A explosão em Beirute e as verdades que o jornalismo insiste em não contar

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Por Ursula Schilling*

Uma imagem que lembra um cenário de guerra. Assim foi o momento da explosão em um depósito portuário de nitrato de amônio em Beirute, capital do Líbano. Assim também serão muitos dias para as milhares de pessoas afetadas pelo evento. Foram quase três mil toneladas da substância que viraram uma nuvem em formato de cogumelo, muito semelhante a uma bomba atômica. Acredite, isso não é uma coincidência. 

O acontecimento tomou conta dos noticiários. Mídias impressas, televisivas, radiofônicas e digitais deram (e seguem dando) amplo espaço à questão, atendendo a critérios jornalísticos de noticiabilidade. O Jornal Nacional de 5 de agosto, um dia após a tragédia, dedicou 5 minutos – um tempo expressivo quando falamos de TV – ao assunto, mas, como a maioria dos veículos, não passou da superfície da notícia em sua abordagem. 

Foi uma cobertura-padrão: o primeiro minuto e meio trouxe os números oficiais de mortos e feridos e uma sequência de imagens de agências de notícia sobre a explosão e os instantes seguintes. Depois, hipóteses para a explosão, o pronunciamento do governo libanês, segundo o qual o depósito estocava o material de forma incorreta há seis anos (seis anos!). Uma das preocupações, além da evidente destruição, são os problemas respiratórios que a liberação de gases vai causar. Aos que ainda têm suas casas, as autoridades estão pedindo que evitem sair. 

Na sequência, o de sempre: mobilização internacional, mensagens de solidariedade, buscas por soterrados, prejuízos financeiros. Falou-se em instabilidade política e até em terrorismo. Mencionou-se a iminência de escassez de alimentos, reforçando o mito de que somente com as monoculturas de commodities, que acarretam ampla utilização de agroquímicos, é possível alimentar o mundo. 

A essa altura, o leitor deve se perguntar “mas e o jornalismo ambiental?”, “não é este um observatório para analisar tópicos relativos ao tema?”. O nitrato de amônio é a base para muitos fertilizantes sintéticos amplamente utilizados em diferentes tipos de cultivo. Na continuação da matéria sobre o desastre em Beirute, durante mais quatro minutos, o Jornal Nacional apontou a substância, que tem nitrogênio em sua fórmula, como essencial para a agricultura. Para justificar sua utilização, apesar dos riscos, trouxe diferentes “vozes de autoridade”. Um engenheiro agrônomo e a ANDA – Associação Nacional de Difusão do Adubo – que definiram a substância como fundamental para a qualidade de vida das pessoas –, ambos defendendo o caráter comum, estável, seguro (supostamente mediante o manejo correto) do composto, cujas entrada no Brasil, estocagem, e manipulação são controladas pelo Exército. 

Trabalhadores da indústria dos fertilizantes não foram ouvidos. Pessoas afetadas pela sua produção, incluindo por eventos como explosões, tampouco. Estudiosos que defendem a agroecologia, nem falar. Prevalece o viés da necessidade pela “segurança alimentar” e pela empregabilidade das pessoas. É a prevalência da lógica do “Agro é pop”, defendida pela emissora do programa em questão. Além disso, nada foi dito sobre a história dos fertilizantes, originalmente utilizados pela indústria bélica para a fabricação de bombas. Os “adubos” vieram somente depois, haja a vista a necessidade de lucro, encontrar utilidade para o produto e manter o negócio após a grandes guerras. É um caminho obscuro de interesses, lobbies e incontáveis mortes. Esses produtos, sem falar nos agrotóxicos utilizados em larga escala, estão na nossa mesa diariamente. Isso sequer tangenciou a cobertura. 

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Qual é a solução? É a realização de um jornalismo mais “alargado”, como propõem as discussões acerca do jornalismo ambiental. Afinal, quase todas as pautas são ambientais – habitamos este mundo e nossa existência está ancorada nos seus recursos (naturais). Começar questionando aquilo que é tido como “fato dado” é um ponto de partida importante. É pelo questionamento que se chega ao ímpeto de mudança, uma mudança com potencial de gerar real transformação. 

Os valores-notícia são importantes, mas devem acompanhar o aperfeiçoamento e a busca por conhecimento por parte dos jornalistas. Não basta responder às perguntas “o quê, quem, como e onde”. Os “porquês” devem ser explorados com mais profundidade e compromisso com o papel/potencial educativo que as mídias de massa têm. A TV aberta, por exemplo, segue sendo a que tem maior alcance entre os brasileiros. 

É preciso romper a superfície dos fatos. É preciso contar histórias mais completas, suscitar o debate, provocar a reflexão. Por ora, nesses quesitos, o jornalismo hegemônico, quase como um todo, tem falhado miseravelmente. 

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Lições dos (a)típicos fenômenos climáticos para o jornalismo

Fonte: Captura de Tela do site de Zero Hora

Há cerca de um mês, a palavra ciclone-bomba tornou-se comum nas conversas cotidianas dos brasileiros da Região Sul e no repertório do jornalismo. No dia 30 de junho, 12 pessoas morreram em Santa Catarina, Paraná, e Rio Grande do Sul, e outras milhares ficaram desalojadas devido ao vendaval que alcançou 168 km/h em alguns locais.

Uma semana depois, no dia 7 de julho, outro ciclone extratropical, mas de ventos menos intensos, provocou chuvas fortes no Estado gaúcho. Rios, já cheios do fenômeno anterior, transbordaram. No dia 11 de julho, 7,1 mil gaúchos estavam desalojados ou desabrigados e, até 20 de julho, 194 pessoas permaneciam fora de suas casas.

No centro do debate sobre a tragédia gerada por ambos os fenômenos – uma amostra de quadros que poderão ser cada vez mais comuns no futuro e que não podemos dissociar dos eventos que atingiram o Rio Grande do Sul – deveriam estar as mudanças do clima. Cabe lembrar que, há poucos meses, uma estiagem, abordada por Ângela Camana neste Observatório, impactava, ao menos, 70% dos municípios do Estado.

Embora não haja consenso científico sobre esses fenômenos meteorológicos decorrerem das mudanças climáticas, sabe-se que a alternância de situações extremas, da falta de chuva ao seu excesso, é um dos sinais que cientistas apontam estar relacionados às alterações do clima. Essa é uma das conclusões da reportagem de Zero Hora que indicou propostas possíveis para mitigar os efeitos desses desastres ambientais, como promover ações integradas entre prefeituras, construir estruturas públicas de absorção de água, oferecer programas de habitação para moradores de áreas de risco e usar tecnologias eficientes.

Inspirado na noção de jornalismo de soluções, que busca resoluções para problemas sociais, o texto de Zero Hora oferece ideias de caminhos que a gestão pública pode trilhar. Mas o problema é complexo e, sobretudo, humano. Os habitantes de áreas de risco, não têm suas vozes ecoadas na reportagem. O destaque coube a pesquisadores e autoridades da Defesa Civil. A falta de espaço aos atingidos pelas enchentes não se restringiu a essa matéria, mas pôde ser notado de modo reincidente na cobertura de diversos jornais da imprensa gaúcha.

Fonte: Lauro Alves para Agência RBS

Em notícia de 02 de julho, o Jornal do Comércio tratou dos impactos do ciclone-bomba com base nas informações da Defesa Civil, sem, no entanto, ouvir pessoas que presenciaram os momentos de pânico. No Correio do Povo, a cobertura da enchente na Capital Gaúcha foi mais ampla que a realizada no Vale dos Sinos. Ao passo que uma notícia sobre o desalojamento de famílias do arquipélago de Porto Alegre realizou entrevistas com as pessoas atingidas, outra matéria, também sobre famílias que sofreram com a inundação, agora em São Leopoldo, usou apenas as informações disponibilizadas pela secretaria municipal.

Desastres como esses, provam a necessidade de o jornalismo ver humanidade em cada número da Defesa Civil. Especialmente considerando a constância das enchentes nas bacias hidrográficas que abastecem o Guaíba, os dois ciclones não devem ser tratados como fenômenos traumáticos já superados, ou já saturados. São exemplos da necessidade de empenho da gestão pública quanto à mitigação, e de uma discussão mais aprofundada, no âmbito das notícias locais, que possibilite conectar a maior seca dos últimos anos, seguida, semanas depois, de uma enchente histórica, com as alterações climáticas que aí se manifestam.

As milhares de pessoas fora de casa no estado perderam bens, passaram frio, sofreram medo de saques em suas residências, sem esquecer, é claro, dos riscos em função da pandemia do Coronavírus. O jornalismo pode, mais do que contar a tragédia, se deixar impregnar pelos narrares de quem sofreu com a força dos ventos ou a invasão das águas em seus lares, ouvindo as suas demandas, e pautando, com maior complexidade, os desafios que esses fenômenos climáticos geram.

* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: mathias.lengert@gmail.com

Floresta Camboatá, você já ouviu falar?

Fonte: Captura de tela do site da Revista Piauí

Cláudia Herte de Moraes*

Desde junho de 2018, conforme histórico publicado pelo site Globo Esporte, a cidade do Rio de Janeiro planeja a construção de um autódromo para receber as grandiosas competições internacionais de Fórmula 1. A construção do Autódromo de Deodoro está cercada de dúvidas e controvérsias, com atuação do Ministério Público Estadual e Federal indicando que a obra é contrária ao interesse público, na medida em que vai destruir parte de Mata Atlântica, protegida por lei, conforme artigo de Sônia Rabello republicado no Estadão.  Em 18 de julho de 2020, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Tofolli, autorizou a realização de audiência pública, requisito necessário para o andamento do projeto. Em 22 de julho, a referida reunião foi marcada para 7 de agosto, em formato virtual.  

A Floresta Camboatá então reapareceu no noticiário, com as ressalvas trazidas pelos movimentos ambientalistas, que indicam a completa falta de senso ao propor uma obra de tamanho impacto junto a uma floresta que está descrita pela revista Piauí como “uma área de 2 milhões de metros quadrados, no subúrbio carioca de Marechal Deodoro, onde habitam capivaras, tatus, guaxinins, jacarés, papagaios, corujas e pelo menos 180 mil árvores (há dezoito espécies em extinção, de acordo com uma listagem municipal).” Além disso, a realização de audiências é prevista na legislação para dar oportunidade de participação social nas ações relacionadas ao meio ambiente com uma discussão qualificada do relatório de impacto ambiental. Em meio à pandemia e em formato virtual, este modelo atende a essa previsão legal?

Sobre a Floresta Camboatá, poucos veículos estão de fato repercutindo, com algumas exceções, especialmente pelo trabalho das reportagens da Piauí que acompanha com detalhes o envolvimento do poder público e da política (prefeito, governador e presidente concordam com a obra), do consórcio Rio Motorsports e do grupo Movimento SOS Floresta do Camboatá e do Ministério Público. O jornalismo de forma geral segue o caminho factual e repercute os pontos em que aos agentes públicos agem em relação às pautas. 

Além do ataque à Floresta Camboatá, quantos outros projetos estão tramitando para a destruição ambiental? Como dar conta desta crise em meio a tantas outras? Em 18 de julho, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) completou 20 anos, e a notícia foi dada apenas em mídias ambientais, como O Eco, que destacou a destruição ambiental em curso: “Um dos golpes mais duros propostos foi recortar em uma tacada só 60 unidades de conservação para acomodar a construção de estradas, ferrovias, portos e aeroportos”.

Entre outros exemplos e denúncias, observamos que o desministro Salles segue firme tentando fazer passar a boiada (leia aqui a crítica do Observatório feita pelo colega Roberto Belmonte). Com estes dois temas (Camboatá e SNUC) confirmamos o papel fundamental das mídias ambientais e do jornalismo especializado em meio ambiente para enfrentar o desmonte das políticas ambientais. Aprofundar e qualificar o debate é função social do jornalismo, o que envolve, cada mais mais, tanto a busca da informação relevante quanto o enfrentamento à desinformação. A propósito,  destacamos uma iniciativa recente: a criação de um consórcio contra a desinformação ambiental – o chamado ‘Fakebook.eco’, lançado em junho, com o objetivo de checar mitos, discursos de autoridades públicas e informações falsas que circulam sobre a temática. Trabalho não vai faltar.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: claudia.moraes@ufsm.br

A “revitalização” dos trechos II e III da orla do Guaíba como risco aos trabalhadores e ao ecossistema citadino

Fonte: Anselmo Cunha/PMPA — 26/05/2020

Matheus Cervo*

No mês de junho, precisei me deslocar pela cidade para receber um serviço essencial. Passei pela orla do Guaíba e fiquei espantado com o que vi: a margem do Guaíba estava extremamente desmatada com muitos trabalhadores operando mesmo neste período de pandemia.

Pesquisei e vi que Porto Alegre continua no ritmo da transformação urbana a todo custo com o Programa ORLA POA – programa de “revitalização” da orla centro/sul da capital gaúcha. Conforme site da própria prefeitura, os trechos II e III das obras continuam em andamento apesar da situação pandêmica que a cidade enfrenta. Ao entrarmos na matéria “Obras do trecho 3 da Orla do Guaíba avançam mesmo com impacto da pandemia” publicada em 26/05/2020, recebemos um pop-up que avisa a todos os habitantes da cidade que estamos enfrentando o “Desafio Porto Alegre” para chegarmos em 55% de isolamento social na capital. Após fechar o pop-up, encontramos duas imagens de trabalhadores operando na transformação da orla do Guaíba.

Fonte: Site da Prefeitura de Porto Alegre, 2020

Imagens 2 e 3 – Porto Alegre, RS – 26/05/2020: Prefeito Nelson Marchezan Junior e o Secretário de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, Marcelo Gazen, realizam visita as obras do Trecho 3 da Orla

Fonte: Jefferson Bernardes/PMPA, 26/05/2020
Fonte: Jefferson Bernardes/PMPA, 26/05/2020

Essa comunicação paradoxal da prefeitura também está expressa no texto que noticia heroicamente que o “o impacto da pandemia do novo coronavírus vem sendo absorvido pelo consórcio que realiza as obras […]”. Procurei matérias jornalísticas sobre essa questão em específico e fiquei espantando com a forma de cobertura dessa pauta sobre a cidade em 2020.

O Jornal do Comércio, em 20/03/2020, apenas noticiou que o trecho 2 foi suspenso por tempo indeterminado e ainda ressaltou que a concessionária responsável pela obra “ficará encarregada […] do cuidado com a flora e a fauna do parque”. Publicou ainda um artigo em 02/07/2020 em que é emitida a opinião de que a gestão municipal está acertando em não parar as obras para tornar a cidade “muito mais bonita, funcional e atrativa”.

A Zero Hora segue uma forma de cobertura semelhante em duas matérias: 1) uma em 20/03/2020 que somente mostrou a suspensão temporária da licitação do trecho que terá uma roda-gigante; 2) outra em 24/04/2020 que apenas mostra que as obras foram retomadas com previsão de conclusão em outubro. Além disso, o veículo publicou matéria em 02/07/2020 que mostra simulações da mega pista de skate que está sendo construída em tempo de pandemia. O Sul21 também noticiou matéria sobre a roda-gigante em 14/01/2020 e não pautou mais essa questão desde então.

Existem outros exemplos de matérias jornalísticas publicadas neste primeiro semestre de 2020, mas a base da discussão que aqui levanto é geral para a comunicação desta pauta em Porto Alegre. Primeiramente, está sendo feita pouca crítica ao trabalho de obras nos trechos II e III da orla do guaíba na pandemia. Em segundo lugar, não há sinal de uma crítica aos impactos socioambientais que essa grande obra tem à nossa cidade e à nossa relação com o rio/lago.

Fonte: Anselmo Cunha/PMPA — 26/05/2020

Há, sim, uma glorificação do projeto imbuída no uso das palavras “revitalização”, “embelezamento”, “roda-gigante”, “maior pista de skate da América Latina”. A noção de progresso aliada ao gigantismo das concepções modernas de espaço urbano são glorificadas mesmo que isso esteja causando um risco enorme aos trabalhadores (não há forma de criar segurança nessa situação pandêmica como algumas dessas matérias afirmam) e aos ecossistemas existentes na nossa urbe. Acredito que precisamos pensar melhor essa pauta em 2020.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605.

Pela maior inclusão da ecologia no debate progressista: responsabilidades e confluências políticas e jornalísticas

Fonte: Pixabay

Inimigo de maior urgência da sociedade global hoje, a pandemia do novo coronavírus não está desassociada a fatores ambientais de diversas esferas, cuja discussão já foi abordada neste Observatório. Sabemos, ainda, que a redução prevista de cerca de 7% nas emissões de carbono em virtude da recessão causada pela pandemia, embora positiva para uma “conta climática” de 2020, não será suficiente na luta contra as mudanças climáticas, caso a retomada econômica permaneça — como foi no pós-crise de 2008 — ainda baseada em combustíveis fósseis e nos velhos modelos de desenvolvimento. 

Assistimos ainda, como contraponto à onda populista e negacionista que se alastrou e elegeu políticos de altos escalões em muitos países, os partidos ecológicos ganharem paulatinamente maior espaço na Europa, com capacidade de influenciar positivamente o debate sobre um pacto verde para a retomada econômica no continente. Já nos Estados Unidos, a antes utópica — e já rejeitada no Senado americano — proposta de um Green New Deal parece ressurgir no programa democrata de Joe Biden para as eleições deste ano. A coluna de Mathias Alencastro para a Folha de São Paulo passa por esses pontos para afirmar que, no contexto brasileiro, a pauta ecológica e a urgência climática estão ausentes dos debates e de tentativas de criação de um Frente Ampla progressista no país. Argumenta-se que apesar dos ataques estarem concentrados, com razão, na criminosa gestão de Salles e em temas consensuais como o desmatamento, pouco se fala sobre a “necessidade de um programa de reorganização industrial e financeira adaptado ao desafio ecológico”.

 Para além de nossas fronteiras e problemas domésticos, uma notícia que correu o mundo nas últimas semanas foi o recorde de 38ºC registrado numa cidade da Sibéria. A pequena notícia da Associated Press, publicada pelo portal G1, permanece na superfície do tema e sequer menciona o aquecimento global. A matéria da Folha sobre o mesmo assunto, ao contrário, contextualiza e amplia as dimensões ligadas às mudanças climática naquela região, como chuvas torrenciais, incêndios e uma explosão de mariposas devoradora de árvores. 

Ainda segundo a coluna da Folha citada anteriormente, notícias como o superaquecimento do Ártico são frequentemente ignoradas pelas redes sociais de políticos progressistas brasileiros. De fato, falar em reorganização econômica verde no desastroso cenário político de um país em frangalhos parece soar totalmente descolado da realidade nacional. Mas se mesmo líderes políticos de oposição custam a se apropriarem da pauta, cabe ao jornalismo, como importante impulsionador do debate político, cumprir seu papel social e trazer à tona, com profundidade, as nuances do maior desafio de nossos tempos. 

Se entendemos que uma maior inserção do debate climático no Brasil passa, necessariamente, pelas responsabilidades e confluências das searas política e jornalística, cabe nossa menção a um importante personagem que fará falta justamente pela capacidade de introdução da pauta ambiental nestas duas esferas: Alfredo Sirkis, jornalista, ex-deputado federal, ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, falecido dias após lançar “Descarbonário”, seu novo livro que trata de mudanças climáticas. Sirkis vinha militando pela colocação, na pauta nacional e mundial, do debate sobre a valoração econômica do “menos carbono”, expostas nesta entrevista ao jornal Le Monde e traduzida pelo portal da think thank Centro Brasil no Clima. Militância e propostas ousadas, como devem ser, para um desafio urgente que se descortinará ao crepúsculo da atual pandemia, e que deve habitar redações e parlamentos mundo à fora. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

No caminho da praga, tinha um ser humano

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada pela Agência Pública
Por Carine Massierer*

No final de junho, uma grande nuvem de gafanhotos vinda da Argentina ameaçou chegar à fronteira brasileira. O Ministério da Agricultura do Brasil publicou uma portaria declarando estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Essa medida tem duração de um ano e permite, temporariamente, a contratação de pessoal, a importação de agrotóxicos para conter a praga e a flexibilização do uso dos produtos já autorizados para novas culturas. Com isso, pode ser aprovado o uso de agrotóxicos que não estariam autorizados para o controle de gafanhotos.

A decisão tomou as páginas dos principais jornais do Brasil, como a Folha de São Paulo (Ministério declara emergência em RS e SC para combate de gafanhotos) que fez matéria expondo a decisão ministerial e o monitoramento dos gafanhotos feito pelo governo do estado. Mesmo assim, não aprofundou a informação sobre as possíveis causas do fenômeno. Diante dessa forma de comunicar este problema socioambiental, os questionamentos se mantiveram: quais as causas desse fenômeno? 

Também encontrei matérias do Correio do Povo (Entenda o fenômeno da nuvem de gafanhotos que assola o Norte da Argentina), do UOL Economia (Como se forma uma nuvem de gafanhotos? É comum? Veja perguntas e respostas) e da Agência Pública (Para combater nuvem de gafanhotos, governo libera mais usos para agrotóxicos). Esses jornais dedicaram mais espaço para explicações científicas de como se formam as nuvens de gafanhotos. A Agência Pública e a Repórter Brasil ouviram cinco pesquisadores em entomologia – o estudo dos insetos – para entender como a ação humana influencia este fenômeno.

Um dos motivos para a formação dessas nuvens são as mudanças climáticas. Estamos vivendo períodos de temperaturas altas com clima seco na entrada do inverno (enquanto o habitual seria as temperaturas baixas na região sul do Brasil), o que favoreceu  a proliferação dos insetos. Outra causa é a eliminação dos inimigos naturais do gafanhoto (pássaros, sapos, fungos e bactérias) parcialmente ocasionado pelo uso incorreto e abusivo de inseticidas e agrotóxicos.

Esses argumentos corroboram com o alerta  de Loose (Jornalismo e Mudanças Climáticas: panorama das pesquisas da área e discussão sobre a cobertura de riscos e formas de enfrentamento) sobre como o jornalismo deve agir frente esses fenômenos:

Urge que o jornalismo tome o tema como central seja pelo seu compromisso com o interesse público (já que falamos da sobrevivência da humanidade), seja pela premência do problema (que pode ser mais rapidamente enfrentado com a colaboração da imprensa, que constrói sentidos de riscos e possibilidades de combatê-los)”.

O assunto ainda carece de mais atenção, especialmente no que tange a medidas de mitigação e adaptação – respostas que mostram que é possível viver sob outras lógicas menos danosas ao planeta e à nossa própria espécie.

Referências: 

BELING LOOSE, Eloisa. Jornalismo e Mudanças Climáticas: panorama das pesquisas da área e discussão sobre a cobertura de riscos e formas de enfrentamento. Revista Alceu, v. 20, n. 38, 2019, p. 107-128.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). 

Emergências que se encontram: junto à pandemia, a estiagem

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Por Angela Camana*

A situação da pandemia provocada pelo novo coronavírus, cujos efeitos se fazem sentir no Brasil de forma cada vez mais dramática, vem justificadamente dominando as manchetes dos jornais. O noticiário do país tem desdobrado a temática e produzido múltiplas conexões com outras esferas que não a da saúde unicamente, como este Observatório já apontou (por exemplo, as conexões com consumo e com a crise climática).


Sem ignorar as tensões que a Covid-19 coloca aos sujeitos e às instituições, pouco a pouco, outro assunto tem ganhado espaço no jornalismo do Rio Grande do Sul: a estiagem que assola o Sul do Brasil. Só no Estado, mais de 70% dos municípios já decretaram situação de emergência devido à seca. A falta de chuvas faz com que as barragens hidrelétricas estejam em níveis críticos, assim como está comprometida a produção agrícola esperada. A Defesa Civil diz que ainda não há desabastecimento para consumo doméstico, embora tenha mobilizado caminhões-pipa para levar água à população rural.


No site GaúchaZH, o tema ganhou algumas publicações na última semana, com destaque para a notícia veiculada em primeiro de maio, que foi capa do site, Estiagem afeta sete de cada 10 municípios gaúchos. São ouvidas diferentes fontes, as quais são unânimes em diagnosticar o caráter crítico da situação; todos os citados são dirigentes de instituições públicas do Estado, com exceção de uma meteorologista. O predomínio de fontes oficiais e científicas já foi apontado como um dos principais vícios do jornalismo sobre meio ambiente, o que se repete no caso desta notícia.


Há, ainda, uma galeria de fotos, as quais retratam o baixo nível das barragens e o solo seco rachado em açudes e rios. O texto em questão apresenta muitos indicadores, que são reunidos em uma espécie de box ao fim da publicação.

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Ainda que haja um esforço importante de apresentar dados (número de municípios afetados, nível dos rios), os mesmos poderiam ser mais bem contextualizados. No mesmo sentido, a cobertura da estiagem ainda parece bastante presa à fórmula das fontes oficiais e negligencia os sujeitos em detrimento da produção. Aliás, a cobertura é sobretudo agropecuária e econômica, pois destaca a urgência do setor em receber ajuda financeira do Governo Federal. Este tipo de foco, ao dar a entender que o dinheiro é solução para a questão, ignora o fato de que a seca no Sul do Brasil é um problema grave e recorrente, cujos efeitos cada vez mais severos já são relacionados à emergência climática. Ironicamente, o modelo produtivo empreendido na região é um dos fatores que se associam às mudanças do clima, o que não se vê debatido nos meios de comunicação.


Como a previsão é de que maio siga com baixo volume de chuvas, a tendência é que a cobertura da temática se intensifique ao longo do mês, conforme aumentarem também os efeitos da seca. Basta esperar que as conexões produzidas quando da veiculação do Covid-19 encontrem ecos no jornalismo gaúcho sobre a estiagem.

*Ângela Camana é Jornalista e socióloga, doutoranda em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante dos Grupos de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS CNPq/UFRGS). angela.camana@hotmail.com

A água no Rio de Janeiro e a necessidade de expandir os impactos da pauta ambiental

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil
Por Michel Misse Filho*

Passado mais de um mês de evidência de um novo problema no abastecimento de água no Rio de Janeiro, o assunto dominou os noticiários locais e pautou o dia a dia de quase dez milhões de fluminenses clientes da Cedae. A empresa de economia mista responsável pelo serviço está, ao mesmo tempo, no início da fila para privatização desde 2017, acordada como contraponto com o Governo Federal para o Regime de Recuperação Fiscal do Rio. A atual crise hídrica –que é inerentemente ambiental- se desenrola pela política estadual: o governador Wilson Witzel (PSC), influenciado pelo correligionário Pastor Everaldo, indicou Helio Cabral – ex-conselheiro da Samarco e réu pelo crime ambiental de Mariana- para a presidência da empresa. Com a nova gestão, foram demitidos quase 40 engenheiros especializados no controle da qualidade de água, e a substância geosmina virou a “nova” vilã da rotina dos cariocas. Para piorar, a estação de tratamento ainda chegou a ser fechada após a localização de detergente na água. 

    Para além das diárias notícias que atualizavam o caso e mostravam o fim dos estoques de água mineral nos supermercados, algumas matérias chamam a atenção ao elucidarem melhor a questão. É o caso desta boa matéria de André Trigueiro para o RJTV e portal G1, que explica o passo a passo do sistema de tratamento; os erros operacionais; a falta de investimento da empresa mesmo com o lucro em torno de R$ 800 milhões em 2019; a não realização de projetos relativamente baratos que evitariam o problema; e a destinação, por parte do governo estadual, de apenas 15% da portentosa verba do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam) para fins ambientais.

Ainda mais importante, outras reportagens denunciam o ponto central do problema: a alastrada falta de saneamento básico. A verdadeira causa da “crise”, mais do que o erro operacional da empresa que não eliminou a controversa geosmina, era o despejo de esgoto in natura em pontos próximos à captação, provindo de rios que afluíam no Guandu, levando os dejetos de cidades como Seropédica, Nova Iguaçu e Queimados. 

Longe de ser uma novidade, o problema do saneamento na Baixada Fluminense foi alçado midiaticamente pela “crise” e ganhou melhores contornos em abordagens como esta matéria de Juliana Gonçalves, do site The Intercept Brasil, que trata o problema da água sob a lógica da necropolítica e do racismo ambiental, afinal, não são os bairros da Zona Sul carioca que figuram nas piores posições dos índices de tratamento de esgoto do país. Diz a matéria: “O necropoder, nesse caso, atua por meio do racismo ambiental que determina quem vai ter esgoto tratado e água encanada e quem vai estar exposto a rejeitos tóxicos ou aos efeitos diretos de indústrias poluidoras.”. A deficiência do abastecimento de água no Rio (e o peso financeiro de quem não tem o privilégio de comprar água mineral todo dia) mostra, mais uma vez, que é preciso expandir as consequências e impactos da pauta ambiental, abarcando as diversas dimensões sociais que ela carrega consigo. 

*Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Não podemos subestimar a capacidade de mobilização do Jornalismo Ambiental

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no link da Gaúcha ZH
Por Carine Massierer*

Em junho de 2019 a discussão em torno da mineração no Rio Grande do Sul chamava a minha atenção, de mais de 50 entidades contrárias aos projetos de megamineração e foi tema de um artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental, que clamava atenção da imprensa não só para dar espaço ao tema, mas que ele repercutisse também nos jornais locais, nas rádios e conseguisse alertar a população sobre os prós e contras da exploração das riquezas minerais por parte de quatro grandes empreendimentos no Estado.

A formação, naquele mês, do Comitê de Combate à Megamineração no RS mobilizou a imprensa e os jornais de grande repercussão estadual e nacional.  Passado o evento, no entanto, houve um esvaziamento do assunto na imprensa e, no dia 17 de janeiro, a Zero Hora publicou uma matéria mostrando os prós e contras da polêmica deste projeto que, apesar de causar um grande impacto na Região Metropolitana, ainda é pouco desconhecido dos moradores.

O meu encantamento por esta reportagem de meio ambiente não se dá apenas por poder ajudar a clarear as ideias de quem estiver mais desinformado sobre o tema, mas por trazer, além disto, as motivações para a matéria ter sido feita, ,  as pessoas ouvidas para o conjunto de textos, o porquê de terem sido buscados exemplos nos EUA e na China e, por fim, que cuidados foram tomados para o equilíbrio deste conteúdo. Ou seja, a matéria contém uma riqueza de detalhes que mostra a investigação, o trabalho minucioso e de dedicação em busca de informação qualificada e diferenciada que faça a diferença.

Este é o tipo de reportagem que levanta informações fundamentais para dar condições de reflexão, conscientização a população e, quiçá, capacidade de mobilização. 

E não venham me dizer que o jornalismo não tem o poder de contribuir para mudar o mundo, porque tem. Prova disto foi o trabalho feito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do jornal The New York Times, que num trabalho paralelo ao de outros colegas jornalistas apuraram e convenceram que várias mulheres aceitassem contar sua história de abuso ao mundo, em uma reportagem publicada em 5 de outubro de 2017. E é exatamente este processo para a produção da reportagem que elas contam no livro Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo, de autoria das duas e que fez com que elas ganhassem o prêmio Pulitzer.

E o que o movimento destas jornalistas tem a ver com o jornalismo ambiental? Assim como elas conseguiram mobilizar mulheres para a exposição pública de abusos sofridos no #MeToo , o Jornalismo Ambiental também poderia mobilizar as pessoas para irem às ruas  protestar pela qualidade d ar, de vida e pela expulsão do RS destas empresas que querem “investir em mineração”  com objetivo de dar retorno ao financeiro ao Estado. O retorno financeiro é um argumento tão sem fundamento que apenas uma revisitada na história da mineração -que já teve picos de produção- mostra que nenhum dos municípios que receberam estas empresas garantiram qualidade de vida e dividendos às populações, como é o caso de Arroio dos Ratos e Minas do Leão  atualmente sofrendo com solos pobres e escavações imensas que servem apenas para recebimento e depósito de lixo da região metropolitana. 

Assim como a análise feita pela professora e jornalista Maura Martins comenta no artigo para a Escotilha que a obra Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo é uma empolgante ode à força e ao poder do jornalismo, eu espero que outras reportagens e movimentos civis e jornalísticos consigam romper o estado de inércia social no Rio Grande do Sul e se transformem num movimento de #foramegamineração.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). 

Paulo Guedes e o perigo do jornalismo declaratório

Imagem: captura de tela do site G1
Por Nicole Saft*

Na semana passada, ocorreu em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial. O Brasil esteve lá representado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Eis que na terça-feira, dia 21, nosso nobre ministro faz a seguinte declaração: “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Essas frases foram proferidas enquanto ele comentava a relação entre o meio ambiente e a indústria. Pelo que o ministro explicou depois, ele estava se referindo aos países que já destruíram suas florestas e são ricos, que eles agora coseguem se preocupar com o meio ambiente, enquanto o Brasil, por ser ainda um país pobre, tem outras questões mais urgentes.

A infeliz declaração foi título de matérias em diversos jornais, G1 e Folha de S. Paulo   como exemplos. E o jornalismo declaratório ataca novamente. Essas matérias em nenhum momento problematizam a fala de Paulo Guedes, apenas situam a declaração. No governo Bolsonaro, frases “polêmicas” de nossos comandantes ganham manchetes toda semana.  Mesmo depois de um ano, parece que ainda não sabemos como lidar com elas. Damos atenção? Nos revoltamos? Acusamos de “cortina de fumaça”? Não acredito que haja uma resposta certa, mas sei como o jornalismo não deveria tratar essas declarações.

Paulo Guedes é uma figura de autoridade. Segundo Datafolha de dezembro, o ministro é aprovado por 39% das pessoas que souberam identificá-lo. Ou seja, quando um veículo de jornalismo coloca como título “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza – diz Paulo Guedes” e a matéria não fornece informações contrárias, muita gente tende a acreditar que o que o ministro diz é verdade. Nós lemos a matéria a partir de vieses previamente estabelecidos de “Eu apoio Paulo Guedes” ou “Eu não apoio Paulo Guedes”, e como não há um aprofundamento da discussão, só confirmamos o que achávamos da questão.

Mesmo aqueles que são contra o governo, contra Paulo Guedes, podem pasar desapercebidos pela declaração e acreditar que é verdade. Isso porque, como mostra os estudos do psicólogo Daniel Gilbert nos anos 90, não acreditar em uma sentença envolve um segundo passo ativo de descrença, após o primeiro passo natural e passivo de acreditar que o que ouvimos e lemos é verdade. Essa inclusive é uma das facilidades de se propagar desinformação, a qual devemos combater. É um dos grandes perigos do jornalismo declaratório.

E para a discussão da questão de se são os pobres os maiores inimigos do meio ambiente, deixo algumas sugestões. Nesse último sábado, dia 25, completou-se um ano do crime de Brumadinho. Um ano que o rompimento da barragem da Mina do Feijão causou a morte de 259 pessoas. E esse é um crime ambiental que tem culpado, e não é a pobreza. A Vale, responsável pela barragem – também uma das empresas responsáveis por despejar 39 milhões de m³ de lama tóxica no Rio Doce no crime de Mariana em 2015 – já recuperou seu valor de mercado e agora atua buscando lucro. Como mostra a reportagem do Fantástico desse domingo, a empresa sabia os riscos de rompimento da barragem, mas não agiu a respeito. 

Essa discussão vai de encontro a outra, uma disputa semântica. Antropoceno é um conceito utilizado por diversos cientistas para caracterizar o período geológico em que vivemos, marcado pelas mudanças causadas pela ação humana. É um conceito que surgiu na década de 80 e desde lá ganha popularidade. Antropoceno é uma época demarcada pela capacidade humana de intervenção na Terra a partir da industrialização. Entretanto, o termo ainda é discutido, como mostra o artigo do professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano Dr. Eduardo Álvares da Silva Barcelos no volume 31 da Revista Iberoamericana de Economia Ecológica. O artigo aborda um outro termo para definir esta era, Capitaloceno. Conforme conta Barcelos, em 2013, o historiador ambiental Jason Moore lançou a seguinte pergunta:

Estamos realmente vivendo o Antropoceno – com seu retorno a um ponto de vista curiosamente eurocêntrico da humanidade e sua confiança em noções e recursos bem estabelecidos e consolidados de seu determinismo tecnológico – ou estamos vivendo o Capitaloceno, uma era histórica formada por relações que privilegiam a acumulação interminável de capital?

O conceito surge mais como uma crítica a uma determinada narrativa do tempo do que como uma proposta de mudança de termo. Serve para não nos acomodarmos com a ideia de que não há alternativas, afinal destruir o meio ambente é da “natureza do homem”. Uma ideia no mesmo estilo de “As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. 

Quando pensamos na fala do ministro não ligamos diretamente a Brumadinho, mas podemos. Podemos ligar a outras várias discussões em andamento. Enquanto o jornalismo se mantém “chapa branca” e puramente declaratório, a desinformação se espalha. Então, será que o jornalismo não deveria fornecer informação de qualidade para que o leitor tire suas conclusões e ter a responsabilidade de refletir sobre o que está sendo dito?

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).