Cobertura jornalística em ano de eleições e pandemia: onde está a discussão da política ambiental no Brasil em chamas?

Fonte: Captura de tela do site G1

Por Débora Gallas Steigleder*

Notícias sobre acontecimentos que ameaçam ecossistemas e o bem-estar das populações humanas, em plena pandemia, deveriam ser recebidas com preocupação e suscitar o debate público sobre as estratégias políticas para o enfrentamento de crises que se sobrepõem. Assusta, por exemplo, que fatos como o crescimento de registros de supressão da vegetação nativa na Amazônia soem repetidos diante da recorrência de crimes ambientais incentivados pelo próprio governo federal.

Publicada em 19 de agosto, um ano após os incêndios criminosos na Amazônia dominarem o noticiário nacional com a chegada da nuvem de fumaça à cidade de São Paulo, reportagem de Carolina Dantas para o G1 informa sobre as queimadas que têm ameaçado os biomas Pantanal e Amazônia nas últimas semanas. A produção contextualiza o impacto do fogo de acordo com o ecossistema afetado. Também recorre a infográficos para auxiliar na visualização dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Especiais e recupera informações veiculadas em outras emissões da Rede Globo, como Jornal Nacional e Fantástico. A relação entre os efeitos das queimadas na saúde humana também apareceu em G1 nesta semana, mas através de conteúdos produzidos por agências, como esta notícia da Reuters, assinada por Pedro Fonseca. O texto destaca estudo da Fundação Oswaldo Cruz sobre a probabilidade de aumento das doenças respiratórias na Amazônia, região já castigada pela Covid-19. O conjunto dos materiais de fato evidencia a gravidade da situação às leitoras e leitores do site.

Fonte: Captura de tela do site G1

No entanto, sentimos falta de um chamado à ação na cobertura. O que resta ao público além de lamentar o acúmulo de catástrofes? A menos de três meses do pleito que elegerá novos representantes nas Prefeituras e Câmaras de Vereadores, como o jornalismo pode pautar iniciativas ambientalmente responsáveis, de caráter preventivo, frente às campanhas políticas que estão por iniciar? Observando os conteúdos também publicados na editoria Natureza de G1 na mesma semana, uma possibilidade seria dar espaço às reivindicações dos indígenas Kayapó Mekrãgnotire, que realizam protesto na BR-163, no Pará. Afinal, a motivação dos ativistas indígenas tem a ver com os direitos negados a seu povo enquanto o incentivo ao progresso prioriza a construção de rotas para o escoamento de grãos produzidos em áreas com histórico de desmatamento e queimadas.

E, para evidenciar as conexões intrínsecas entre as questões ambientais, é necessário ir além do factual em matérias como a que reporta a liberação de novos agrotóxicos pelo Ministério da Agricultura em 20 de agosto. Aqui no Observatório, já falamos sobre o uso de venenos estar relacionado à lógica produtiva das monoculturas para exportação de commodities, atividade agroindustrial que motiva a degradação dos biomas brasileiros. Falta à cobertura jornalística destacar tais relações e evidenciar soluções, muitas das quais já emergem das próprias comunidades. Iniciativas como o cultivo de soja orgânica no Mato Grosso do Sul, conforme reportado por Brasil de Fato em 20 de agosto, poderiam ser abraçadas pelo poder público, mesmo que em pequena escala, a fim de garantir uma produção ecológica de alimentos, que respeite os ecossistemas e garanta e comida de qualidade para a população.

Entendemos que o papel do jornalismo é cobrar ações mais contundentes dos governantes na resposta à pandemia e aos problemas sociais, ambientais e educacionais que a partir dela se intensificam. Mas também acreditamos que o jornalismo pode catalisar mudanças sociais ao visibilizar alternativas para um planeta em crise.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Mongabay reforça o jornalismo ambiental no Brasil

Imagem: Captura de tela – Capa do site em português da agência de notícias criada pelo ambientalista Rhett Ayers Butler  para chamar a atenção sobre a importância social e ecológica das florestas tropicais

Roberto Villar Belmonte*

O jornalismo ambiental praticado no Brasil ganhou um reforço internacional. Desde 2019, a agência de notícias Mongabay começou a trabalhar com jornalistas brasileiros para cobrir no país mais megadiverso do planeta pautas sobre florestas tropicais, conservação, desmatamento, povos indígenas e infraestrutura. 

Notícias ambientais para informar e transformar é o que promete o serviço de jornalismo independente criado pelo ambientalista estadunidense Rhett Ayers Butler, de 42 anos, atualmente com 500 correspondentes em 70 países e produções originais em inglês, indonésio, espanhol e português. 

No seu site em português, a Mongabay diz que “visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento”.

O jornalismo ambiental com foco em conservação da vida silvestre não é inédito no Brasil. Esse também é o viés do site O Eco, criado em 2004, e da extinta revista Terra da Gente (2004-2014). A novidade é que a Mongabay chega em um momento de barbárie ecológica fomentada por um governo federal de extrema direita.

O fundador da Mongabay faz questão de dizer no site em inglês que não se posiciona acerca das controvérsias ambientais. Ela não seria uma organização que advoga em prol das florestas tropicais, mas uma agência de notícias que praticaria um jornalismo independente baseado em fatos.

Como a cobertura é especializada, não há uma publicação de conteúdo com a mesma frequência dos sites de hard news. No site em português, há praticamente uma publicação diária. O site sempre tem uma manchete principal e três destaques. E um detalhe importante: jornalistas colaboradores são pagos. 

No sábado passado (15 ago. 2020),  a manchete de capa era uma notícia sobre os dados mais recentes do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP): 242 focos de incêndio na Amazônia Legal brasileira entre 28 de maio e 12 de agosto, “quase a área do município de São Paulo”.  

Entre os destaques, uma reportagem assinada pelo jornalista Dimas Marques, criador do site Fauna News, explicando “como funciona o comércio ilegal que transforma papagaios livres em pets”, publicada no dia 13 agosto. O crime aconteceria anualmente no bioma Cerrado entre agosto e novembro.  

Em outro destaque na capa do site em português, Tiffany Higgins alerta: “O governo federal planeja escavar e dragar milhões de metros cúbicos de rochas e areia do Rio Tocantins no Pará – inclusive no delicado ecossistema conhecido como Pedral do Lourenço, habitat de espécies endêmicas de peixe”. 

Mongabay foi lançado em 1999 como um site de divulgação científica sobre florestas tropicais. A transformação em agência de notícias internacional ganhou fôlego em 2012 com a contratação de uma equipe na Indonésia. Em 2016, Rhett Butler lançou o serviço em espanhol focado na América Latina e no ano passado chegou ao Brasil.

O nome Mongabay é uma homenagem do ambientalista Rhett Butller a uma pequena ilha (Nosy Mangabe) localizada no nordeste de Madagascar considerada um paraíso da vida silvestre. O logo da agência de notícias é inspirado em um pequeno lagarto (day gecko) que vive naquela região. 

A Mongabay não é o único serviço estrangeiro que cobre meio ambiente no país. Pautas ambientais também fazem parte do noticiário da Agência Inter Press Service (IPS), El País Brasil, The Intercept Brasil, Le Monde Diplomatique Brasil, BBC Brasil e Deutsche Welle Brasil.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A explosão em Beirute e as verdades que o jornalismo insiste em não contar

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Por Ursula Schilling*

Uma imagem que lembra um cenário de guerra. Assim foi o momento da explosão em um depósito portuário de nitrato de amônio em Beirute, capital do Líbano. Assim também serão muitos dias para as milhares de pessoas afetadas pelo evento. Foram quase três mil toneladas da substância que viraram uma nuvem em formato de cogumelo, muito semelhante a uma bomba atômica. Acredite, isso não é uma coincidência. 

O acontecimento tomou conta dos noticiários. Mídias impressas, televisivas, radiofônicas e digitais deram (e seguem dando) amplo espaço à questão, atendendo a critérios jornalísticos de noticiabilidade. O Jornal Nacional de 5 de agosto, um dia após a tragédia, dedicou 5 minutos – um tempo expressivo quando falamos de TV – ao assunto, mas, como a maioria dos veículos, não passou da superfície da notícia em sua abordagem. 

Foi uma cobertura-padrão: o primeiro minuto e meio trouxe os números oficiais de mortos e feridos e uma sequência de imagens de agências de notícia sobre a explosão e os instantes seguintes. Depois, hipóteses para a explosão, o pronunciamento do governo libanês, segundo o qual o depósito estocava o material de forma incorreta há seis anos (seis anos!). Uma das preocupações, além da evidente destruição, são os problemas respiratórios que a liberação de gases vai causar. Aos que ainda têm suas casas, as autoridades estão pedindo que evitem sair. 

Na sequência, o de sempre: mobilização internacional, mensagens de solidariedade, buscas por soterrados, prejuízos financeiros. Falou-se em instabilidade política e até em terrorismo. Mencionou-se a iminência de escassez de alimentos, reforçando o mito de que somente com as monoculturas de commodities, que acarretam ampla utilização de agroquímicos, é possível alimentar o mundo. 

A essa altura, o leitor deve se perguntar “mas e o jornalismo ambiental?”, “não é este um observatório para analisar tópicos relativos ao tema?”. O nitrato de amônio é a base para muitos fertilizantes sintéticos amplamente utilizados em diferentes tipos de cultivo. Na continuação da matéria sobre o desastre em Beirute, durante mais quatro minutos, o Jornal Nacional apontou a substância, que tem nitrogênio em sua fórmula, como essencial para a agricultura. Para justificar sua utilização, apesar dos riscos, trouxe diferentes “vozes de autoridade”. Um engenheiro agrônomo e a ANDA – Associação Nacional de Difusão do Adubo – que definiram a substância como fundamental para a qualidade de vida das pessoas –, ambos defendendo o caráter comum, estável, seguro (supostamente mediante o manejo correto) do composto, cujas entrada no Brasil, estocagem, e manipulação são controladas pelo Exército. 

Trabalhadores da indústria dos fertilizantes não foram ouvidos. Pessoas afetadas pela sua produção, incluindo por eventos como explosões, tampouco. Estudiosos que defendem a agroecologia, nem falar. Prevalece o viés da necessidade pela “segurança alimentar” e pela empregabilidade das pessoas. É a prevalência da lógica do “Agro é pop”, defendida pela emissora do programa em questão. Além disso, nada foi dito sobre a história dos fertilizantes, originalmente utilizados pela indústria bélica para a fabricação de bombas. Os “adubos” vieram somente depois, haja a vista a necessidade de lucro, encontrar utilidade para o produto e manter o negócio após a grandes guerras. É um caminho obscuro de interesses, lobbies e incontáveis mortes. Esses produtos, sem falar nos agrotóxicos utilizados em larga escala, estão na nossa mesa diariamente. Isso sequer tangenciou a cobertura. 

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Qual é a solução? É a realização de um jornalismo mais “alargado”, como propõem as discussões acerca do jornalismo ambiental. Afinal, quase todas as pautas são ambientais – habitamos este mundo e nossa existência está ancorada nos seus recursos (naturais). Começar questionando aquilo que é tido como “fato dado” é um ponto de partida importante. É pelo questionamento que se chega ao ímpeto de mudança, uma mudança com potencial de gerar real transformação. 

Os valores-notícia são importantes, mas devem acompanhar o aperfeiçoamento e a busca por conhecimento por parte dos jornalistas. Não basta responder às perguntas “o quê, quem, como e onde”. Os “porquês” devem ser explorados com mais profundidade e compromisso com o papel/potencial educativo que as mídias de massa têm. A TV aberta, por exemplo, segue sendo a que tem maior alcance entre os brasileiros. 

É preciso romper a superfície dos fatos. É preciso contar histórias mais completas, suscitar o debate, provocar a reflexão. Por ora, nesses quesitos, o jornalismo hegemônico, quase como um todo, tem falhado miseravelmente. 

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Lições dos (a)típicos fenômenos climáticos para o jornalismo

Fonte: Captura de Tela do site de Zero Hora

Há cerca de um mês, a palavra ciclone-bomba tornou-se comum nas conversas cotidianas dos brasileiros da Região Sul e no repertório do jornalismo. No dia 30 de junho, 12 pessoas morreram em Santa Catarina, Paraná, e Rio Grande do Sul, e outras milhares ficaram desalojadas devido ao vendaval que alcançou 168 km/h em alguns locais.

Uma semana depois, no dia 7 de julho, outro ciclone extratropical, mas de ventos menos intensos, provocou chuvas fortes no Estado gaúcho. Rios, já cheios do fenômeno anterior, transbordaram. No dia 11 de julho, 7,1 mil gaúchos estavam desalojados ou desabrigados e, até 20 de julho, 194 pessoas permaneciam fora de suas casas.

No centro do debate sobre a tragédia gerada por ambos os fenômenos – uma amostra de quadros que poderão ser cada vez mais comuns no futuro e que não podemos dissociar dos eventos que atingiram o Rio Grande do Sul – deveriam estar as mudanças do clima. Cabe lembrar que, há poucos meses, uma estiagem, abordada por Ângela Camana neste Observatório, impactava, ao menos, 70% dos municípios do Estado.

Embora não haja consenso científico sobre esses fenômenos meteorológicos decorrerem das mudanças climáticas, sabe-se que a alternância de situações extremas, da falta de chuva ao seu excesso, é um dos sinais que cientistas apontam estar relacionados às alterações do clima. Essa é uma das conclusões da reportagem de Zero Hora que indicou propostas possíveis para mitigar os efeitos desses desastres ambientais, como promover ações integradas entre prefeituras, construir estruturas públicas de absorção de água, oferecer programas de habitação para moradores de áreas de risco e usar tecnologias eficientes.

Inspirado na noção de jornalismo de soluções, que busca resoluções para problemas sociais, o texto de Zero Hora oferece ideias de caminhos que a gestão pública pode trilhar. Mas o problema é complexo e, sobretudo, humano. Os habitantes de áreas de risco, não têm suas vozes ecoadas na reportagem. O destaque coube a pesquisadores e autoridades da Defesa Civil. A falta de espaço aos atingidos pelas enchentes não se restringiu a essa matéria, mas pôde ser notado de modo reincidente na cobertura de diversos jornais da imprensa gaúcha.

Fonte: Lauro Alves para Agência RBS

Em notícia de 02 de julho, o Jornal do Comércio tratou dos impactos do ciclone-bomba com base nas informações da Defesa Civil, sem, no entanto, ouvir pessoas que presenciaram os momentos de pânico. No Correio do Povo, a cobertura da enchente na Capital Gaúcha foi mais ampla que a realizada no Vale dos Sinos. Ao passo que uma notícia sobre o desalojamento de famílias do arquipélago de Porto Alegre realizou entrevistas com as pessoas atingidas, outra matéria, também sobre famílias que sofreram com a inundação, agora em São Leopoldo, usou apenas as informações disponibilizadas pela secretaria municipal.

Desastres como esses, provam a necessidade de o jornalismo ver humanidade em cada número da Defesa Civil. Especialmente considerando a constância das enchentes nas bacias hidrográficas que abastecem o Guaíba, os dois ciclones não devem ser tratados como fenômenos traumáticos já superados, ou já saturados. São exemplos da necessidade de empenho da gestão pública quanto à mitigação, e de uma discussão mais aprofundada, no âmbito das notícias locais, que possibilite conectar a maior seca dos últimos anos, seguida, semanas depois, de uma enchente histórica, com as alterações climáticas que aí se manifestam.

As milhares de pessoas fora de casa no estado perderam bens, passaram frio, sofreram medo de saques em suas residências, sem esquecer, é claro, dos riscos em função da pandemia do Coronavírus. O jornalismo pode, mais do que contar a tragédia, se deixar impregnar pelos narrares de quem sofreu com a força dos ventos ou a invasão das águas em seus lares, ouvindo as suas demandas, e pautando, com maior complexidade, os desafios que esses fenômenos climáticos geram.

* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: mathias.lengert@gmail.com

Manchas de óleo voltam a aparecer no Nordeste: uma nova chance para pluralizar a cobertura

Print UOL 22.06

Imagem: Reprodução retirada da matéria do Uol de 22/06/2020.
Por Eloisa Beling Loose*

O ano de 2019 foi um ano repleto de grandes tragédias ambientais no Brasil. Começou com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho-MG e seguiu com aquelas já há anos conhecidas desencadeadas pelas fortes chuvas (porém, provocadas por uma série de problemas de gestão e ausência de políticas públicas), especialmente no Sudeste. Depois disso, o vazamento de óleo na costa nordestina, as queimadas e o avanço do desmatamento na Amazônia – só para citar os acontecimentos de maior envergadura. Em razão do alto impacto negativo, número de afetados, conflitos e dramaticidade envolvida em todos os casos, tais eventos permaneceram por muito tempo sob os holofotes da imprensa, sobretudo o vazamento de óleo, que ainda somava aos valores-notícia já citados o fator de ineditismo. Contudo, não basta que haja um acompanhamento da imprensa durante a tragédia. É preciso pensar no que está sendo dito, de que forma e por quem.

Na última semana voltaram a aparecer fragmentos de óleo em praias de diferentes estados do Nordeste. Conforme análises preliminares, aparentam ser do mesmo tipo daquele que se alastrou na costa do Nordeste no ano passado, decorrentes uma fase pós-vazamento, acarretada por fatores meteorológicos que revolveram o material que estava sedimentado no fundo do mar ou preso em corais. De acordo com informações divulgadas em março pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o vazamento de óleo tinha atingido até então 1.009 localidades, de 11 estados e 130 municípios brasileiros – mas, como podemos perceber, os efeitos do vazamento não cessaram. O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que esse foi o maior desastre ambiental da história no litoral brasileiro em termos de extensão.

As notícias recentes foram dadas por vários veículos, como G1, CNN Brasil e JC. O Uol publicou uma matéria mais extensa, na qual trata do aparecimento de restos de borracha também, lembrando que o ambiente afetado ainda não se recuperou. O reaparecimento das manchas é, no âmbito do jornalismo, um novo gancho ou gatilho, uma oportunidade para retomar esse assunto que, embora tenha sido foco de atenção da mídia por um longo período, ainda não tem respostas quanto ao volume e à origem do petróleo vazado, e nem quanto aos prejuízos e danos gerados a médio e longo prazo. Mesmo sendo uma tragédia sem precedentes por aqui, após a retirada da parte visível do problema e a falta de algum aspecto novo na investigação, suas consequências pararam de ser noticiadas.

Em levantamento feito sobre a cobertura ambiental do Jornal Nacional em 2019, o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA) verificou que a primeira matéria sobre o assunto é de 27 de setembro, quase um mês depois do seu surgimento, quando as manchas já atingiam nove estados, e que o assunto permaneceu na agenda até 30 de dezembro, totalizando 63 notas ou reportagens sobre o tema ao longo dos quatro meses em análise, em 44 edições, totalizando pouco mais de duas horas de cobertura sobre o assunto. O gráfico abaixo mostra que em outubro há um volume maior de reportagens que são, aos poucos, substituídas por notas cobertas (com imagens da tragédia) e notas peladas (quando apenas os apresentadores narram alguma informação):

Gráfico JN
Fonte: GPJA (2020).

Em dezembro de 2019 há apenas duas notas de 20 segundos sobre o assunto, uma sobre o auxílio-emergencial destinado aos pescadores (13.12) e outra sobre o retorno das manchas no Ceará (30.12). O arrefecimento da atenção da imprensa se dá porque inexistem novos fatos sobre a situação e as narrativas sobre os processos e fenômenos de duração lenta (como a contaminação que persiste nas águas e na cadeia alimentar, por exemplo) são ainda desafios que se impõem, cada vez mais, à lógica jornalística de reportar o que pode é palpável.

Uma análise mais específica sobre o derramamento de óleo em questão, coordenada pelo Intervozes e denominada “O Vozes Silenciadas – a cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira” (2020), foi realizada a partir de veículos de abrangência nacional e regional, e corrobora com nossa análise preliminar. O estudo identifica que o tema demorou quase um mês para receber visibilidade, deixou de ser coberto mesmo quando havia questões em aberto, fez uso recorrentes de fontes oficiais (não dando voz às comunidades locais e povos tradicionais, os mais afetadas pela contaminação) e pouco discutiu as versões. Mesmo tratando do tema diariamente, as informações não tinham contraponto ou aprofundamento e se baseavam no dito “jornalismo declaratório” – alimentado por um governo descomprometido com a questão ambiental.

O reaparecimento de fragmentos de óleo é uma nova chance para que o jornalismo trate daquilo que, no calor do momento, não foi possível abordar. Mais do que atualizar o contexto do desastre, é possível ouvir todas e todos que podem narrar suas experiências diante dos sinais, às vezes, vagarosos de degradação do ambiente e das mudanças geradas em suas vidas. As considerações do estudo do Intervozes destacam que o jornalismo, em seus diferentes formatos e alcances, deve se reinventar, pois “[…] ao darem espaço privilegiado a tais atores, os veículos reforçam o seu lugar de poder e, ao não promoverem, como deveriam, o confronto de ideias com outros segmentos sociais, com igual espaço de fala, legitimam as declarações oficiais como a verdade dos fatos”.

Diante disso, seguimos acreditando que as análises científicas sobre o trabalho da imprensa possam contribuir com outras formas de registro jornalístico; que o retorno das manchas de óleo possa servir agora para uma leitura menos apurada e mais plural dos efeitos da tragédia; e que o jornalismo possa se pautar mais sobre critérios de relevância e cuidado com a vida do que com a dramaticidade ou o apelo de uma imagem.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

Quem tem medo do jornalismo engajado?

Fonte: Captura de Tela do site do projeto “De olho nos ruralistas”

Por Débora Gallas Steigleder*

“Faça textos imparciais e objetivos”, recomenda o Manual de Redação do jornal O Estado de São Paulo aos editores, repórteres e redatores da empresa. De fato, a precisão é um valor essencial à produção noticiosa. Um texto baseado em juízos de valor, além de não informar, pode confundir e desorientar. Não é jornalismo, portanto. Porém, proponho aqui entender a função do jornalismo para além de categorias que aparecem a ele associadas de forma recorrente, como “imparcialidade”, “objetividade” e “neutralidade”.
O engajamento não nega o ímpeto de perseguir a objetividade enquanto método de apuração e verificação dos fatos, mas rompe com a crença de que o jornalista consegue se despir de sua subjetividade no exercício da atividade. Por isso, costuma ficar de fora do rol dos ideais identificados com o jornalismo. Quando defendemos o engajamento como um elemento característico do jornalismo ambiental, entendemos que se trata de um caminho para garantir coerência com a pauta abordada.
As críticas ao engajamento envolvem o temor de que o jornalismo flerte com o ativismo e que isso levaria à perda de credibilidade. No entanto, o momento atual é de disputa pela sobrevivência. Para conectar o público a pautas de urgência como o caos climático e a conexão entre a devastação ambiental à propagação da pandemia do COVID-19, é necessário agregar às estratégias de sensibilização do público formatos que ultrapassem a impessoalidade associada ao jornalismo tradicional e ilustrem as conexões entre os fenômenos da realidade.
Iniciativas derivadas de posturas engajadas têm como aspectos positivos a transparência sobre a orientação político-ideológica e a independência em relação ao financiamento, já que um veículo com posicionamento crítico ao agronegócio não aceitará publicidade ou patrocínio desse setor, por exemplo. É o que propõe o projeto De Olho Nos Ruralistas ao repercutir o processo de devastação ambiental sob o governo de Jair Bolsonaro.

No dia 26 de maio, o texto de Alceu Luís Castilho informou detalhadamente as entidades responsáveis por veicular anúncio de apoio à gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente. A publicação retomou levantamento realizado pelo próprio portal em 2019 com a lista de empresas que financiam a Frente Parlamentar Agropecuária através de associações do agronegócio brasileiro. O assunto foi retomado por conta do discurso de Salles durante a reunião ministerial de 22 de abril, em que o ministro defendeu aproveitar o foco da cobertura jornalística da pandemia para “ir passando a boiada” e afrouxar ainda mais os regramentos das políticas públicas ambientais. Na mesma semana, também repercutindo a frase de Salles, Observatório do Clima, ClimaInfo e Greenpeace Brasil iniciaram uma campanha nas redes sociais intitulada #nomeaosbois, pela qual cobraram posicionamento público das empresas representadas pelas entidades que assinaram o manifesto em apoio ao ministro. Neste caso, o jornalismo engajado esteve em sintonia com outras estratégias de comunicação que buscaram dar visibilidade à pauta e mobilizar o debate público sobre as responsabilidades do governo e do setor privado na crise ambiental.
Esta ampliação do diálogo entre jornalismo e outros atores é um movimento muito importante no contexto atual de devastação dos biomas brasileiros que pode ser irreversível. Não temos mais tempo: o jornalismo precisa incorporar novos elementos de sensibilização do público para atentar à urgência do tema. Isto não significa renunciar aos seus princípios e valores ou às formas já consolidadas da atividade jornalística; significa, apenas, a ampliação de possibilidades nas coberturas. A pluralidade de olhares e abordagens será bem-vinda para uma mobilização social representativa.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Do que não podemos esquecer: o agravamento do descaso ambiental

Imagem: Captura da tela de notícia da Folha de S. Paulo

Por Eloisa Beling Loose*

Com a expansão do contágio da Covid-19, o aumento do número de mortes e os inúmeros efeitos sociais e econômicos derivados da maior crise sanitária da contemporaneidade, é esperado que a atenção da imprensa se volte, de maneira massiva, para o entendimento desse assunto. Contudo, recordemos que outras pautas continuam sendo relevantes e até urgentes, e não devem ser deixadas de lado. 

A necessária quarentena não pode ser cumprida por muitos e ainda há aqueles que percebem esse silenciamento do poder público sobre outros assuntos como oportunidade para lograr benefícios indevidos. E a emergência ambiental continua em curso. Mesmo que de forma não sistemática, é o que alguns veículos têm apontado nos últimos dias em relação à situação de intensificação de crimes ambientais nesse momento de suposto isolamento social e de sobreposição de crises.

O crescimento das queimadas nesse período já foi registrado em biomas brasileiros. De acordo com notícia da Folha de S. Paulo, a área queimada no Pantanal é a maior já registrada pelo Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em um início de ano – período que não corresponde à estação do fogo. Além de afetar a conservação da biodiversidade, a fumaça causa uma série de problemas respiratórios – o que amplia a procura por hospitais e a demanda por respiradores em pleno enfrentamento contra a Covid-19. 

Na Amazônia, as queimadas relacionam-se ainda com o desmatamento, grilagem e mineração de terras indígenas. O fotógrafo Sebastião Salgado lançou um manifesto de proteção aos povos indígenas divulgado por vários meios de comunicação, que chamou a atenção para o agravamento dos riscos relacionados à Covid-19 em terras que estão sendo invadidas e incendidas. Em matéria do El País, há um breve panorama sobre a ameaça da pandemia nas populações indígenas na região da fronteira tripartite, historicamente dizimadas por epidemias levadas pelos brancos, mas que sofrem ainda mais com o afrouxamento da vigilância e a falta de políticas públicas que pensem no seus modos de vida.

Em notícia produzida pelo Repórter Brasil e publicada no UOL, faz-se o alerta em relação à situação da população da região amazônica, na qual os efeitos das queimadas avulta a gravidade das internações de crianças nesse período de seca da floresta, que vai de maio a outubro. Segundo a Fiocruz, nesta época, o número de internações de crianças com doenças respiratórias dobra nas áreas mais afetadas pelo fogo; acrescenta-se isso à procura por leitos em razão do coronavírus e podemos ter uma combinação catastrófica. Ao final, informa-se que o governo federal decretou uma Garantia da Lei e da Ordem, de modo a mobilizar os militares para o combate ao desmatamento e focos de incêndio, a partir desta segunda-feira (11 de maio). Porém, o fechamento do texto retoma a ideia de que os grileiros, madeireiros e garimpeiros não fazem home office, sublinhando o quão negligente tem sido o governo em relação ao cuidado socioambiental.

As ações governamentais de resposta são lentas e tendem a minimizar o problema, como já ocorreu no ano passado. Também há pressão política, sobretudo da bancada ruralista, em aprovar a Medida Provisória 910/2019, que beneficia com anistia desmatadores e grileiros de terras públicas – o que seria um claro incentivo às queimadas, somado à redução de equipes de fiscalização na rua. É preciso que o jornalismo seja sentinela dos assuntos que impactam nossa sobrevivência no presente e futuro. A cobertura da pandemia de Covid-19 não pode encobrir ou servir de justificativa para minimizar os problemas ambientais que seguem assolando nossos ecossistemas.  

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

A dimensão socioambiental do coronavírus através de relações ecossistêmicas e interespécies

Por Matheus Cervo*

É impossível não falarmos do novo coronavírus (COVID-19) em uma publicação de abril de 2020, já que parte da emergência da pandemia se dá devido uma teia de relações interespécies. Através de uma matéria veiculada pelo canal do YouTube do Vox chamada How wild life trade is linked to coronavirus (Como o comércio da vida selvagem está ligado ao coronavírus) em 06 de março de 2020, percebe-se que a emergência do novo coronavírus possui uma longa trajetória de relação entre humanos e não humanos na China. Há evidências de que o COVID-19 surgiu de complexas relações interespecíficas entre morcegos, pangolins e humanos. 

Peter Li, professor associado da universidade de Houston-Downtown,  afirmou que o surgimento contínuo de viroses não é uma surpresa para nenhum especialista em trocas comerciais que envolvem animais na China, já que os animais ficam enjaulados em cubículos de metal e empilhados uns em cima dos outros para abate no mesmo local de comércio. Claro que essa modalidade de venda de animais não é uma especialidade chinesa, mas alguns mercados, como o “wet-market” de Wuhan, oferecem uma variedade extasiante de animais silvestres para consumo culinário humano, gerando uma peculiaridade em torno da emergência do COVID-19.

O início dessa especificidade comercial ocorreu com uma decisão do governo comunista chinês na data de 1970 que, controlando toda produção de comida, falhou em fornecer alimentação para a população. Na beira do colapso, o governo chinês, em 1978, permitiu que a produção fosse realizada no âmbito privado e, para sustentação dessa agricultura familiar emergente, muitos animais silvestres começaram a ser criados. A mudança na lei de proteção da “vida silvestre” em 1988 designou os animais silvestres como “recursos pertencentes ao Estado” e ofereceu proteção às pessoas que estavam engajadas nesse tipo de produção.

Em 2003, a SARS surgiu em um dos “wet-markets” em Foshan na província de Guandong através da comercialização do gato civeta. Uma notícia da Associated Press foi veiculada neste mesmo ano demonstrando que o governo chinês voltou com a permissão de exploração de múltiplas espécies da vida silvestre para comercialização após o surto. De acordo com a matéria do Vox, essa prática se transmutou durante as últimas quatro décadas: esse mercado cresceu para uma indústria de 148 bilhões de yuans (106 bilhões de reais). Nessa mesma matéria, Peter Li afirma que não é a população mais pobre da China que consome em grande escala esse tipo de carne atualmente, mas, sim, uma minoria de classes mais altas que acreditam nas propriedades milagrosas de produtos exóticos como estes. 

Em 2020, novamente a Associated Press lança uma matéria semelhante à 2003: China temporarily bans wildlife trade in wake of outbreak (China temporariamente bane as trocas de animais silvestres após surto). A história se repete. Acredito que devemos nos perguntar: será que nossas narrativas estão se repetindo na pandemia do novo coronavírus e será que vamos falhar de novo em compreender que a questão sanitária é uma questão socioambiental?

*Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605. Email: cervomatheus@gmail.com

A articulação entre meio ambiente e saúde para um mundo pandêmico

Fonte: Wikimedia Commons
Por Michel Misse Filho*

Uma breve visita aos principais jornais e sites do Brasil e do mundo mostra, indubitavelmente, que quase não há outro assunto possível senão a pandemia instalada em função do novo coronavírus. A pauta ambiental chegou a conseguir algum espaço na grande mídia, sobretudo com as supostas “boas notícias” das claras águas dos canais de Veneza e a diminuição da poluição do ar – temas já tratados neste Observatório.

Tendo em vista sua capacidade de letalidade em curto prazo, o alastramento da pandemia assusta o mundo, em poucos meses, talvez de forma mais intensa do que a própria crise climática. Não nos confundamos, contudo: é fato de que se trata de assuntos complementares, não excludentes. A conexão é feita, por exemplo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ao identificar o coronavírus como zoonótico (transmitido de animais para pessoas) e, portanto, “reflexo da degradação ambiental”. Aproveitemos a oportunidade para realçar o caráter interdisciplinar que compreende a questão ecológica, umbilicalmente ligada às áreas de saúde e ciência. No jornalismo não é diferente, tendo em vista a raiz comum do jornalismo científico, a que as áreas de saúde e meio ambiente se nutriram enquanto especialização temática.

Importa saber que, concomitantemente, problemas ambientais são também problemas de saúde pública. Lembremos, por exemplo, uma matéria de janeiro do G1, na editoria de “Ciência e Saúde”, sobre o descobrimento de 28 vírus desconhecidos nas geleiras do Tibete. A notícia – que sequer menciona o covid-19- alerta para a possibilidade de que, com a crise climática e o derretimento dos gelos glaciais, uma série de vírus sejam liberados e contaminem seres humanos. O perigo do derretimento do permafrost não é um assunto totalmente novo, mas que talvez ganhe outra dimensão no cenário pós-pandemia. A relação entre preservação ambiental e a disseminação de doenças também foi abordada por esta reportagem do canal “Repórter ECO”, de 25 de março, cujo foco é na disseminação de vírus a partir da destruição de habitats específicos aos quais ficavam restritos. 

O contrário é igualmente verdadeiro: problemas de saúde também dizem respeito ao meio ambiente. Vemos como exemplo, nesta notícia do site O Eco, publicada dia 25 de março, a preocupação de cientistas para a proteção dos grandes símios (chimpanzés, gorilas, bonobos e orangotangos), ameaçados de extinção, e possivelmente suscetíveis a patógenos que afetam seres humanos. A carta foi publicada por 26 cientistas na revista Nature e, apesar de sugerirem o fechamento de parques nacionais e reservas, a questão se torna ainda mais complexa pela possibilidade de, sem presença humana, aumentar o risco de caça a esses animais.   

    Parece-nos ainda cedo para especular sobre como os assuntos ambientais serão tratados após a atual crise. Cenários de generalizada conscientização global a favor das pautas ambientais podem soar otimistas e utópicos em excesso, apesar de serem o horizonte a ser buscado. Independente de projeções, fica o alerta para o tratamento da questão ambiental em sua dimensão mais ampla, lado a lado com a saúde, sempre guiados pelo conhecimento científico. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

A COVID-19 não irá salvar o meio ambiente

Fonte: Captura de tela do site BBC Brasil
Por Nicoli Saft*

Em meio à pandemia da COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, alguns veículos jornalísticos estão tentando encontrar um lado bom da crise no meio ambiente. São notícias que falam sobre os canais aparentemente limpos de Veneza e um suposto ar puro em países confinados.
Entretanto, nas mesmas matérias, podemos perceber que a situação não é tão boa quanto os títulos fazem parecer.

Os canais de Veneza aparentam estar limpos devido à diminuição do tráfego de barcos – com o movimento na água reduzido, os sedimentos ficam acumulados no fundo. A própria Prefeitura de Veneza afirmou que a poluição da água não diminuiu. Já o “ar puro” nos locais onde há confinamento em razão do coronavírus é causado pela diminuição de dióxido de nitrogênio (NO2) na atmosfera. A queda na concentração é, sim, devido à paralisação de indústrias e à diminuição de carros, entretanto o ar não está puro, já que foram detectados episódios de poluição por partículas finas (PM2,5 e PM10) na China e na França, países que estão em regime de quarentena.


A primeira matéria citada, do G1, trata de maneira que considero adequada acerca dos canais italianos. O título é apenas uma constatação, e já no subtítulo informam que a poluição se mantém. Uma curta notícia da Veja SP sequer menciona a presença de poluentes, apenas questiona a “sustentabilidade ecológica dessa atividade (turismo) na região”, sem esquecer de mencionar a perda econômica que a pandemia trouxe.

Notícias falsas ganharam as redes sociais afirmando que golfinhos voltaram a frequentar os canais de Veneza, assim como cisnes e peixes. Como mostra essa reportagem da National Geographic ( em inglês), as imagens dos golfinhos foram na verdade registradas em Sardinia, uma ilha italiana no Mar Mediterrâneo; e os cisnes e peixes não são incomuns em algumas regiões de Veneza, ao contrário do que esta matéria da revista Fórum faz parecer. O mesmo texto menciona a declaração da prefeitura e linka um tweet denunciando as fake news sobre o assunto, mas também dá espaço a outro tweet reafirmando a água limpa de Veneza e o ar puro de Hong Kong.


A matéria sobre a qualidade do ar, aliás, é da Agence France-Press, uma das mais requisitadas agências de notícias do mundo e foi republicada por diversos veículos. Entretanto, ela mesma se desdiz. A maioria dos efeitos mais graves da poluição do ar são causados por exposições à longo prazo, e não temos como saber qual o impacto da pandemia na poluição nesse período. Existem aqueles que são otimistas e acreditam que a crise irá modificar os hábitos de consumo das pessoas mesmo após a pior fase ter passado, como mostra essa matéria da BBC , entretanto são apenas suposições .


Nesses tempos obscuros, ficamos desesperados por uma notícia boa. Desesperados, ficamos suscetíveis a notícias falsas. Jornalistas também querem dar notícias boas, mas precisam ter cuidado para não propagar informações errôneas e alimentar falsas esperanças. O meio ambiente não será salvo se apenas ficarmos em casa. Não vamos conseguir voltar atrás de todo o mal que causamos ao planeta em alguns meses de reclusão, infelizmente. O jornalismo não deve alimentar a ideia de que a COVID-19 será boa para o meio ambiente.

Nesta hora temos que nos lembrar de quem serão os mais afetados, se serão aqueles que mais poluem ou se serão aqueles que são impossibilitados de manter o distanciamento social. Aqueles que não terão condições de pagar um tratamento particular se infectados e aqueles que já são negligenciados pelos nossos sistemas. O jornalismo precisa de responsabilidade.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).