A Cúpula da Terra e o Jornalismo: trinta anos depois

Fonte: Reprodução/Youtube Ecoagência


Cláudia Herte de Moraes *


Este ano de 2022 é histórico, pois se celebra os trinta anos da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO- 92, ocorrida no Rio de Janeiro, com a presença de chefes de estado de 178 países, promovida pela Organização das Nações Unidas no centro de convenções Riocentro. Os eventos internacionais sobre meio ambiente são um importante foco para a realização de pautas em jornais do mundo inteiro. Há 50 anos, em Estocolmo, o Secretário-Geral do evento Maurice Strong utilizou a expressão ecodesenvolvimento pela primeira vez, na realização da primeira Cúpula sobre Meio Ambiente. Naquela data, foi instituído o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). No entanto, havia menor adesão mundial à temática e os próprios meios de comunicação não estavam tão desenvolvidos quanto ao acesso e à visibilidade. Por isso, somente em 1992 o tema teve maior projeção em nível global. Naquela última década do Século XX, a degradação ambiental já assustava, criando-se, desta forma, uma onda de debates em torno do termo “desenvolvimento sustentavel”, que surgiu poucos anos antes, pelo Relatório Brundtland.

Quando tratamos de meio ambiente na comunicação, o grande fluxo de jornalistas que acompanharam a Rio 92 é considerado um marco histórico para o acompanhamento das políticas ambientais pela imprensa. Assim como a preparação para o evento mobilizou movimentos sociais que ocuparam o Aterro do Flamengo no Fórum Global, também jornalistas que acompanhavam a temática se juntaram para a organização de Núcleos de Ecojornalistas pelo país. Neste contexto surge o Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS) – um dos mais atuantes e ainda em atividade.

Para colaborar com as reflexões sobre avanços e recuos na perspectiva do jornalismo ambiental, e especialmente em relação à imprensa brasileira, o NEJ-RS promove uma Terça Ecológica especial. Na Semana do Meio Ambiente, com o tema “Os 30 anos da ECO 92”, o debate será no dia 31 de maio de 2022, às 19h. O evento terá convidados especiais, Francisco Milanez (biólogo, arquiteto e urbanista e diretor da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan) e Sebastião Pinheiro (engenheiro agrônomo e florestal), mediados pelas jornalistas Vera Damian e Débora Gallas. Acesse aqui a transmissão ao vivo.

Também na mesma linha, o NEJ-RS lança uma série de entrevistas com jornalistas brasileiros que fizeram a cobertura da ECO 92: Carlos Tautz, Regina Scharf e Roberto Villar Belmonte. Os vídeos estarão disponíveis no canal da EcoAgência no Youtube. A coordenação é de Vera Damian.

Nessas entrevistas, há visões amplas e contextualizadas sobre as dificuldades e conquistas do período. Carlos Tautz faz uma análise política dos aspectos do jornalismo e do período histórico tanto de 1992 quanto do Brasil dos dias atuais, discorrendo de forma crítica sobre o que ele chama de “giro geopolítico” que se avizinha. Neste cenário, ele acredita que o Brasil terá novamente papel relevante e necessidade de posicionamento, por consequência, afetando as pautas sobre meio ambiente. Regina Scharf conta a história da cobertura de 1992, de sua experiência profissional de jornalista e do impacto deste evento histórico, explicando ainda sobre seu Projeto Nova Mata, que busca mapear iniciativas de restauração ecológica e recursos como fornecedores de sementes e mudas de espécies nativas onde reside, nos Estados Unidos. Já Roberto Villar Belmonte lembra que sua estreia em grandes coberturas se deu naquele evento, pois era um foca (recém formado). A experiência marcou fortemente sua trajetória como repórter, jornalista e pesquisador. Falando da ECO 92 como acontecimento de máxima importância, em que foram discutidas as bases da mudança do mundo, tratando das temáticas que seriam negociadas mundialmente dali em diante, como sustentabilidade, biodiversidade, economia e mudanças climáticas.

Em trinta anos, mudou o Brasil e mudou o mundo. O Sexto Relatório do IPCC (2021-2022), por exemplo, fez um alerta vermelho sobre o caos climático que estamos já vivenciando e que se agrava, tanto mais se demora em modificar o modelo de sociedade baseado no consumo de bens, insustentável, além de um desenvolvimento que é, em verdade, promotor de desigualdades. Fizemos uma abordagem sobre o tema da justiça climática, debate ainda incipiente na cobertura (https://jornalismoemeioambiente.com/2021/08/16/as-mudancas-irreversiveis-no- clima-precisam-incluir-o-debate-sobre-a-justica-climatica/), bem como sobre como precisamos incluir reportagens sobre a opção inadiável de consumo consciente (https://jornalismoemeioambiente.com/2020/04/27/habitos-de-consumo-em-tempos- de-pandemia/).

Na comunicação e no jornalismo, houve aceleração que modifica inclusive a relação das pessoas quanto às informações recebidas. Entre os desafios, a checagem diária de informações falsas, inclusive oriundas de governos que promovem o desmonte de políticas ambientais. Algo ainda não resolvido, na imprensa tradicional, seria o fato de que “não conseguiu achar uma fórmula de fazer jornalismo ambiental livre de seus anunciantes”, como afirma Belmonte, na série do NEJ-RS. Sobre isso, também vale reler o texto sobre conteúdos patrocinados.

Coberturas que buscam trazer complexidade e pluralidade são necessárias e advogadas por aqui, em especial nas temáticas do clima , dos agrotóxicos, dos eventos extremos, do desmonte de políticas ambientais, na destruição dos territórios indígenas, entre outras.

Em três décadas certamente há avanços e inúmeros projetos sobre meio ambiente povoaram revistas, jornais, sites e organizações neste período. Um destaque atual é o jornalismo do InfoAmazônia . Outra vertente, une Literatura e jornalismo, em livros reportagem, também já citados neste Observatório . Bons exemplos de pautas aprofundadas demonstram possibilidades de um padrão jornalístico de ótima qualidade quanto à informação ambiental .

Neste contexto, a esperança decorre de que há mais e melhores ferramentas para o jornalismo exercer seu papel social, entre estas a própria formação especializada que traz melhor entendimento das pautas e indica aprofundamentos. Desta forma, o jornalismo tem condições de construir conhecimento relevante sobre a informação ambiental para a cidadania. Que fiquemos atentos, firmes e fortes, em apoio às pautas ambientais, pois não teremos mais trinta anos para pretender fazer as mudanças necessárias frente ao colapso climático.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Como o Jornalismo pode aperceber os públicos diante do desafio humanitário das mudanças climáticas

O Porto de Rio Grande é o alvo para a implantação das usinas de produção de H2V, segundo o governo gaúcho. Imagem: Reprodução de Portos RS

Eliege Fante*

A ordem do dia na agenda governamental e empresarial, seguida pela imprensa, é a descarbonização da economia. Acompanhar as ações e acordos entre esses dois setores, ouvindo as fontes que ocupam os cargos mais altos – na ilusão de garantir a precisão das informações – é a regra nas redações dos meios de comunicação que concentram audiências. Contudo, observa-se que essas informações veiculadas não têm apercebido os públicos diante do desafio humanitário de impedir o aumento de 1,5 ºC na temperatura média da atmosfera. A seguir, algumas reflexões após análise dessa cobertura pelos jornais de referência no Rio Grande do Sul (RS).

Não é novidade a crença no uso das tecnologias, em especial aquelas em desenvolvimento por pesquisas científicas, como uma das principais formas de responder às questões que a natureza “coloca”, dentro da visão de um ser humano apartado e senhor dela. Contudo, tem-se um problema quando o foco na descarbonização das atividades produtivas, responsáveis pelo excesso monumental de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, oblitera a relevância da mitigação e adaptação, para além das novas tecnologias, ou seja, desde a preservação e conservação da biodiversidade,incluindo-se os povos originários, as comunidades tradicionais e as populações locais, com os respectivos modos de viver, por sua vez, menos dependentes das pegadas coloniais ecológica e hídrica.

Por isso, entende-se que, este foco na descarbonização da economia é o que impede os jornais Correio do Povo e Zero Hora, de reportar a ameaça que representam os projetos de implantação de eólicas offshore na Lagoa dos Patos, devido aos impactos sobre a biodiversidade e as comunidades pesqueiras artesanais. Trata-se do último território onde ainda há pesca artesanal no estado, com importante percentual produtivo e 13.517 pescadores cadastrados. Essas informações constam em parecer técnico e podem ser obtidas com outras fontes oficiais, autoridades nas áreas científicas da Ecologia, Biologia e Humanas.

De fato, fontes econômicas e governamentais têm divulgado ações do Governo do RS sob o referido foco: assinatura de memorando para produção de hidrogênio verde (CP, 24/03/2022); diálogo sobre H2V com International Finance Corporation em Washington (CP, 09/03/2022); assinatura dememorando para produzir H2V (CP, 14/12/2021). Essas notícias retratam o avanço das negociações entre o governo Eduardo Leite (PSDB) e grandes empresas transnacionais visando descarbonizar a economia gaúcha e a dos países para os quais a produção desta tecnologia, ao ser exportada, poderá vir a contribuir (já que os estudos sobre o armazenamento deste vetor, pois hidrogênio não é combustível, ainda não são conclusivos). O hidrogênio “verde” ou H2V é assim chamado por ser produzido a partir de fontes energéticas renováveis, em especial, a geração eólica.

Na mesma linha, apenas com um maior número de notícias selecionadas** pelo buscador, o jornal Zero Hora exaltou os investimentos citados pelas fontes: “Produção de energia eólica offshore tem potencial de US$ 200 bi, diz ministro” (ZH, 18/05/2022); “Meio Ambiente vai à Dinamarca para ‘vender’ agenda verde do Brasil” (ZH, 03/04/2022); “Brasil terá papel fundamental na transição energética, diz vice-presidente do BEI” (ZH, 16/03/2022); “De energia a fertilizantes, porto de Rio Grande prospecta R$ 9 bilhões em investimentos” (ZH, 22/02/2022); “Projeto de hidrogênio verde do RS entra no radar de investidores europeus” (ZH, 01/02/2022). Ambos os jornais não se permitiram considerar os impactos das usinas eólicas onde já funcionam no RS, tampouco verificar se a Lagoa dos Patos é um curso de água que pode ser caracterizado como offshore, que significa em águas profundas. Levando em conta que a profundidade da Lagoa dos Patos média é de três metros e máxima de sete metros, será que a tecnologia das eólicas offshore, proveniente dos países do Norte global, pode ser transferida para o Rio Grande do Sul, na proposta do governo, tendo em vista que as eólicas offshore em águas rasas alcançam 30 metros de profundidade? As notícias citadas, baseadas em jornalismo declaratório, não difundem o que há de concreto: (1) que a tecnologia do H2V segue em estudo, (2) que há populações sob o risco de serem afetadas pelas eventuais eólicas “offshore” ou outro nome ajustado à profundidade da Lagoa dos Patos,(3) que a imprensa de referência, ao seguir a estatal gaúcha, divulgou a assinatura de apenas dois memorandos com empresas, sendo que eram 15 assinados de H2V, até 09 de fevereiro de 2022.

Quando os públicos da imprensa hegemônica virão a saber um pouco mais do que está em jogo no contexto das medidas de descarbonização da economia? Aspira-se que a resposta não seja “em breve”, assim como aquela do governo federal, (reconhecidamente pouco democrático) sobre a chamada para realizar pesquisas em combustíveis e H2V, em recente notícia veiculada (ZH, 20/05/2022).

* Eliege Fante é jornalista, pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação e associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS).

**Totais sobre as buscas nos sites dos jornais com a palavra-chave hidrogênio verde: CP, 13 notícias, sendo duas de 2022; ZH, 24 sendo 14 de 2022.

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Frio recorde é oportunidade para a mídia aprofundar as abordagens sobre as mudanças no clima

Manchetes ressaltam previsão de frio intenso, neve e chuva congelante.

Patrícia Kolling*

Nos sites e jornais, já no final da semana passada, se multiplicavam as notícias sobre a previsão de frio histórico para os próximos dias. As previsões já estão se concretizando e o frio chegando, e esta é uma excelente oportunidade para os meios jornalísticos trazerem à tona a pauta das mudanças climáticas. Os eventos extremos, apontados pelo IPCC como uma das características das mudanças no clima, estão se tornando rotina no Brasil e já atingem milhares de pessoas. Em janeiro e fevereiro foram as chuvas intensas nas regiões Sudeste e parte do Nordeste e a seca na região Sul, no ano passado os períodos de estiagem foram prolongados em regiões como Centro-Oeste e Amazonia e o frio foi intenso no Sul e Sudeste. Voltando ao frio desta semana, por enquanto, os enfoques das notícias têm permanecido no factual com informações sobre a temperatura e explicações sobre alguns fenômenos que devem acontecer.

Como o jornalismo necessita do factual e de fatos concretos para tratar de temas complexos como as mudanças no clima, esperamos que nesta oportunidade, a mídia consiga ir além das notícias acima, das fotos bonitas de geada e neve e do inusitado frio no Centro-Oeste e Norte. É necessário explicar a relação do fenômeno com o aumento da temperatura global, e a partir de um olhar holístico, trazer ao debate os impactos desses fenômenos na saúde das pessoas, na produção e no preço dos alimentos, no meio ambiente como um todo, alterando padrões de comportamento da fauna e flora, além dos impactos sociais de pessoas que não têm como se proteger do frio. O tema já foi abordado pelo Michel Misse Filho, algumas semanas atrás, neste observatório quando ele destacou que além dos dados de relatórios e projeções é necessário que os meios de comunicação tragam ao debate “o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas”.

Entre os “emaranhados” deste tema, estão as estreitas relações entre as mudanças no clima e o agronegócio. Ao mesmo tempo, que o agronegócio tem sido o responsável pelos principais índices de desmatamento e pela emissão de gases do efeito estufa, também tem sentido no bolso os prejuízos dos eventos extremos (secas prolongadas, frios e geadas fora de época, imprevisibilidade de temporais e ciclones) que afetam diretamente as lavouras e a criação de animais. Mexer nesses temas exige pesquisa, disposição e dedicação de repórteres e editores, mas sem dúvida, poderia render reportagens com consistência para que leitores e telespectadores pudessem entender o fenômeno a curto e longo prazo.

 

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Araguaia

 

A normalização da impunidade na cobertura do desmatamento ilegal

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Janaína C. Capeletti

Uma nova ferramenta online, o Monitor da Fiscalização do Desmatamento, obteve ampla divulgação da imprensa, no início de maio. O levantamento permitiu constatar que cerca de 98% dos alertas de desmatamento registrados no Brasil desde janeiro de 2019 não foram alvos de fiscalização por órgãos do governo federal.

Esta notícia foi veiculada em grandes portais nacionais, como Uol, Estadão, Folha de S. Paulo, Yahoo e o Eco. As evidências apontadas pelo Monitor também tiveram repercussão internacional, especialmente por meio de uma replicação da matéria da AFP (Agence France-Presse) nos sites Le Figaro, Agência Nacional de Noticias de Bangladesh, RFI, MSN e Daily Sun.

O Monitor é desenvolvido pelo MapBiomas, uma iniciativa em rede formada por especialistas em sensoriamento remoto e mapeamento de vegetação. De acordo com dados da plataforma, as ações de fiscalização do governo aconteceram em apenas 13,1% da área total desmatada no período, o equivalente a 536 mil km². Para se ter uma ideia, os alertas não fiscalizados apontados pelo estudo representam 3 milhões de km². Para chegar ao índice da impunidade, o MapBiomas cruzou informações disponibilizadas por órgãos federais e estaduais sobre as autorizações de supressão da vegetação e ações empreendidas para combater o desmatamento ilegal. Ou seja, mobilizou dados públicos e de conhecimento do governo federal. Importante ressaltar que, para este primeiro levantamento, o Monitor encontrou informaçõesatualizadas e em formato adequado apenas para cinco estados (GO, MT, MG, PA e SP) além das disponibilizadas pelo governo federal.

Na matéria da AFP, o texto curto traz menos dados quantitativos sobre o levantamento, mas apresenta a relação do governo Bolsonaro com o desmatamento ilegal, bem como a sua ligação com o agronegócio.

A cobertura nacional, via de regra, seguiu um padrão uniforme: relatou os dados, apresentou a plataforma e seu funcionamento e ouviu os principais responsáveis pelo levantamento e pelo MapBiomas. O Estadão e a Folha de S. Paulo conversaram com representantes dos estados. Houve a tentativa por parte dos veículos de contato com o Ministério do Meio Ambiente, sem sucesso, como tem sido praxe na atual gestão federal. 

Pode-se dizer que a lição de casa foi cumprida -no sentido de mostrar o problema, ouvir as fontes oficiais e especialistas, informar com clareza. Contudo, mais uma vez vemos a cobertura dos veículos de forma burocrática em relação a uma informação relevante do ponto de vista da política ambiental assumida no Brasil. Nem o jornal O Eco, tradicionalmente dedicado às temáticas ambientais, conseguiu dar o tratamento que a pauta merece em razão de sua importância. 

As fontes ouvidas reforçam a crítica que o jornalismo ambiental faz às práticas do jornalismo “tradicional”, que privilegia especialistas e representantes governamentais em detrimento de outras vozes envolvidas no problema. Para que haja uma pressão da sociedade civil e não uma normalização da impunidade, promovida por números frios e sem contextualização, é preciso ouvir quem já sofre pela falta de fiscalização do desmatamento. 

Além disso, as matérias também poderiam apresentar um caminho sobre o que fazer com essas informações. Quais instâncias representativas podem ser acionadas diante da inação do governo? Quanto em arrecadação de multas e o que isso gera para o povo está sendo deixado de lado, por exemplo?

Ampliar o olhar, a partir de uma perspectiva sistêmica que apresenta o humano por trás dos dados, é desafiador: as redações cada vez mais enxutas e o tempo escasso para a produção jornalística são fatores relevantes. Entretanto, cabe ao jornalismo complexificar as pautas e desvelar relações, produzindo narrativas que permitam o engajamento da sociedade.

 

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com

Terra Indígena Parakanã é invadida por caçadores e os indígenas da etnia awaeté recebem ameaças

Imagem: 60% da TI se situa no município de Novo Repartimento. Fonte: Terras Indígenas no Brasil – https://terrasindigenas.org.br/ Acesso em 02/05/2022.

Por Ilza Maria Tourinho Girardi*

A cobertura da imprensa local e nacional mobilizada em torno do desaparecimento de três homens não indígenas em Novo Repartimento, município do Pará, desde 24 de abril, motiva a análise crítica que se apresenta a seguir. Em primeiro, destaca-se a importância da contextualização sobre o lugar, um território indígena ancestral parakanã, que segundo Wikipédia, teve uma vila implantada pela empresa que construiu a Rodovia Transamazônica e, após, uma nova mudança no território com a inundação pelas águas da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Por isso, de um lado, o povo parakanã foi removido de suas áreas originais e circunscrito na Terra Indígena Parakanã, homologada em 1991, com 352 mil hectares e, de outro lado, o povo não indígena ficou alocado no município criado também em 1991, Novo Repartimento. Por fim, merece ser destacado ainda, que em 16 de abril, o Ministério Público Federal, o MPF, ouviu de lideranças parakanã o pedido de concretizar a desintrusão (retirada de não indígenas de uma terra indígena) de madeireiros e garimpeiros das suas áreas, conforme a lei vigente.

A circulação de não indígenas é frequente no território do povo parakanã apesar da sinalização, da lei vigente e dos apelos dos próprios indígenas com o apoio de entidades indigenistas. E, no domingo 24 de abril, ganhou repercussão o desaparecimento de três caçadores que entraram sem ser convidados na Terra Parakanã, no Pará. Importa saber que não foram convidados porque os habitantes não tinham ciência da presença desses homens nas suas áreas, o que só aconteceu após os indígenas receberem diversas ameaças e acusações de envolvimento com o desaparecimento e/ou a morte deles. 

Em geral, as notícias informaram que, familiares de Cosmo Ribeiro de Sousa, William Santos Câmara e José Luiz da Silva Teixeira fecharam um trecho da BR-230 Transamazônica por três dias exigindo que as autoridades entrassem na terra indígena para realizar as buscas. Após a autorização da Justiça, a rodovia foi liberada na noite de quinta-feira (28). O Ministério Público Federal pediu a instauração de inquérito pela Polícia Federal. Desde quinta-feira (28), após autorização da Justiça, mais de 150 agentes das polícias Federal e Militar, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e Corpo de Bombeiros saíram em busca dos três homens. A notícia foi repercutida em vários órgãos da imprensa. Para esta análise, foram selecionadas algumas que apresentam pistas sobre como produção das matérias foi conduzida.

Com a chamada “Três caçadores estão desaparecidos na Reserva Indígena Parakanã, em Novo Repartimento no sudoeste do Pará” o Jornal Liberal 2ª edição, de 26 de abril, relata a ocorrência e informa que o Ministério Público Federal acompanha as buscas e está em contato com a FUNAI, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal para evitar qualquer tipo de conflito entre os indígenas e os não indígenas. Informa ainda, mostrando as imagens, que os familiares fecharam um trecho da Transamazônica e o clima ficou um pouco tenso. A repórter relata que, conforme o Ministério Público Federal, moradores armados teriam ido até o local onde os caçadores sumiram e acusaram indígenas pelo desaparecimento dos três homens. Esclarece que segundo o Ministério Público Federal os indígenas apoiam as investigações.

No Jornal Hoje, da emissora Globo, de 30 de abril, o apresentador relata que a Polícia Federal encontrou três corpos na terra indígena Parakanã, no Pará, e que segundo as autoridades ainda não foi possível identificar os mortos.

A notícia do G1 “Autoridades federais fazem buscas a caçadores desaparecidos na Terra Indígena Parakanã, no PA”, acrescenta que a “área da reserva Parakanã tem tamanho equivalente a 350 mil campos de futebol e abriga cerca de 23 aldeias, com uma população de 1,5 mil indígenas”.

Veiculada no Portal Terra, em 28 de abril, a notícia “Caçadores desaparecem em terra indígena; clima é de tensão no sudoeste do Pará”, informa que três homens invadiram a terra indígena para caçar em Novo Repartimento. De acordo com a matéria “Moradores da região acusam indígenas pelo sumiço dos caçadores e falam em retaliação. Um grupo teria invadido uma escola indígena e agredido estudantesda aldeia”. Os indígenas, da etnia awaeté, passaram a receber ameaças diretamente e por meio de redes sociais. Esta notícia cita como fonte o Ministério Público Federal (MPF) do Pará, segundo o qual moradores da região entraram armados na reserva para ameaçar os indígenas. A indígena TaranaParakanã, estudante de Letras, contou que não indígenas invadiram a escola, no Posto Taxakoakwera, agrediram estudantes e, alguns portavam armas.

Conforme a mesma matéria, outra fonte citada através de nota, professores do Instituto Federal Rural do Pará, ao qual a escola é vinculada, cobraram uma ação enérgica das autoridades nas buscas pelos caçadores desaparecidos e denunciaram que os indígenas estão sendo alvo de preconceitos, já que não há nenhum indício de que tenham responsabilidade pelo desaparecimento deles. “O branco está invadindo as nossas terras e ameaçando o meu povo de morte”, disse, em vídeo, o cacique da aldeia Parano’wa, Xeteria Parakanã.

Ainda de acordo com a matéria, o MPF informou que está em contato com a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Polícia Federal e a Polícia Militar do Estado para as buscas aos desaparecidos e a proteção da comunidade indígena. A PF e a PM confirmaram o envio de efetivo para prestar apoio e minimizar a possibilidade de ocorrência de um conflito. A Funai informou que um grupo de mediação de conflitos acompanha a situação que, no momento, é tranquila. A entrada de pessoas estranhas ao grupo é proibida em terras indígenas, segundo lei federal de 1973. A TI Parakanã, com 352 mil hectares, possui 24 aldeias, onde vivem 1,4 mil indígenas, e está a cerca de 30 km da área urbana de Novo Repartimento. Devido ao contato recente com o homem branco, há menos de quatro décadas, os awaetés não dominam bem a língua portuguesa.

Contextualização importante, faz esta matéria ao recordar que em 25 de dezembro de 2013, cerca de 3 mil moradores de Humaitá, no sul do Amazonas, atearam fogo em prédios da Funai e postos de saúde indígena em protesto contra o desaparecimento de três homens na Transamazônica, quando cruzaram de carro a Terra Indígena Tenharim.  Os revoltosos responsabilizavam os índios pelos desaparecimentos, que seriam por vingança. Três dias antes, um cacique Tenharim tinha sido encontrado morto na Transamazônica. Carros, ambulâncias e até um barco que atendia as populações indígenas também foram incendiados. Ameaçados de linchamento, os indígenas que moravam na cidade se refugiaram no Batalhão do Exército. Os corpos dos desaparecidos foram achados no dia 3 de fevereiro, em uma vala, no interior da reserva. Cinco tenharins foram presos, acusados pelas mortes. Em novembro de 2015, eles foram colocados em liberdade condicional e ainda esperam julgamento.

A notícia publicada em 30 de abril no Correio de Carajás, além de outras informações acrescenta que o juiz federal Heitor Moura Gomes, da Subseção Judiciária de Tucuruí, assinou ordem de busca e apreensão na área da Reserva Indígena Parakanã, em Novo Repartimento, para localizar os três homens. Além de determinar a desobstrução do trecho interditado da BR-230 (Transamazônica), que foi ocupada um dia depois do desaparecimento, se estendia a toda a área de 325 mil ha da Reserva Parakanã, composta pelas aldeias Paranatinga, O’Ayga, Paranowaona, Itaoenawa, Itaygara, Paranoawe, Paranoita, Paranoa, Maroxewara, Inaxyganga, Itapeyga, Paranoema, Itaygo’a,Inatarona, Xaraira, Xataopawa, Parano’ona e Arawayaga.

No dia 27 de abril o portal Amazônia Real publica a matéria “Sumiço de caçadores faz população se revoltar contra os Parakanã”, com informações detalhadas. Relata a agressão sofrida pelos alunos dos Cursos de Agroecologia e Magistério Indígena do Campus Rural de Marabá do IFPA, por volta de 13h15min, deflagrada por familiares dos desaparecidos. O ocorrido resultou numa nota conjunta assinada por professores e pela coordenação do Curso de Magistério Indígena (IFPA/CRMB). Conforme a nota os indígenas receberam os familiares dos homens desaparecidos, que ao solicitarem ajuda nas buscas por seus filhos, foram atendidos pelos indígenas. A reunião estava se encaminhando bem até que um sargento da Polícia Militar de Novo Repartimento disse ter recebido informações de um desaparecimento seguido de cárcere privado. Mas, um professor, segundo a nota, se manifestou sobre a informação que tinham de dentro do território: “O senhor ou seu informante não estariam equivocados? Aqui até o momento não houve ‘cárcere privado’.”

No mesmo dia (27/04), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a APIB, publicou a matéria “Povo Awaeté da T.I. Parakanã sofre ameaças após sumiço de caçadores em suas terras”. O texto faz um relato detalhado da reunião das duas mães e um pai dos caçadores desaparecidos com as lideranças indígenas, a mesma referida na notícia que destacamos acima. Porém, mostra a escuta entre as partes, como através do pedido de desculpas do sargento da Polícia Militar ao ter a situação esclarecida diante das informações que trouxe sobre “cárcere privado”. A nota da APIB segue problematizando a cobertura da imprensa:

“Por que tanta desinformação? O que justificaria a construção tão rápida de argumentos incondizentes com o ocorrido? Por que tamanho ódio aos indígenas? Por que uma mídia local reproduziria a narrativa do ‘cárcere privado’ no dia seguinte? Qual o interesse dos agentes políticos e econômicos da região nesta nova fricção com os indígenas Awaeté?”

A nota esclarece que os Awaeté-Parakana têm contato recente, em torno de 40 anos, com os não indígenas. Poucos falam português e outros estão estudando a língua; tomamos como óbvia esta necessidade, e acrescentamos a igual reflexão sobre se os não indígenas da região estão fazendo o mesmo esforço de aprender uma língua diferente.

“Vivem ainda sob as sequelas do deslocamento compulsório da Eletronorte para a Construção da Hidroelétrica de Tucuruí e de uma Tutela traumática do Programa Parakanã,” consta no Relato. Hoje algumas aldeias estão sitiadas por não indígenas hostis aos Awaeté.

“Áudios com ameaça à vida dos indígenas começam a circular. Um clima de insegurança e ameaças vêm aumentando e preocupando os Awaeté e seus parceiros institucionais, como os/as professores/as dos cursos de Magistério Indígena e Agroecologia. Esse episódio expõe a cobiça pelo fragmento de território Awaeté que compõe a T.I Parakanã, as ressalvas em relação aos Awaetépelos colonos da frente de expansão, a visão dos regionais sobre os Awaeté como atrasadores do desenvolvimento local ou como um grupo privilegiado com um programa da Eletronorte. Enfim, a carga de preconceitos e etnocentrismo vêm alcançando os desdobramentos nos corpos indígenas. Basta! Cobramos de todas as autoridades responsáveis a máxima proteção para os Awaeténeste momento.”

Como se observa as notícias mais completas foram as publicadas no Portal Terra, Amazônia Real e no site da APIB. Sendo que um dos principais aspectos, é a escuta de fontes indígenas, as quais ainda buscavam tomar pé dos acontecimentos em seu próprio território. As demais apresentam um viés quase acusatório aos indígenas e sequer apresentam um histórico dos conflitos na região provocados pelas invasões dos não indígenas às terras indígenas. É importante lembrar que as matérias não mencionaram que é crime caçar no Brasil, conforme a Lei 5197/67, de 3 de janeiro de 1967 e se fixaram na suspeita de que os indígenas seriam os autores dos crimes.

Caso o Jornal Liberal 2ª Edição tivesse consultado a matéria publicada na mesma emissora em 3 de agosto de 2018, com a duração de três minutos, teria tido mais argumentos para mostrar a situação da Terra Indígena que há anos sofre com invasões. Na época lideranças indígenas bloquearam um trecho da Transamazônica, notrecho Altamira – Belo Monte exigindo a retirada de madeireiros, fazendeiros e garimpeiros que invadiram a área, que é uma das mais desmatadas. A situação se agravou nos últimos anos com a grilagem. A reportagem, bem completa e informativa, se utiliza de dados do Instituto Socioambiental. A própria repórter diz que o processo de retirada de invasores não foi concluído. Isso demonstra o descaso do Governo Federal com a situação dos povos indígenas que são constantemente ameaçados no Brasil.

O jornalismo tem o compromisso com a verdade e com a cidadania, logo não deve contentar-se com informações superficiais, incompletas ainda mais quando se trata de tema tão grave que é a situação dos povos indígenas no Brasil que sofrem ataques constantes. Maior a responsabilidade num país onde o próprio Presidente da República não tem nenhum pudor ao expressar desconhecimento em relação aos povos indígenas, chegando ao ponto de conceder-se uma medalha de mérito indígena. Contextualizar e ouvir as fontes é um dever do jornalismo. Caso contrário, corre-se o risco de reforçar discursos racistas e excludentes que atendem interesses econômicos escusos. 

O jornalismo ambiental nos ensina que é necessário ampliar o olhar e incorporar a ética do cuidado no seu fazer buscando contribuir com a mudança do pensamento no sentido de alcançar o apaziguamento na nossa relação com a natureza e os demais seres.

Fritjof Capra, em 1982, no livro O ponto de mutação faz um alerta que nos ajuda a entender melhor esse novo olhar: “os jornalistas deverão mudar, e seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma ética profissional baseada na consciência social e ecológica.” (CAPRA,1982, p.400)

 

Referência:

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo:1982, p.400

 

*Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada da UFRGS, professora convidada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, FABICO/UFRGS. Doutora em Ciência da Comunicação, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

A reportagem a pé sobre meio ambiente

Imagem: capa do livro no site da Blooks Livraria

Por Míriam Santini de Abreu*

O livro “Andar a Pé – Uma Obrigação Profissional” (Ibis Libris, 2021), coletânea de reportagens do jornalista Rogério Daflon, é alimento saboroso para quem trabalha com a pauta ambiental e concretiza, na prática profissional, a máxima de que lugar de jornalista é na rua. A obra, lançada em dezembro passado, reúne 45 textos de Daflon publicados em diferentes veículos, agrupando-os em cinco eixos temáticos: Moradia, Meio Ambiente, Uso e ocupação do solo e do espaço público, Obras e equipamentos públicos e Patrimônio arquitetônico e cultural. A iniciativa se viabilizou graças a uma vaquinha virtual realizada após a morte do jornalista, nove dias depois de ser atropelado por um motociclista no Rio de Janeiro em 2019.

Dos sete textos do eixo temático Meio Ambiente, três compõem a série “Desleixo Insustentável” (jornal O Globo, março de 2012) e uma a série “Os Rios do Rio” (jornal O Globo, 2012). A última, de junho de 2019, é a entrevista derradeira de Daflon, para O Eco, abordando os impactos que o projeto – posteriormente retirado – de um autódromo provocaria na Floresta do Camboatá, remanescente de Mata Atlântica na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro.

Os textos trazem a marca do repórter que baixou ao chão, como nas entrevistas com moradores das margens de rios apodrecidos por esgoto para a série “Os Rios do Rio”. O “método Daflon”, conforme definem os colegas de trabalho em testemunhos publicados no livro, evoca os escritos de Anton Tchékhov reunidos em “Um bom par de sapatos e um caderno de anotações: como fazer uma reportagem” (Martins Fontes, 2007), com impressões e conselhos do contista russo que, em 1890, aos 30 anos, percorreu 12 mil quilômetros para conhecer a vida de deportados na Ilha de Sacarina. Uma extravagância, disse-lhe seu editor. Ele foi assim mesmo.

Destacam-se, no eixo Uso e ocupação do solo e do espaço público, três reportagens. Em “Roubaram a praia do Vidigal” (Agência Pública, 2017), Daflon mostra como o Sheraton Grand Rio Hotel & Resort, no Leblon, se apossou do acesso à praia, restando aos moradores subir e descer uma escadaria de 141 degraus. Na reportagem “Os prédios que violaram o ‘skyline’ do Rio” (Agência Pública, 2017), o jornalista relata o processo de ocupação céu acima da capital fluminense. “Rogério trouxe a brilhante ideia de consideramos o skyline como um espaço público, tão passível de ser gozado pelos cidadãos como uma praça ou a própria praia (…)”, escreve a jornalista Natalia Viana, da Agência Pública, na abertura do conjunto de textos.

Para as matérias, Daflon trazia a vida cotidiana, a singularidade do espaço geográfico e também o conhecimento acumulado na academia ao entrevistar professores e pesquisadores. Ele mesmo era um, tendo concluído mestrado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ com dissertação intitulada “Ribeirinhos urbanos: uma vida à margem do direito à moradia”. Em matéria para a Casa Fluminense (2014) sobre o conjunto habitacional popular Cruzada São Sebastião, no Leblon, menciona que passou os olhos por cerca de 100 reportagens sobre o lugar antes de passar alguns dias lá para produzir seu próprio texto.

Por fim, cita-se a reportagem “Condomínio Laranjeiras: segregação, ameaça e processos em Paraty” (Agência Pública, 2017), que expõe a forma pela qual um empreendimento privado para milionários se apossou, nos anos 1970, de parte do que viria a ser o Parque Nacional da Serra da Bocaina. A reportagem traz à memória outra, “Histórias de uma aldeia visitada pelo medo”, feita pelo jornalista Marcos Faerman sobre o mesmo fato e publicada originalmente no Jornal da Tarde em abril de 1974, sendo depois selecionada para a coletânea “Com as mãos sujas de sangue”, podendo ser lida em https://bit.ly/3jY1vxZ (a partir da página 115 do livro). Com intervalo de quatro décadas, Faerman e Daflon revelam o início e a consolidação do assalto imobiliário do litoral brasileiro tendo como epicentro as cobiçadas praias fluminenses. E em ambos aparecem também os que continuamente lutam para não serem acossados do espaço pelos que perseguem apenas o lucro.

Por isso, o olhar do jornalista que anda nas ruas e se apropria da plenitude do espaço geográfico e das vozes que vêm de suas profundezas, dando-lhes audibilidade e visibilidade, é efetivamente inovador da linguagem, portanto revolucionário.

* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo

Entre diagnósticos e projeções do IPCC, as múltiplas nuances da emergência climática

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

A principal notícia deste mês de abril, no que tange à situação climática do planeta, foi a divulgação do novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) da Organização das Nações Unidas. É apontada uma diminuição das chances de limitação do aumento da temperatura em 1,5ºC, cenário para o qual é necessário alcançar o pico de emissões até 2025 e cortá-las pela metade até 2030. O relatório do IPCC é um acontecimento tão científico quanto geopolítico e, divulgado sazonalmente, costuma ocupar um relativo lugar de destaque no noticiário dos grandes veículos de mídia.

Enquanto notícia, os fatos relatados pelas matérias costumam conter boa dose de informações climáticas, projeções de cenários, diagnósticos do problema — afinal, são estes os dados divulgados no âmbito do próprio IPCC. A matéria da Folha de S. Paulo sobre o acontecimento cumpre à risca seu papel e não se furta de elucidar, com clareza, as principais informações, causas e consequências que envolvem a emergência climática em curso. Já esta reportagem da BBC Brasil, publicada na última semana por portais como G1 e Folha de S. Paulo, também mobiliza uma interessante discussão científica em torno das novas tecnologias de “geoengenharia solar”: pesquisas que buscam mitigar o aquecimento do planeta a partir de técnicas como o lançamento de substâncias químicas na estratosfera, fazendo-as atuarem como barreira aos raios solares. Grande parte dos cientistas, todavia, alerta para o grave risco das técnicas, com consequências imprevisíveis para o planeta; reforçam o grau apenas paliativo do empreendimento; e criticam o deslocamento de atenção da raiz do problema, que é a imprescindível necessidade de redução da emissão de gases de efeito estufa.

O problema, no entanto, é que o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas — para além da reunião de cientistas e/ou políticos em organizações multilaterais — também necessita estar presente nas capas dos jornais e televisão. Se o objetivo deve ser o de informar a população para que, indiretamente, aumente a pressão da sociedade civil por medidas mais rigorosas de enfrentamento às mudanças climática, é preciso acionar as diversas nuances do assunto e envolver o público pelos múltiplos caminhos possíveis.

Um bom exemplo é esta matéria publicada pelo National Geographic Brasil, abordando “como o aquecimento global afeta a vida no Brasil”. A publicação envolve o já conhecido aumento de desastres naturais — e cita, por exemplo, as chuvas torrenciais que deixaram 233 mortos em Petrópolis (RJ) —, apontando para a mudança no padrão de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, em especial. Também engloba as consequências diretas na saúde humana devido ao estresse térmico, bem como o aumento no custo de produção alimentícia e energética, e suas repercussões no aumento da desigualdade social brasileira.

A necessidade de envolver o público para as questões ambientais em suas diversas facetas é evidenciada, por exemplo, nesta coluna do portal Latinoamérica21, publicada na Folha de S. Paulo, sobre as “Contradições no mundo diante das mudanças climáticas”. Em suma, pesquisas de opinião apontam para um elevado grau de alerta das populações latino-americanas sobre as mudanças climáticas em relação ao resto do mundo; ao mesmo tempo, apesar de alertas, também são estas as mais otimistas quanto à resolução dos problemas. Chama mais a atenção, no entanto, a alta ênfase dada à responsabilização do indivíduo para solucionar as mudanças climáticas: nove em cada dez latino-americanos acreditam que suas ações pessoais fazem a diferença (mais do que a média de países desenvolvidos) e 40% das classes média e média baixa brasileira veem no indivíduo uma responsabilidade maior pela sustentabilidade do que nos governos e empresas.

Embora sem diminuir a importância da conscientização em nível individual, o foco somente nesta instância pode desestimular a pressão popular e a fiscalização dos grandes agentes poluidores. É também nesta direção que deve caminhar o jornalismo, em seu papel de descortinar as muitas variáveis que orbitam as questões socioambientais.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O raso debate sobre veganismo

Imagem: IPEAS Report – The Politics of Protein, 2022

Por Matheus Cervo*

Nas últimas décadas, o debate sobre os impactos do consumo de carne tem avançado para mostrar que a escolha em aderir uma dieta vegana vai muito além de optar pela libertação animal.

Segundo a FAO-ONU, o consumo de carne vermelha gera 14,5% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e é responsável por inúmeras infrações trabalhistas nos setores frigoríficos. Além disso, mais de 60% das doenças infecciosas humanas são causadas por agentes patogênicos partilhados com animais selvagens ou domésticos. Por isso, são utilizados antibióticos de forma excessiva na indústria da carne, o que contribui enormemente para o surgimento de agentes resistentes aos mesmos.

Os impactos são ainda mais gritantes quando pensamos de forma sistêmica e percebemos que esse tipo de produção gera desafios críticos à sustentabilidade, como perda de biodiversidade, poluição química, degradação da terra, dificuldade de manter um meio de subsistência e pobreza nutricional nas dietas familiares. Não é trivial notar dados alarmantes que mostram que 80% das terras agrícolas globais são destinadas à produção de soja e milho para fabricação de ração, algo que é extremamente ineficiente para resolver o problema grave da insegurança alimentar.

Ainda assim, existe uma quantidade enorme de matérias jornalísticas que não se comprometem em buscar fontes sérias, gerando desinformação e rejeição sobre o tema. Como exemplo disso, o Metrópoles publicou uma matéria chamada “Entenda por que alguns vegetarianos e veganos voltam a comer carne”. A escrita traz posições de nutricionistas que ainda não se atualizaram no debate científico, já que falam que veganos tendem a voltar a comer carne por ficarem subnutridos (pela suposta falta de proteína) ou por perceberem que estavam em um “surto” por pressões sociais absurdas. Por fim, traz uma série de argumentos de psicólogos para legitimar o processo de reconversão a uma dieta com carne, uma vez que esses profissionais da saúde afirmam a necessidade de autoconhecimento para se “desvincular de crenças que geram sofrimento”.

Um meio que faz um trabalho muito mais sério é O Joio e O Trigo, um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder. Recentemente, publicaram uma matéria sobre o crescente mercado das caríssimas “carnes vegetais” industriais. Logo de início, partem de inúmeras fontes de informação que pautam a importância do debate sobre a mudança alimentar, como o relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), que foi publicado no dia 6 de abril de 2022. Contudo, é com base nesse relatório que a matéria mostra que as soluções não são simples e que muitas alternativas industriais como as mencionadas não são sustentáveis e, inclusive, são patrocinadas pela própria indústria da carne.

O texto termina como uma aula ao jornalismo que se debruça ao veganismo e às mudanças alimentares, já que traz um discurso de que esse debate sobre carnes e proteínas precisa de uma dimensão antropológica. Ou seja, se sabemos que a redução ou a eliminação dos produtos de origem animal são necessárias, precisamos fazer esse debate junto da diversidade cultural de práticas para e com a natureza, com agricultores familiares, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e mesmo grupos urbanos em situação de insegurança alimentar. Não se trata de criar matérias repudiando ou adorando o veganismo, mas, sim, de o debater de forma societária e complexa.

* Graduado em Ciências Sociais, mestre em Comunicação e atual doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A emergencial pauta indígena que interessa sobremaneira aos não indígenas

Imagem: Reprodução da coletiva de imprensa da Apib no ATL

Por Eliege Fante**

Há 18 anos, os povos indígenas se reúnem em Brasília, no mês de abril, com um número cada vez maior de pessoas e de apoiadores. Dia 4 iniciou o Acampamento Terra Livre (ATL) com o tema “Retomando o Brasil: Demarcar Territórios e Aldear a Política” e que deve seguir até o dia 14 deste mês, reunindo cerca de oito mil participantes. Este panorama motiva uma maior dedicação à escuta, mas, parte da imprensa nacional, representada aqui por G1 dia 4 e dia 6, Record dia 4 e SBTNews dia 5 cumpriu o já comum “jornalismo” declaratório, ou seja, reproduziu alguns dizeres de fontes.  

A decisão sobre quais dizeres reproduzir requer tempo para pesquisa e reflexão dos jornalistas. Durante a coletiva de imprensa, no primeiro dia de ATL, as lideranças trouxeram informações portadoras de valores-notícia, apesar da pressão do agronegócio que, através do patrocínio ou outra forma, interfere nas políticas editoriais dos meios de comunicação sobre o que e como é, ou não, publicado. Por exemplo, Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib), destacou na coletiva o “passivo muito grande de territórios a serem reconhecidos e demarcados nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul, Centro-Oeste”. Pois, explicou, a maior parte dos 13% de território indígena no Brasil se situa na região Norte, ou seja, no bioma amazônico. Os dados oficiais* sobre este percentual são: 728 terras indígenas, sendo 487 homologadas e reservadas, 124 em identificação, 74 declaradas, 43 identificadas.

No segundo dia do ATL (05/04) uma das publicações que chama a atenção é o vídeo curto feito pela Apib sobre o passivo referido por Sônia: um total de 891 terras indígenas que aguardam providências do governo federal, diante de apenas 408 registradas, ou seja, com o processo demarcatório concluído. O Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil do Conselho Missionário Indigenista (CIMI, 2020) repete este número e apresenta o panorama, do qual extraímos o total de 1299 terras indígenas, sendo centenas com pendências administrativas e, o maior número delas, 536, sem providências por parte do Estado brasileiro. Só no Rio Grande do Sul, são 38 sem providência alguma.

Considerando esses números, a grande delegação indígena do RS no ATL, o crescente número de retomadas pelo estado e, inclusive durante a pandemia da covid-19, sem esquecer as mobilizações e doações periódicas pela sociedade civil para o suporte básico dos povos negligenciados pelo governo federal, existem muitas possibilidades de pautas a serem concretizadas pelo jornalismo de modo a auxiliar o público, que acessa esses conteúdos, sobre o que de fato é “tudo” para a reprodução social e o próprio desenvolvimento econômico no presente e futuro próximo. Resta saber se, a imprensa dona dos principais meios de comunicação no país, nacional e estadual, vai permitir o trabalho dos jornalistas profissionais nas redações. Neste caso, teremos uma semana para observar, até 14 de abril.

*Terras Indígenas no Brasil – https://terrasindigenas.org.br/ Acesso em: 05/04/2022.

**Eliege Fante é jornalista autônoma, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, repórter e editora voluntária na EcoAgência e associada ao Núcleo de Ecojornalistas, o NEJ-RS.

Microplásticos no corpo humano: como ampliar a pauta sobre um estudo científico?

Crédito: Captura de tela do site RFI

Por Débora Gallas Steigleder*

A constatação inédita da presença de micropartículas de plástico no sangue humano é um importante alerta nas áreas de saúde e meio ambiente. Uma matéria da agência de notícias RFI publicada em 25 de março, que trata de estudo holandês sobre o tema, repercutiu em veículos nacionais, como a Folha.

O texto destaca que mais da metade das amostras de sangue dos voluntários contém vestígios de PET (polietileno tereftalato), um dos tipos de plástico mais comuns em nossa rotina por ser utilizado na fabricação de garrafas e fibras de poliéster. Assim, os dados por si só são capazes de alertar o leitor para a exposição cada vez maior do nosso organismo à infinidade de resíduos gerados pela indústria.

É necessário, porém, que o jornalismo estabeleça novas relações com as pesquisas científicas. Além de publicizar seus resultados, veículos e jornalistas podem utilizá-las como mote para pautas que conectem as descobertas recentes a problemas sociais e ambientais de longa data.

No caso brasileiro, por exemplo, é viável ampliar pautas conectadas à responsabilidade compartilhada por setores privado e público e cidadãos na geração, consumo e descarte de materiais recicláveis ou não recicláveis. Essas atribuições são previstas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, implementada em 2010, mas da qual a indústria ainda se esquiva, como destaca texto recente deste Observatório sobre o setor têxtil.

Além da evidente problemática ambiental referente à produção excessiva de novos itens e ao descarte incorreto desses materiais, falar sobre resíduos é falar também sobre o sustento de famílias que trabalham com a reciclagem. Em um Brasil empobrecido, é mais do que pertinente traçar um paralelo entre a escassez do alimento que nos mantêm vivos e a abundância de substâncias que envenenam nosso corpo.

*Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação. Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental. E-mail: deborasteigleder@gmail.com