os revoltosos responsabilizavam os índios pelos desaparecimentos, que seriam por vingança. Três dias antes, um cacique Tenharim tinha sido encontrado morto na Transamazônica. Carros, ambulâncias e até um barco que atendia as populações indígenas também foram incendiados. Ameaçados de linchamento, os indígenas que moravam na cidade se refugiaram no Batalhão do Exército. Os corpos dos desaparecidos foram achados no dia 3 de fevereiro, em uma vala, no interior da reserva. Cinco tenharins foram presos, acusados pelas mortes. Em novembro de 2015, eles foram colocados em liberdade condicional e ainda esperam julgamento.

A notícia publicada em 30 de abril no Correio de Carajás, além de outras informações acrescenta que o juiz federal Heitor Moura Gomes, da Subseção Judiciária de Tucuruí, assinou ordem de busca e apreensão na área da Reserva Indígena Parakanã, em Novo Repartimento, para localizar os três homens. Além de determinar a desobstrução do trecho interditado da BR-230 (Transamazônica), que foi ocupada um dia depois do desaparecimento, se estendia a toda a área de 325 mil ha da Reserva Parakanã, composta pelas aldeias Paranatinga, O’Ayga, Paranowaona, Itaoenawa, Itaygara, Paranoawe, Paranoita, Paranoa, Maroxewara, Inaxyganga, Itapeyga, Paranoema, Itaygo’a,Inatarona, Xaraira, Xataopawa, Parano’ona e Arawayaga.

No dia 27 de abril o portal Amazônia Real publica a matéria “Sumiço de caçadores faz população se revoltar contra os Parakanã”, com informações detalhadas. Relata a agressão sofrida pelos alunos dos Cursos de Agroecologia e Magistério Indígena do Campus Rural de Marabá do IFPA, por volta de 13h15min, deflagrada por familiares dos desaparecidos. O ocorrido resultou numa nota conjunta assinada por professores e pela coordenação do Curso de Magistério Indígena (IFPA/CRMB). Conforme a nota os indígenas receberam os familiares dos homens desaparecidos, que ao solicitarem ajuda nas buscas por seus filhos, foram atendidos pelos indígenas. A reunião estava se encaminhando bem até que um sargento da Polícia Militar de Novo Repartimento disse ter recebido informações de um desaparecimento seguido de cárcere privado. Mas, um professor, segundo a nota, se manifestou sobre a informação que tinham de dentro do território: “O senhor ou seu informante não estariam equivocados? Aqui até o momento não houve ‘cárcere privado’.”

No mesmo dia (27/04), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a APIB, publicou a matéria “Povo Awaeté da T.I. Parakanã sofre ameaças após sumiço de caçadores em suas terras”. O texto faz um relato detalhado da reunião das duas mães e um pai dos caçadores desaparecidos com as lideranças indígenas, a mesma referida na notícia que destacamos acima. Porém, mostra a escuta entre as partes, como através do pedido de desculpas do sargento da Polícia Militar ao ter a situação esclarecida diante das informações que trouxe sobre “cárcere privado”. A nota da APIB segue problematizando a cobertura da imprensa:

“Por que tanta desinformação? O que justificaria a construção tão rápida de argumentos incondizentes com o ocorrido? Por que tamanho ódio aos indígenas? Por que uma mídia local reproduziria a narrativa do ‘cárcere privado’ no dia seguinte? Qual o interesse dos agentes políticos e econômicos da região nesta nova fricção com os indígenas Awaeté?”

A nota esclarece que os Awaeté-Parakana têm contato recente, em torno de 40 anos, com os não indígenas. Poucos falam português e outros estão estudando a língua; tomamos como óbvia esta necessidade, e acrescentamos a igual reflexão sobre se os não indígenas da região estão fazendo o mesmo esforço de aprender uma língua diferente.

“Vivem ainda sob as sequelas do deslocamento compulsório da Eletronorte para a Construção da Hidroelétrica de Tucuruí e de uma Tutela traumática do Programa Parakanã,” consta no Relato. Hoje algumas aldeias estão sitiadas por não indígenas hostis aos Awaeté.

“Áudios com ameaça à vida dos indígenas começam a circular. Um clima de insegurança e ameaças vêm aumentando e preocupando os Awaeté e seus parceiros institucionais, como os/as professores/as dos cursos de Magistério Indígena e Agroecologia. Esse episódio expõe a cobiça pelo fragmento de território Awaeté que compõe a T.I Parakanã, as ressalvas em relação aos Awaetépelos colonos da frente de expansão, a visão dos regionais sobre os Awaeté como atrasadores do desenvolvimento local ou como um grupo privilegiado com um programa da Eletronorte. Enfim, a carga de preconceitos e etnocentrismo vêm alcançando os desdobramentos nos corpos indígenas. Basta! Cobramos de todas as autoridades responsáveis a máxima proteção para os Awaeténeste momento.”

Como se observa as notícias mais completas foram as publicadas no Portal Terra, Amazônia Real e no site da APIB. Sendo que um dos principais aspectos, é a escuta de fontes indígenas, as quais ainda buscavam tomar pé dos acontecimentos em seu próprio território. As demais apresentam um viés quase acusatório aos indígenas e sequer apresentam um histórico dos conflitos na região provocados pelas invasões dos não indígenas às terras indígenas. É importante lembrar que as matérias não mencionaram que é crime caçar no Brasil, conforme a Lei 5197/67, de 3 de janeiro de 1967 e se fixaram na suspeita de que os indígenas seriam os autores dos crimes.

Caso o Jornal Liberal 2ª Edição tivesse consultado a matéria publicada na mesma emissora em 3 de agosto de 2018, com a duração de três minutos, teria tido mais argumentos para mostrar a situação da Terra Indígena que há anos sofre com invasões. Na época lideranças indígenas bloquearam um trecho da Transamazônica, notrecho Altamira – Belo Monte exigindo a retirada de madeireiros, fazendeiros e garimpeiros que invadiram a área, que é uma das mais desmatadas. A situação se agravou nos últimos anos com a grilagem. A reportagem, bem completa e informativa, se utiliza de dados do Instituto Socioambiental. A própria repórter diz que o processo de retirada de invasores não foi concluído. Isso demonstra o descaso do Governo Federal com a situação dos povos indígenas que são constantemente ameaçados no Brasil.

O jornalismo tem o compromisso com a verdade e com a cidadania, logo não deve contentar-se com informações superficiais, incompletas ainda mais quando se trata de tema tão grave que é a situação dos povos indígenas no Brasil que sofrem ataques constantes. Maior a responsabilidade num país onde o próprio Presidente da República não tem nenhum pudor ao expressar desconhecimento em relação aos povos indígenas, chegando ao ponto de conceder-se uma medalha de mérito indígena. Contextualizar e ouvir as fontes é um dever do jornalismo. Caso contrário, corre-se o risco de reforçar discursos racistas e excludentes que atendem interesses econômicos escusos. 

O jornalismo ambiental nos ensina que é necessário ampliar o olhar e incorporar a ética do cuidado no seu fazer buscando contribuir com a mudança do pensamento no sentido de alcançar o apaziguamento na nossa relação com a natureza e os demais seres.

Fritjof Capra, em 1982, no livro O ponto de mutação faz um alerta que nos ajuda a entender melhor esse novo olhar: “os jornalistas deverão mudar, e seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma ética profissional baseada na consciência social e ecológica.” (CAPRA,1982, p.400)

 

Referência:

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo:1982, p.400

 

*Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada da UFRGS, professora convidada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, FABICO/UFRGS. Doutora em Ciência da Comunicação, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

A reportagem a pé sobre meio ambiente

Imagem: capa do livro no site da Blooks Livraria

Por Míriam Santini de Abreu*

O livro “Andar a Pé – Uma Obrigação Profissional” (Ibis Libris, 2021), coletânea de reportagens do jornalista Rogério Daflon, é alimento saboroso para quem trabalha com a pauta ambiental e concretiza, na prática profissional, a máxima de que lugar de jornalista é na rua. A obra, lançada em dezembro passado, reúne 45 textos de Daflon publicados em diferentes veículos, agrupando-os em cinco eixos temáticos: Moradia, Meio Ambiente, Uso e ocupação do solo e do espaço público, Obras e equipamentos públicos e Patrimônio arquitetônico e cultural. A iniciativa se viabilizou graças a uma vaquinha virtual realizada após a morte do jornalista, nove dias depois de ser atropelado por um motociclista no Rio de Janeiro em 2019.

Dos sete textos do eixo temático Meio Ambiente, três compõem a série “Desleixo Insustentável” (jornal O Globo, março de 2012) e uma a série “Os Rios do Rio” (jornal O Globo, 2012). A última, de junho de 2019, é a entrevista derradeira de Daflon, para O Eco, abordando os impactos que o projeto – posteriormente retirado – de um autódromo provocaria na Floresta do Camboatá, remanescente de Mata Atlântica na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro.

Os textos trazem a marca do repórter que baixou ao chão, como nas entrevistas com moradores das margens de rios apodrecidos por esgoto para a série “Os Rios do Rio”. O “método Daflon”, conforme definem os colegas de trabalho em testemunhos publicados no livro, evoca os escritos de Anton Tchékhov reunidos em “Um bom par de sapatos e um caderno de anotações: como fazer uma reportagem” (Martins Fontes, 2007), com impressões e conselhos do contista russo que, em 1890, aos 30 anos, percorreu 12 mil quilômetros para conhecer a vida de deportados na Ilha de Sacarina. Uma extravagância, disse-lhe seu editor. Ele foi assim mesmo.

Destacam-se, no eixo Uso e ocupação do solo e do espaço público, três reportagens. Em “Roubaram a praia do Vidigal” (Agência Pública, 2017), Daflon mostra como o Sheraton Grand Rio Hotel & Resort, no Leblon, se apossou do acesso à praia, restando aos moradores subir e descer uma escadaria de 141 degraus. Na reportagem “Os prédios que violaram o ‘skyline’ do Rio” (Agência Pública, 2017), o jornalista relata o processo de ocupação céu acima da capital fluminense. “Rogério trouxe a brilhante ideia de consideramos o skyline como um espaço público, tão passível de ser gozado pelos cidadãos como uma praça ou a própria praia (…)”, escreve a jornalista Natalia Viana, da Agência Pública, na abertura do conjunto de textos.

Para as matérias, Daflon trazia a vida cotidiana, a singularidade do espaço geográfico e também o conhecimento acumulado na academia ao entrevistar professores e pesquisadores. Ele mesmo era um, tendo concluído mestrado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ com dissertação intitulada “Ribeirinhos urbanos: uma vida à margem do direito à moradia”. Em matéria para a Casa Fluminense (2014) sobre o conjunto habitacional popular Cruzada São Sebastião, no Leblon, menciona que passou os olhos por cerca de 100 reportagens sobre o lugar antes de passar alguns dias lá para produzir seu próprio texto.

Por fim, cita-se a reportagem “Condomínio Laranjeiras: segregação, ameaça e processos em Paraty” (Agência Pública, 2017), que expõe a forma pela qual um empreendimento privado para milionários se apossou, nos anos 1970, de parte do que viria a ser o Parque Nacional da Serra da Bocaina. A reportagem traz à memória outra, “Histórias de uma aldeia visitada pelo medo”, feita pelo jornalista Marcos Faerman sobre o mesmo fato e publicada originalmente no Jornal da Tarde em abril de 1974, sendo depois selecionada para a coletânea “Com as mãos sujas de sangue”, podendo ser lida em https://bit.ly/3jY1vxZ (a partir da página 115 do livro). Com intervalo de quatro décadas, Faerman e Daflon revelam o início e a consolidação do assalto imobiliário do litoral brasileiro tendo como epicentro as cobiçadas praias fluminenses. E em ambos aparecem também os que continuamente lutam para não serem acossados do espaço pelos que perseguem apenas o lucro.

Por isso, o olhar do jornalista que anda nas ruas e se apropria da plenitude do espaço geográfico e das vozes que vêm de suas profundezas, dando-lhes audibilidade e visibilidade, é efetivamente inovador da linguagem, portanto revolucionário.

* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo

Entre diagnósticos e projeções do IPCC, as múltiplas nuances da emergência climática

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

A principal notícia deste mês de abril, no que tange à situação climática do planeta, foi a divulgação do novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) da Organização das Nações Unidas. É apontada uma diminuição das chances de limitação do aumento da temperatura em 1,5ºC, cenário para o qual é necessário alcançar o pico de emissões até 2025 e cortá-las pela metade até 2030. O relatório do IPCC é um acontecimento tão científico quanto geopolítico e, divulgado sazonalmente, costuma ocupar um relativo lugar de destaque no noticiário dos grandes veículos de mídia.

Enquanto notícia, os fatos relatados pelas matérias costumam conter boa dose de informações climáticas, projeções de cenários, diagnósticos do problema — afinal, são estes os dados divulgados no âmbito do próprio IPCC. A matéria da Folha de S. Paulo sobre o acontecimento cumpre à risca seu papel e não se furta de elucidar, com clareza, as principais informações, causas e consequências que envolvem a emergência climática em curso. Já esta reportagem da BBC Brasil, publicada na última semana por portais como G1 e Folha de S. Paulo, também mobiliza uma interessante discussão científica em torno das novas tecnologias de “geoengenharia solar”: pesquisas que buscam mitigar o aquecimento do planeta a partir de técnicas como o lançamento de substâncias químicas na estratosfera, fazendo-as atuarem como barreira aos raios solares. Grande parte dos cientistas, todavia, alerta para o grave risco das técnicas, com consequências imprevisíveis para o planeta; reforçam o grau apenas paliativo do empreendimento; e criticam o deslocamento de atenção da raiz do problema, que é a imprescindível necessidade de redução da emissão de gases de efeito estufa.

O problema, no entanto, é que o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas — para além da reunião de cientistas e/ou políticos em organizações multilaterais — também necessita estar presente nas capas dos jornais e televisão. Se o objetivo deve ser o de informar a população para que, indiretamente, aumente a pressão da sociedade civil por medidas mais rigorosas de enfrentamento às mudanças climática, é preciso acionar as diversas nuances do assunto e envolver o público pelos múltiplos caminhos possíveis.

Um bom exemplo é esta matéria publicada pelo National Geographic Brasil, abordando “como o aquecimento global afeta a vida no Brasil”. A publicação envolve o já conhecido aumento de desastres naturais — e cita, por exemplo, as chuvas torrenciais que deixaram 233 mortos em Petrópolis (RJ) —, apontando para a mudança no padrão de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, em especial. Também engloba as consequências diretas na saúde humana devido ao estresse térmico, bem como o aumento no custo de produção alimentícia e energética, e suas repercussões no aumento da desigualdade social brasileira.

A necessidade de envolver o público para as questões ambientais em suas diversas facetas é evidenciada, por exemplo, nesta coluna do portal Latinoamérica21, publicada na Folha de S. Paulo, sobre as “Contradições no mundo diante das mudanças climáticas”. Em suma, pesquisas de opinião apontam para um elevado grau de alerta das populações latino-americanas sobre as mudanças climáticas em relação ao resto do mundo; ao mesmo tempo, apesar de alertas, também são estas as mais otimistas quanto à resolução dos problemas. Chama mais a atenção, no entanto, a alta ênfase dada à responsabilização do indivíduo para solucionar as mudanças climáticas: nove em cada dez latino-americanos acreditam que suas ações pessoais fazem a diferença (mais do que a média de países desenvolvidos) e 40% das classes média e média baixa brasileira veem no indivíduo uma responsabilidade maior pela sustentabilidade do que nos governos e empresas.

Embora sem diminuir a importância da conscientização em nível individual, o foco somente nesta instância pode desestimular a pressão popular e a fiscalização dos grandes agentes poluidores. É também nesta direção que deve caminhar o jornalismo, em seu papel de descortinar as muitas variáveis que orbitam as questões socioambientais.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O raso debate sobre veganismo

Imagem: IPEAS Report – The Politics of Protein, 2022

Por Matheus Cervo*

Nas últimas décadas, o debate sobre os impactos do consumo de carne tem avançado para mostrar que a escolha em aderir uma dieta vegana vai muito além de optar pela libertação animal.

Segundo a FAO-ONU, o consumo de carne vermelha gera 14,5% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e é responsável por inúmeras infrações trabalhistas nos setores frigoríficos. Além disso, mais de 60% das doenças infecciosas humanas são causadas por agentes patogênicos partilhados com animais selvagens ou domésticos. Por isso, são utilizados antibióticos de forma excessiva na indústria da carne, o que contribui enormemente para o surgimento de agentes resistentes aos mesmos.

Os impactos são ainda mais gritantes quando pensamos de forma sistêmica e percebemos que esse tipo de produção gera desafios críticos à sustentabilidade, como perda de biodiversidade, poluição química, degradação da terra, dificuldade de manter um meio de subsistência e pobreza nutricional nas dietas familiares. Não é trivial notar dados alarmantes que mostram que 80% das terras agrícolas globais são destinadas à produção de soja e milho para fabricação de ração, algo que é extremamente ineficiente para resolver o problema grave da insegurança alimentar.

Ainda assim, existe uma quantidade enorme de matérias jornalísticas que não se comprometem em buscar fontes sérias, gerando desinformação e rejeição sobre o tema. Como exemplo disso, o Metrópoles publicou uma matéria chamada “Entenda por que alguns vegetarianos e veganos voltam a comer carne”. A escrita traz posições de nutricionistas que ainda não se atualizaram no debate científico, já que falam que veganos tendem a voltar a comer carne por ficarem subnutridos (pela suposta falta de proteína) ou por perceberem que estavam em um “surto” por pressões sociais absurdas. Por fim, traz uma série de argumentos de psicólogos para legitimar o processo de reconversão a uma dieta com carne, uma vez que esses profissionais da saúde afirmam a necessidade de autoconhecimento para se “desvincular de crenças que geram sofrimento”.

Um meio que faz um trabalho muito mais sério é O Joio e O Trigo, um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder. Recentemente, publicaram uma matéria sobre o crescente mercado das caríssimas “carnes vegetais” industriais. Logo de início, partem de inúmeras fontes de informação que pautam a importância do debate sobre a mudança alimentar, como o relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), que foi publicado no dia 6 de abril de 2022. Contudo, é com base nesse relatório que a matéria mostra que as soluções não são simples e que muitas alternativas industriais como as mencionadas não são sustentáveis e, inclusive, são patrocinadas pela própria indústria da carne.

O texto termina como uma aula ao jornalismo que se debruça ao veganismo e às mudanças alimentares, já que traz um discurso de que esse debate sobre carnes e proteínas precisa de uma dimensão antropológica. Ou seja, se sabemos que a redução ou a eliminação dos produtos de origem animal são necessárias, precisamos fazer esse debate junto da diversidade cultural de práticas para e com a natureza, com agricultores familiares, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e mesmo grupos urbanos em situação de insegurança alimentar. Não se trata de criar matérias repudiando ou adorando o veganismo, mas, sim, de o debater de forma societária e complexa.

* Graduado em Ciências Sociais, mestre em Comunicação e atual doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A emergencial pauta indígena que interessa sobremaneira aos não indígenas

Imagem: Reprodução da coletiva de imprensa da Apib no ATL

Por Eliege Fante**

Há 18 anos, os povos indígenas se reúnem em Brasília, no mês de abril, com um número cada vez maior de pessoas e de apoiadores. Dia 4 iniciou o Acampamento Terra Livre (ATL) com o tema “Retomando o Brasil: Demarcar Territórios e Aldear a Política” e que deve seguir até o dia 14 deste mês, reunindo cerca de oito mil participantes. Este panorama motiva uma maior dedicação à escuta, mas, parte da imprensa nacional, representada aqui por G1 dia 4 e dia 6, Record dia 4 e SBTNews dia 5 cumpriu o já comum “jornalismo” declaratório, ou seja, reproduziu alguns dizeres de fontes.  

A decisão sobre quais dizeres reproduzir requer tempo para pesquisa e reflexão dos jornalistas. Durante a coletiva de imprensa, no primeiro dia de ATL, as lideranças trouxeram informações portadoras de valores-notícia, apesar da pressão do agronegócio que, através do patrocínio ou outra forma, interfere nas políticas editoriais dos meios de comunicação sobre o que e como é, ou não, publicado. Por exemplo, Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib), destacou na coletiva o “passivo muito grande de territórios a serem reconhecidos e demarcados nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul, Centro-Oeste”. Pois, explicou, a maior parte dos 13% de território indígena no Brasil se situa na região Norte, ou seja, no bioma amazônico. Os dados oficiais* sobre este percentual são: 728 terras indígenas, sendo 487 homologadas e reservadas, 124 em identificação, 74 declaradas, 43 identificadas.

No segundo dia do ATL (05/04) uma das publicações que chama a atenção é o vídeo curto feito pela Apib sobre o passivo referido por Sônia: um total de 891 terras indígenas que aguardam providências do governo federal, diante de apenas 408 registradas, ou seja, com o processo demarcatório concluído. O Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil do Conselho Missionário Indigenista (CIMI, 2020) repete este número e apresenta o panorama, do qual extraímos o total de 1299 terras indígenas, sendo centenas com pendências administrativas e, o maior número delas, 536, sem providências por parte do Estado brasileiro. Só no Rio Grande do Sul, são 38 sem providência alguma.

Considerando esses números, a grande delegação indígena do RS no ATL, o crescente número de retomadas pelo estado e, inclusive durante a pandemia da covid-19, sem esquecer as mobilizações e doações periódicas pela sociedade civil para o suporte básico dos povos negligenciados pelo governo federal, existem muitas possibilidades de pautas a serem concretizadas pelo jornalismo de modo a auxiliar o público, que acessa esses conteúdos, sobre o que de fato é “tudo” para a reprodução social e o próprio desenvolvimento econômico no presente e futuro próximo. Resta saber se, a imprensa dona dos principais meios de comunicação no país, nacional e estadual, vai permitir o trabalho dos jornalistas profissionais nas redações. Neste caso, teremos uma semana para observar, até 14 de abril.

*Terras Indígenas no Brasil – https://terrasindigenas.org.br/ Acesso em: 05/04/2022.

**Eliege Fante é jornalista autônoma, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, repórter e editora voluntária na EcoAgência e associada ao Núcleo de Ecojornalistas, o NEJ-RS.

Microplásticos no corpo humano: como ampliar a pauta sobre um estudo científico?

Crédito: Captura de tela do site RFI

Por Débora Gallas Steigleder*

A constatação inédita da presença de micropartículas de plástico no sangue humano é um importante alerta nas áreas de saúde e meio ambiente. Uma matéria da agência de notícias RFI publicada em 25 de março, que trata de estudo holandês sobre o tema, repercutiu em veículos nacionais, como a Folha.

O texto destaca que mais da metade das amostras de sangue dos voluntários contém vestígios de PET (polietileno tereftalato), um dos tipos de plástico mais comuns em nossa rotina por ser utilizado na fabricação de garrafas e fibras de poliéster. Assim, os dados por si só são capazes de alertar o leitor para a exposição cada vez maior do nosso organismo à infinidade de resíduos gerados pela indústria.

É necessário, porém, que o jornalismo estabeleça novas relações com as pesquisas científicas. Além de publicizar seus resultados, veículos e jornalistas podem utilizá-las como mote para pautas que conectem as descobertas recentes a problemas sociais e ambientais de longa data.

No caso brasileiro, por exemplo, é viável ampliar pautas conectadas à responsabilidade compartilhada por setores privado e público e cidadãos na geração, consumo e descarte de materiais recicláveis ou não recicláveis. Essas atribuições são previstas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, implementada em 2010, mas da qual a indústria ainda se esquiva, como destaca texto recente deste Observatório sobre o setor têxtil.

Além da evidente problemática ambiental referente à produção excessiva de novos itens e ao descarte incorreto desses materiais, falar sobre resíduos é falar também sobre o sustento de famílias que trabalham com a reciclagem. Em um Brasil empobrecido, é mais do que pertinente traçar um paralelo entre a escassez do alimento que nos mantêm vivos e a abundância de substâncias que envenenam nosso corpo.

*Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação. Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental. E-mail: deborasteigleder@gmail.com

Incêndios florestais em pauta

Mapa de perda de floresta devido ao fogo vs. outros fatores entre 2001 e 2019 (Foto: Alexandra Tyukavina, Peter Potapov, Matthew C. Hansen, Amy H. Pickens, Stephen Stehman, Svetlana Turubanova, Diana Parker, Viviana Zalles, André Lima, Indrani Kommareddy, Xiao-Peng Song, Lei WANG, and Nancy Harris). Fonte: Reprodução da notícia publicada em Galileu

Por Leticia Menezes Pasuch*                                                 

A realidade da crise climática, que aumenta de forma global, é uma pauta recorrente na mídia, sobretudo diante dos seus impactos. Publicada no site da Revista Galileu no dia 16 de março de 2022, a notícia “Incêndios causaram perda de um terço das florestas do planeta” traz um estudo tecnológico inédito sobre as tendências globais de perdas florestais, divulgado no periódico Frontiers in Remote Sensing, que publica pesquisas associadas a ciência e tecnologia.

A matéria levanta questões importantes e de interesse público referentes à situação das queimadas nas áreas florestais e sua proporção global entre 2001 e 2019 – sendo maior do que o estimado, além de mencionar o Brasil e as recentes queimadas na Amazônia, que chamaram a atenção dos pesquisadores. É apresentado o mapa produzido pelos autores, ilustrando em clara resolução as regiões que tiveram perda florestal e facilitando a visualização de quais áreas foram perdidas pela queimada ou por outros fatores e onde ainda não houve perdas.

No entanto, o conteúdo do texto se limita à reprodução dos dados da pesquisa, oferecendo pouca contextualização da temática que a envolve. Também não ouve muitas fontes, trazendo apenas declaração de uma das autoras do trabalho. A matéria não aponta a relação desses fenômenos com as ações humanas, que provocam, em maior parte, os incêndios florestais, além de não aprofundar esses danos à biodiversidade e aos ecossistemas.

De acordo com Wilson Bueno (2007a, p.18), com uma cobertura jornalística ambiental fragmentada, “o cidadão muitas vezes tem dificuldades para entender a amplitude e a importância de determinados conceitos e vislumbra o meio ambiente como algo que lhe é externo”, dificultando o entendimento do seu papel nessa atmosfera ambiental. Isso não auxilia na compreensão, nesse caso, dos motivos pelos quais os incêndios florestais ainda acontecem, quais são as consequências acarretadas pelas queimadas – como a emissão de gases do efeito estufa, mencionada no estudo – e, principalmente, o que pode ser feito para reverter tal situação e qual é a importância da participação dos setores público e privado no combate aos incêndios florestais.

A matéria negligencia o debate da emergência climática, inserindo apenas uma breve menção, no último parágrafo, de que o mapa apresentado “deve ser utilizado como ferramenta para fazer a gestão florestal e auxiliar no desenvolvimento de políticas globais e programas de conservação e modelagem climática”. A sua publicação foi feita no Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas e, no dia anterior (15), o mesmo veículo publicou outra notícia sobre um relatório que aponta consequências do aquecimento global nas américas até 2050, igualmente limitada e orientada para uma perspectiva catastrófica, trazendo dados científicos sem contextualizar a repercussão do estudo e ainda recorrendo ao sensacionalismo, uma das síndromes do jornalismo ambiental apontadas por Bueno (2007b).

Ao contrário, a cobertura dos incêndios, conforme o jornalismo ambiental, deveria ser comprometida com a mudança de paradigmas, enxergando além das aparências (BUENO, 2007a) e trazendo as pautas ambientais de forma ampliada, de modo a visibilizar as ações necessárias para lidar com catástrofes. A imprensa não poderia se eximir do papel educativo, colocando as informações necessárias e corretas à disposição da sociedade, que poderá tomar suas decisões diárias conectadas com a construção de uma vida sustentável (GIRARDI; LOOSE; BAUMONT, 2011).

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Majoara, 2007a.

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, 2007b. pp. 33-44.

GIRARDI, Ilza; LOOSE, Eloisa; BAUMONT, Clarissa (orgs.) Ecos do Planeta: Estudos sobre Informação e Jornalismo Ambiental. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

A guerra, os fertilizantes e a (in)sustentabilidade do modelo agrícola brasileiro

Imagem: Captura de tela do site da Forbes

Por Ângela Camana*

Nesta semana, caso não se confirmem os avanços nas negociações entre Rússia e Ucrânia, a guerra no leste europeu completa um mês. Neste período de pautas sensíveis, a ausência de uma delas de faz sentir: diante de uma possível falta de fertilizantes sintéticos, o debate experimentado pouco explora a dependência brasileira deste tipo de produto. A cobertura do tema tem desperdiçado a ocasião para incluir em sua agenda uma crítica mais demorada ao modelo produtivo adotado pelo Brasil, que – para além da já evidente destruição ambiental – agora também dá claros sinais de sua insustentabilidade econômica. Esta ausência parece dar ainda mais munição para o lançamento de iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes, que aposta na manutenção do modelo produtivo que dá sinais de colapso: para ampliar a produção brasileira do insumo, o governo federal dá aval para a expansão da mineração, inclusive em terras indígenas.

Tão logo o conflito no leste europeu foi deflagrado, a cobertura jornalística de todo o mundo voltou os olhos aos horrores humanitários imediatos: as pessoas deixando suas casas durante um rígido inverno, enfrentando a fome, o cansaço e as barreiras burocráticas nas fronteiras nacionais. Passado o impacto inicial, à crise humanitária foi acrescido um debate sobre os impactos econômicos globais e os principais veículos brasileiros passaram a especular os possíveis efeitos do confronto por aqui. Com as sanções à Rússia, o centro do noticiário, então, passou a ser tomado por uma hipotética “crise dos fertilizantes”, já que o Brasil é dependente dos fertilizantes químicos advindos do exterior: hoje o país importa mais de 70% do nitrogênio, mais de 50% do fósforo e mais de 90% do potássio, que juntos formam o “NPK”.

A pauta agro, que virou pop nos últimos anos pela sua participação nos números e projeções da economia nacional, agora ocupa o palco dos debates por sua fragilidade frente a um cenário de instabilidade. O debate público sugerido pela imprensa tem sido centrado em um modelo bastante específico: o agronegócio exportador, apresentado como o principal prejudicado nesta disputa por fertilizantes sintéticos. No Brasil, o jornalismo hegemônico tem produzido uma cobertura sobre o tema calcada no economicismo e na abstração, sem identificar que os efeitos de um possível desabastecimento de fertilizantes não se farão ver apenas na balança comercial, mas na vida de sujeitos de carne e osso.

A guerra do outro lado do oceano é em si mesma uma tragédia. Com raras exceções, como o excelente podcast Angu de Grilo, o jornalismo brasileiro perde a chance de descrever como o conflito entre Rússia e Ucrânia tem sido usado para autorizar decisões que sustentam o catastrófico modelo de desenvolvimento brasileiro. Perdemos todos nós.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Estamos à mercê de qual cobertura?

Imagem: Print do topo da notícia publicada pelo G1 em 09.03.2022.

Por Clara Aguiar*

No dia 9 de março de 2022, artistas, lideranças indígenas, movimentos sociais e parlamentares da oposição se reuniram em frente ao Congresso Nacional para protestar contra o chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de projetos de lei proposto pelo governo de Jair Bolsonaro que prevê a flexibilização do licenciamento ambiental, a ampliação do uso de agrotóxicos e a liberação da mineração em Terras Indígenas. Idealizado pelo cantor Caetano Veloso, o “Ato pela Terra” contou com a participação de 17 mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar. Apesar da multidão, minutos após o encerramento do ato, a Câmara dos Deputados aprovou o requerimento de urgência do PL nº 191/2020, que regulamenta a exploração de minérios em terras indígenas, inclusive em territórios habitados por povos isolados.

A aprovação do requerimento de urgência do PL foi título de matérias em diversos jornais do Brasil. No G1, a notícia Câmara aprova urgência para votação de projeto sobre mineração em terras indígenas, em um primeiro momento, parece se destacar ao adotar uma abordagem contextualizada que apresenta a proposta do projeto, os argumentos a favor e contra e o que o PL representaria na prática. No entanto, a matéria não é capaz de explicar ao leitor a complexidade socioambiental que envolve o PL 191/2020. Embora a proposta do projeto tenha como objetivo regulamentar uma prática que gera consequências nocivas para o meio ambiente e que possivelmente colocaria em riscos à vida de povos originários, esse aspecto parece ter sido esquecido. Em nenhum momento, o texto traz uma análise mais aprofundada de fontes especialistas em relação aos impactos que ocorrem na atividade de mineração.

Nesta notícia, observa-se um jornalismo declaratório devido ao predomínio de fontes oficiais, já que somente personalidades políticas foram consultadas: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o líder do governo na Casa, Ricardo Barros (PP-PR), o líder da Oposição, Wolney Queiroz (PDT-PE) e a deputada indígena Joenia Wapichana. Quando o meio ambiente está em pauta, Wilson Bueno defende que é preciso “ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2008, p.111).

Apesar do PL estar intrinsecamente ligado às questões socioambientais, o enquadramento não foi além do político. A matéria se limitou a abordar de forma jurídica o projeto em si e não explicou as problemáticas por trás de sua proposta. “Ele [jornalista] precisa ter uma visão mais abrangente do tema porque caso contrário, irá fechar o seu foco, restringir as suas fontes e ficar à mercê de informações ou dados que servem a determinados interesses” (BUENO, 2007, p. 377). Sob a ótica do jornalismo ambiental, a abordagem empregada pelo G1 não incorporou uma visão sistêmica que induz o leitor a relacionar a dimensão ambiental e social com o fato noticiado. A cobertura poderia ter investido em uma maior apuração que buscasse uma leitura crítica, com o emprego de conhecimento especializado e maior representatividade de fontes não governamentais que colocasse em perspectiva a problemática socioambiental.

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

BUENO, W. C. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. In: GIRARDI, I. M. T.; SCHWAAB, R. T. (Orgs.). Jornalismo Ambiental: Desafios e Reflexões. Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. pp.105-118.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

Imenso por sua importância, Ato pela Terra é diminuído pela imprensa

Por Sérgio Pereira*

Imagem: Jefferson Rudy / Agência Senado

Na quarta-feira passada, dia 9 de março, o Brasil promoveu um de seus maiores atos em defesa do meio ambiente. Talvez o maior já realizado no país com esse objetivo, ao lado da mobilização organizada pelos povos originários em Brasília no ano passado. O Ato pela Terra, liderado por Caetano Veloso, reuniu músicos, atores, atrizes, lideranças indígenas, centenas de entidades da sociedade civil e milhares de pessoas em frente ao Congresso Nacional.

A manifestação foi uma reação a projetos de lei que ameaçam o meio ambiente, o chamado “Pacote da Destruição” de Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Mais precisamente contra os PLs 2.633/2020, que permite a regularização fundiária de terras da União por autodeclaração, sem vistoria prévia do Incra; o 2.159/2021, que dispensa várias atividades e empreendimentos do licenciamento ambiental (esses dois primeiros em tramitação no Senado); o 490/2007, que proíbe a ampliação de áreas já demarcadas para os povos originários e fixa um marco temporal para as terras consideradas “tradicionalmente ocupadas por indígenas”; o 191/2020, que permite a mineração em reservas indígenas; (os dois últimos em tramitação na Câmara Federal) e o 6.299/2002, também chamado de “PL do Veneno” e que flexibiliza o controle e a aprovação de agrotóxicos no país, aprovado na semana passada pelos deputados federais.

Cantaram no palco montado em frente ao Congresso, além do próprio Caetano, talentos consagrados como Maria Gadú, Emicida, Seu Jorge, Nando Reis, Criolo, Daniela Mercury e Duda Beat. Mas também participaram artistas como Letícia Sabatella, Malu Mader, Lázaro Ramos, Alessandra Negrini, Elisa Lucinda, Mariana Ximenez, Leona Cavalli, Zezé Polessa, Christiane Torloni e Maria Ribeiro, entre outros. Mais de 200 entidades civis apoiaram o evento. No dia seguinte, as capas dos principais jornais não conseguiram refletir a grandeza da manifestação. O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias ignoraram completamente o ato em suas primeiras páginas.

Imagem: reprodução das capas de O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias

Apenas quatro grandes fizeram registro sem suas capas: O Globo, Folha de S.Paulo (com uma pequena chamada sem foto), Correio Braziliense e Jornal de Brasília, sendo os dois últimos publicações do Distrito Federal, com o fator local (proximidade) pesando com força na edição da primeira página. No caso do Jornal de Brasília, no entanto, a capa se limita a uma foto da cantora Daniela Mercury em uma coluna. O destaque positivo aqui fica por conta de O Globo, do Rio, que colocou a mobilização como segunda foto principal. Pena que o título “Caetano canta contra o garimpo em reservas” não dá a exata dimensão do protesto, como se fosse uma ação isolada do compositor baiano, e destacando apenas um dos projetos de lei.

Imagem: reprodução das capas de O Globo, Folha de S.Paulo, Correio Braziliense e Jornal de Brasília

Já os três principais jornais gaúchos praticamente ignoraram a manifestação em suas versões impressas, sem nenhuma chamada de capa. O Correio do Povo deu pouco mais de 500 caracteres na página 3, sem foto, no final da matéria com o título: “Câmara aprova urgência para projeto de mineração”. O texto não cita a participação de artistas e nem a multidão reunida em Brasília para acompanhar os shows. Na versão on-line, CP postou matéria mais completa da Agência France Presse com o título “Caetano Veloso lidera ato em Brasília contra pacote de ‘destruição’ ambiental”, ilustrada com uma foto de arquivo de Caetano, exatamente às 17 horas, quando o evento estava começando, e sem atualização posterior.

Zero Hora, por sua vez, também deu em sua versão impressa uma nota de aproximadamente 900 caracteres na coluna Política+ (página 10), com foto destacando o encontro dos artistas com o presidente do Senado. Com um título pouco informativo, “Ativismo ambiental”, ZH cita alguns dos artistas que participaram da mobilização, mas omite o público. GZH, no entanto, postou na noite do dia do evento o texto da Agência Estado intitulado “Em ato no Congresso, artistas cobram proteção ao ambiente e aos povos indígenas”. O texto não cita a grande concentração de pessoas e apenas menciona a participação de Caetano, Maria Gadú e Letícia Sabatella, sem relacionar outros artistas ou participantes. A postagem exibe duas fotos, uma de Caetano ao violão ao lado da atriz Letícia Sabatella e outra mostrando o palco e feita a partir do ponto de vista da plateia. O Jornal do Comércio também se limitou a registrar o Ato pela Terra em sua versão impressa com um texto de 900 caracteres na página 18, com uma foto de reunião com a ministra do Supremo Tribunal Federal Carmen Lúcia. No digital, o JC repetiu a mesma nota e foto às 3 horas do dia 10, com o mesmo título: “Artistas vão ao Supremo pedir prioridade a questões ambientais”. Nada sobre o ato e a presença de milhares de pessoas no evento.

Imagem: reprodução de páginas do CP, ZH e JC

Os jornais brasileiros, em sua maioria, tentaram minimizar a importância do ato, buscando desmerecer o seu mérito histórico. Nesse sentido, prestaram serviço aos políticos e demais interessados na aprovação do “Pacote da Destruição”, como o agronegócio e as mineradoras. Para esses, o silêncio e a omissão são importantes instrumentos para atingir seus objetivos.

Cabe lembrar que um jornal não pode se limitar a dar aos leitores apenas aquilo que eles anseiam. Precisa também apontar para aquilo que realmente importa, aquilo que lhes atinge direta ou indiretamente. Precisa alertar o leitor e lhe dar o direito de reação. Como nos adverte o professor estadunidense Davis Merritt, especialista em jornalismo cidadão: “Numa sociedade de indivíduos dispersos e abarrotados com informação descontextualizada, uma vida pública efectiva precisa de ter uma informação relevante que é partilhada por todos, e um lugar para discutir as suas implicações. Somente jornalistas livres e independentes podem – mas habitualmente não conseguem – providenciar essas coisas. Do mesmo modo, a vida pública efetiva requer a atenção e o envolvimento de cidadãos conscienciosos, que só eles podem providenciar. Por outro lado, se as pessoas não estão interessadas na vida pública, elas não têm qualquer necessidade dos jornalistas nem do jornalismo”. (MERRITT apud TRAQUINA, 2003, p.12)

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente

  • Referência

TRAQUINA, Nelson. Jornalismo Cívico: reforma ou revolução? In: TRAQUINA, Nelson, MESQUITA, Mário (org): Jornalismo Cívico. Lisboa: Livros Horizonte, 2003.