A destruição criminosa do pantanal pelas chamas, numa calamidade sem precedentes para a biodiversidade brasileira, tem recebido destaque da mídia nas últimas semanas. No embalo da catástrofe pantaneira, os focos de incêndio na Amazônia — também recorrentes no noticiário nacional — chamam, assim como em 2019, a atenção do mundo para o Brasil, num amálgama de dados: hectares, valores econômicos, número de focos de incêndios e retrospectivas de séries históricas.
Este é também um daqueles momentos em que, infelizmente pelas piores razões, a pauta ambiental extrapola seu próprio nicho e se desenrola por toda a agenda nacional em múltiplas nuances. Torna-se enredo dramático e heroico, no combate às chamas e resgate de animais; policial-investigativo, na busca pela origem do fogo; político, alavancado por um governo federal marcado pelo desmonte ambiental; econômico, pelo oportunismo verde de conglomerados empresariais e projeções para o agronegócio brasileiro; diplomático, na esteira do discurso do presidente da República na Assembleia Geral da ONU; e ético, também como desdobramento do negacionismo explícito que paira sobre o Planalto Central.
Em termos jornalísticos, a cobertura é importante por ultrapassar as barreiras do que seria um “nicho ambiental”, embora percebamos, com isso, um dilema recorrente: o meio ambiente é pautado quando excede a si mesmo — efeito de um já naturalizado modus operandi jornalístico. E o problema é que, como já foi destacado em pesquisas da área e neste observatório, na ampla maioria dos casos, essa extrapolação se dá em situações de desastres ambientais, reforçando a ideia de que o meio ambiente só vira notícia quando sofre perigo.
O olhar para o futuro (capacidade de projetar cenários) pode ser uma das saídas possíveis a esse dilema, dispondo de visão sistêmica não motivada, necessariamente, pelo acontecimento factual de um desastre como os incêndios — mesmo que essa projeção se dê em função de evitar o agravamento futuro de situações já calamitosas. A projeção é um recurso interessante, desde que atenta para não se distanciar espacial e temporalmente do leitor. No caso da emergência climática, decorrente do aquecimento global, por exemplo, é comum a perspectiva de longo prazo, como nesta matéria da BBC publicada pelo G1, que mostra os mapas de previsões dos impactos até 2100. O texto peca, no entanto, ao negligenciar os impactos sociais, dando a impressão de problemas restritos à uma “natureza” (termo que, aliás, nomeia esta editoria do G1) e não à sociedade, como se este tipo de distinção fosse possível.
Mais interessante para a nossa análise é a notícia da France Presse (também publicada no G1), de que o 1% mais rico da população mundial emite o dobro de CO2 que a metade mais pobre, esta última justamente a que mais sofrerá com a emergência climática. Coloca-se o assunto, assim, na alçada da justiça social e aumenta seu interesse público. Para ficar apenas nos veículos da mídia tradicional, vale pontuar também o debate promovido e publicado pelo jornal O Globo, que aborda potenciais econômicos e desafios ambientais da Baía de Guanabara. Sem entrar no mérito das propostas, a iniciativa é interessante por, justamente, integrar um assunto ambiental à sociedade numa perspectiva cotidiana — por vezes invisível à lógica jornalística — de um olhar de médio prazo, sem a necessidade de um desastre ambiental que alavanque a pauta.
Descortinar os impactos positivos, isto é, o potencial que a preservação ambiental pode legar à vida social, parece ser um caminho promissor para tratar daquilo que é eminentemente socioambiental, interseccionando as justiças ambiental, social e racial.
* Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com
Imagem: Capturas da tela de notícia do National Geographic Brasil
Por Eloisa Beling Loose*
Nesta última semana, veículos de comunicação tradicionais, como IG e Exame, por exemplo, cobriram o Dia da Amazônia (5 de setembro) com a mensagem de que não tínhamos muito a comemorar, afinal agosto registrou o maior volume de queimadas do ano e o segundo maior da década, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O problema se estende ao Pantanal, que arde em chamas e tem sido alvo da atenção da imprensa em diferentes veículos (Estadão, G1, Uol, Repórter Brasil,National Geographic Brasil, dentre outros), afinal, os focos de incêndio entre janeiro e agosto deste ano equivalem a tudo o que queimou no bioma nos seis anos anteriores, de 2014 a 2019, provocando muitas mortes e destruição.
No último dia 11, efeméride para mobilizar a preservação do Cerrado, o Correio Braziliense alertou: “[…] a degradação da savana é similar, ou até maior, ao desflorestamento na Amazônia, o que faz alguns pesquisadores afirmarem que, se assim persistir, o bioma poderá desaparecer em grande parte até 2030”.
Embora esses biomas tenham recebido mais visibilidade nos últimos dias, todos estão sendo devastados. A destruição da biodiversidade gera extinção de espécies, desequilíbrio dos serviços ecossistêmicos e agrava ainda mais as consequências das mudanças climáticas.
A Mata Atlântica, que compreende quase todo litoral brasileiro, é que vem sendo mais afetada desde o processo de colonização portuguesa e segue sendo pressionado, principalmente, pela expansão desordenada as cidades. Em julho, a Galileu reportou um estudo feito na Caatinga pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que aponta a perturbação antrópica crônica (construção de estradas de terra, pilhas de madeiras, gado, lixo, por exemplo) como um dos fatores que gera forte impacto na degradação dos biomas, sendo tão significativa quanto o desmatamento.
Já o Pampa, quase sempre silenciado pela imprensa nacional, não ficou imune à lógica da destruição: o Inpe verificou um aumento de 343% no número de ocorrências no primeiro semestre de 2020, em relação ao mesmo período no ano anterior, e a região ainda enfrenta as ameaças geradas pela exploração de minérios. A série de reportagens chamada Devastação no Pampa, o bioma esquecido, publicada no dia 8 pelo Colabora, detalha como o avanço do agronegócio e a exploração de minérios coloca em risco o modo de vida tradicional dos pequenos pecuaristas, considerados guardiões da biodiversidade, e impede a preservação do pasto nativo.
Imagem: Captura da tela de reportagens no site Colabora
O jornalismo tradicional segue atento àquilo que foge à dita “normalidade” e, por isso, os números recordes de queimadas, as efemérides, os novos estudos e as cenas chocantes de animais sendo mortos no Pantanal trazem a pauta à tona. Mas, em um mundo no qual o futuro é cada vez mais incerto, onde está a anormalidade?
Quando a imprensa naturaliza a deterioração do planeta, o processo destrutivo deixa de ser notícia. Quando o argumento econômico não é questionado, todo o resto é apresentado como inevitável – quando, de fato, não o é.
Diante de um projeto de devastação em larga escala, que atinge todos os biomas brasileiros, cabe ao jornalismo observar de forma mais panorâmica as causas ou as cadeias de relação que permitiram (e permitem) que o discurso do progresso desmate, queime e altere vidas orientada pela maior “oportunidade” de lucros. Os negócios baseados na exploração da natureza só beneficiam, a curto prazo, os exploradores, enquanto produzem uma série de malefícios para uma grande parcela da população.
A forma de seleção dos fatos jornalísticos precisa considerar mais aquilo que impacta nosso futuro – e não apenas o presente. Uma visão de longo prazo é necessária porque as consequências parecem cada vez mais irreversíveis.
É importante que veículos alternativos tragam aquilo que não foi mostrado pela grande imprensa (é uma complementariedade desejável), porém, por outro lado, não podemos desobrigar que jornalistas em outros meios, que geralmente têm maior alcance, reflitam sobre os motivos de tantas questões serem reportadas quando não há muito mais a fazer.
*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.
Durante essa primeira semana de setembro, o Jornal Nacional dedicou quase seis minutos para falar bem do agronegócio, em duas reportagens. De segunda à sexta-feira, as queimadas que destroem os biomas Pantanal e Amazônia foram noticiadas em uma nota coberta de 39 segundos que apresentou dados das queimadas do mês de agosto, divulgadas pelo Inpe.
No sábado, dia cinco, o telejornal destinou um pouco mais de 5 minutos a pautas relativas ao meio ambiente, um tempo considerável quando falamos de jornalismo televisivo. Foram cerca de 40 segundos sobre uma operação contra garimpo ilegal no Pará, o mesmo tempo em uma nota sobre as causas dos incêndios no Pantanal, e uma reportagem de quase 4 minutos sobre as implicações do desmatamento na economia. Mesmo com esse tempo, o foco da emissora está nas questões econômicas. O Brasil retornou para recessão este ano, e entendo que é necessário falar sobre os impactos econômicos das queimadas, entretanto, também é preciso discutir sobre os fatores que contribuem para o aumento do desmatamento e apontar o agronegócio também como um vilão nessa história.
As reportagens sobre o agronegócio foram feitas pelo repórter Bruno Bortolozo, através da TV Centro América. afiliada da Rede Globo no Mato Grosso. A primeira , de segunda-feira, 31 de agosto, aborda a tecnologia utilizada no plantio de commodities. Com o auxílio de satélites e inteligência artificial, é possível saber exatamente qual a área mais produtiva da propriedade e qual necessita maior cuidado. Com a umidade sendo monitorada, as máquinas são programadas a parar quando está muito seco, devido ao risco de incêndio na plantação. Um dos entrevistados, o engenheiro de sistemas Flávio Tarasoff, um aplicativo para monitorar a produção de alimentos/bens desde a origem, devido ao aumento da preocupação com o respeito aos protocolos “ambientalmente sustentáveis” e com a comprovação de que o produto não é proveniente de área de desmate ou reserva indígena”. Entretanto, mesmo que a fala de Tarasoff toque em alguns pontos importantes, por ela estar isolada acaba não se destacando. Na própria fala também fica perceptível a prioridade com o mercado consumidor, e não o meio ambiente.
Na segunda reportagem, de quarta-feira, 02 de setembro, o foco é o crescimento das exportações para a China – o principal produto é a soja, mas a exportação de carne bovina deu um salto, e os pecuaristas preveem um aumento nas vendas de carne suína. William Bonner, quando chama a reportagem, coloca o setor agropecuário quase como um modelo ao elogiar a sua resistência frente ao impacto da pandemia.
As notas sobre as queimadas, nas edições de terça-feira, dia 1º de setembro, e de sábado, dia 05 de setembro, são breves e não apontam as causas. A primeira nota apresenta os dados que indicam que este foi o pior mês de agosto em número de queimadas no Pantanal em 14 anos, segundo o Inpe. As queimadas na Amazônia no mês de agosto foram a segundas piores dos últimos nove anos, atrás apenas de 2019. A segunda nota aponta o resultado de perícias iniciais das queimadas no MT que culpam, em grande parte, as ações humanas. A nota não indica quais são as causas apontadas pela perícia, as quais podemos ver nessa matéria da Agência Brasil. Na Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal (RPPN) , o incêndio foi causado para a criação de área de pasto para gado (algo que vimos nas queimadas da Amazônia no ano passado), já em local chamado de Fazenda São José, a fogo foi provocado para a extração de mel. Alguns incêndios foram acidentais, mas também causados pela ação do homem e/ou do agronegócio, como é possível perceber em máquinas agrícolas que pegaram fogo e em acidentes de carro. Existe também a possibilidade de que as secas que auxiliam o fogo serem resultado da atual Emergência Climática, como apontado por pesquisadores nesta reportagem da BBC News Brasil, embora afirmem que ainda são necessários alguns anos para entender a atual estiagem.
A única reportagem do Jornal Nacional que discute as queimadas mais do que 40 segundos já apresenta uma visão capitalista: os investimentos estrangeiros diminuíram. A destruição das florestas é lamentada, não pela perda da biodiversidade, ou pelo impacto no clima, ou até mesmo devido ao prejuízo cultural dos povos indígenas, mas sim em razão da perda do dinheiro estrangeiro. Os fundos de investimento cobram maior fiscalização do governo, entretanto, a reportagem não cita o agronegócio como um causador do desmatamento, sobre o qual podemos ver nesta reportagem da Mongabay . Constato uma triste ironia, a chamada do âncora cita o Dia da Amazônia, 05 de setembro, uma justificativa para pautar sobre o meio ambiente. O Jornal Nacional, nessa semana, não promoveu uma ligação entre as queimadas e o agronegócio, mesmo quando os entrevistados citaram o perigo de máquinas agrícolas pegarem fogo. É necessário entender que o agronegócio não é um exemplo para o Brasil, como aponta a segunda reportagem aqui mencionada. Ele é um dos causadores do afastamento de investimentos estrangeiros, mas a perda não é somente econômica. As florestas do Pantanal e da Amazônia continuam a arder, para em breve, virarem pasto e monoculturas.
*Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Hoje, 5 de setembro, é o Dia da Amazônia. A data, que não podemos, no atual contexto (e mesmo no passado), chamar de comemorativa, pode ser aproveitada pelas diferentes instâncias da sociedade, e especialmente pelo jornalismo, não só para reaquecer o debate sobre a maior floresta tropical do mundo, mas para trazer “novas” abordagens para além de dados e denuncismo. Não basta falar de quantidade de hectares destruídos, queimada, desmatamento, extermínio de fauna e conflitos por território, é preciso que diferentes vozes se somem a esse grito.
Quando falamos em novas ou outras vozes, queremos dizer dar espaço para fontes além das oficiais. Ouvir autoridades de governo, instituições representativas e acadêmicas, sim. Mas ouvir a população local, povos nativos e detentores de outros saberes que não os institucionais. E mais: na balança informativa – que vem falhando historicamente – cabe considerar que conceder espaço de fala a um governante e a um indígena, por exemplo, não garante equanimidade. Até mesmo essa proporção precisa ser repensada para atingir o equilíbrio.
Artigo recente publicado no site Le Monde – Diplomatique Brasil, intitulado “A Amazônia e o antiambientalismo de resultados”, é um bom exemplo de como romper com a monofonia e o olhar cartesiano para o assunto. O artigo não foi escrito por um jornalista, mas tem espaço em um site jornalístico, o que é bem-vindo, para começar. Trata-se do resultado de uma reflexão proposta por um acadêmico, Henri Acselrad, que traz uma mirada ainda pouco explorada pela mídia hegemônica. Logo de começo, o autor faz uma provocação importante.
“Tem-se discutido menos, porém, o papel dos povos indígenas na preservação dessa floresta, na luta secular para protegê-la com seus conhecimentos e sua cultura material e imaterial – povos cujos direitos estão sendo ameaçados, hoje, a partir de ações gestadas de dentro mesmo da máquina governamental.”
Fonte: Captura de tela do site Le Monde Diplomatique
Ele questiona e evidencia a lógica dominante, que considera a preservação do meio ambiente e a presença de povos indígenas um entrave ao desenvolvimento (leia-se geração de lucro). Além disso, traz uma leitura a partir da história, recuperando informações importantes para pensar criticamente a questão da exploração da Amazônia. O tom é franco, algo muito necessário em meio a um mar de uma retórica pro forma, e pode soar duro até.
“O que dizem os atuais governantes é que não importa o indígena, nem a árvore; menos ainda as relações entre eles. Importa só o minério, as terras e as águas como matéria e espaço para a obtenção de lucros e divisas.”
Aqui voltamos ao papel educativo/informativo do jornalismo. Para estimular uma ação com força de mudança, para provocar inquietação e incômodo em que lê/assiste, é preciso, por óbvio, contar mais do que usualmente é contado. É preciso contexto e reiteração.Há inúmeros outros aspectos necessários abordados ao longo da crítica. Destacamos a discussão sobre o antiambientalismo liberal, que tomou força no Brasil com a eleição do atual presidente.
“O antiambientalismo liberal é aquele que alega que quanto mais liberdade houver para as corporações, mais dinheiro elas ganharão e mais recursos restarão, supostamente, para a proteção ambiental.”
A lógica que busca desconstruir as regulações sobre o meio ambiente, pautadas, em muito, num racismo ambiental, é um assunto denso, mas pertinente e que tem fugido das pautas diárias. Quando surgem, descolados do todo, em pouco mobilizam. Ao contrário, provocam a inércia de que nada se pode fazer para refrear o que está posto. O artigo publicado no Le Monde é, acreditamos, um convite importante neste Dia da Amazônia. Não para uma comemoração, como dissemos, mas para uma participação mais efetiva na disseminação de informação qualificada sobre nossa floresta.
*Jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
** Jornalista, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com*
Uma parte da história do jornalismo de qualidade acerca das questões socioambientais passa pelo trabalho dedicado de Washington Novaes, falecido em 25 de agosto, aos 86 anos, em Goiás. Um profissional que sugeriu caminhos e acompanhou diferentes fases da abordagem do tema no país. Em seu percurso, soube bem como abrir espaço e ajudar a pensar a cobertura sobre meio ambiente em distintos contextos.
Na atualidade, os problemas ambientais são reconhecidos publicamente pela dinâmica social na qual se inserem e pelo modo como ingressam nas agendas globais e nacionais, exigindo atenção jornalística mais cuidadosa. O cenário de riscos, que afeta todos os modos de vida, tornou impossível não reconhecer que o esforço deve vir também dos jornalistas. Novaes, podemos arriscar, é nome central para pensar viéses de atuação nesse cenário. Apesar dos distintos entraves e desafios, o lugar do jornalismo sobre meio ambiente no Brasil deve muito ao que Washington Novaes produziu, e como ele realizou a proposta jornalística que tinha em mente, em uma intencionalidade clara e embasada.
Na internet, uma rápida busca pelo nome do jornalista nos levará a diferentes contribuições, seja fazendo jornalismo, seja produzindo crítica ou opinião, em um esforço continuado pelo bom debate. Era um defensor de que o jornalista buscasse formar seu repertório para atuação. E a despeito do intenso trabalho com temáticas ambientais e socioambientais, chegou a declarar, certa vez, que não se considerava um jornalista especializado em meio ambiente: “Eu sou jornalista, como sempre fui. Mas tenho uma história de vida e de profissão que me levou a um interesse cada vez maior por isso ”.
A declaração, assim como a frase que dá título ao presente texto, estão no episódio “Meio ambiente: a mídia ainda de olhos fechados”, exibido pelo Observatório da Imprensa em 12 de junho de 2012, às portas de mais uma Conferência da ONU sobre Meio Ambiente, novamente no Brasil, a Rio+20 (vídeo a seguir). Algum tempo depois, em entrevista para as jornalistas Paula Chamorro e Mônica Ribeiro, elaborou sua crítica em termos semelhantes: “Eu sempre tento esclarecer que não sou ambientalista. Eu sou jornalista, e se trato muito dessas questões é porque não há como isolar o meio ambiente do restante. O meio ambiente está em tudo que a gente faz, na nossa vida toda. Não pensar nas chamadas questões ambientais significa deixar os problemas crescerem, e esses problemas são cada vez maiores”.
“A gente sempre esbarra em uma mesma questão, que são as lógicas financeiras se sobrepondo às chamadas lógicas ambientais” – Washington Novaes
Em cerca de seis décadas de atuação, Washington Novaes foi colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Popular (GO). Na TV Cultura de São Paulo, foi supervisor de Biodiversidade e comentarista do programa Repórter Eco. Passou por diferentes funções nos jornais Folha de S. Paulo, Estado, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Última Hora, Correio da Manhã, e nas revistas Veja e Visão. Foi por sete anos editor-chefe do Globo Repórter, editor do Jornal Nacional e comentarista do Globo Ecologia, da Rede Globo. Como produtor independente de televisão, dirigiu as séries Xingu – a terra mágica, Kuarup, Pantanal e Xingu – a terra ameaçada, frutos de sua especialização em questões indígenas. Entre seus livros estão Xingu – uma flecha no coração (Brasiliense, 1985), A quem pertence a informação (Vozes, 1989) e A Década do Impasse – da Rio 92 à Rio+10 (Estação Liberdade, 2002). Recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Goiás (em 2009).
Em diferentes ocasiões, afirmou que o repórter que ingressa no tema ambiental tem de mudar sua visão de mundo e conhecer uma grande variedade de assuntos. Seu olhar atento também desafiava a repensar a cobertura corrente: “Se a imprensa resolvesse levar a sério a questão ambiental, teria que mudar toda a cobertura”, comentou certa vez. Seu trânsito por meios de referência e o tempo de profissão permitiam uma análise mais conjuntural. No episódio do Observatório da Imprensa, conversando com Alberto Dines, outro grande nome do jornalismo e da crítica à imprensa, Washington Novaes sintetizou um dos entraves no tratamento mais adequado do tema ambiental no Brasil, o conflito de interesses do mercado de comunicação:
Eu acho que os meios de comunicação, durante muito tempo, viram as questões sobre o meio ambiente como coisa de hippies ou de profetas do apocalipse. Hoje, se tem a consciência de que é quase impossível discutir qualquer tema sem levar o meio ambiente em conta, porque tudo o que o ser humano faz causa algum impacto sobre o meio ambiente. O problema é que isso atinge interesses poderosos e a mídia fica com medo de ferir esses interesses. Então tudo isso se torna bastante complicado.
Veja o episódio completo:
As alterações do clima, hoje tratadas como emergência climática, o crescimento da população, o caos urbano e aumento da demanda por matéria-prima, com exploração desenfreada do ambiente, além do desrespeito aos povos tradicionais, temas demasiado complexos e inter-relacionados, não condizem com a descontinuidade e a falta de aprofundamento. Em sua visão, o jornalismo carecia de uma abordagem mais assertiva: “A comunicação tem que dar uma sequência no debate sobre o meio ambiente e não ficar cobrindo apenas fatos episódicos”, fazendo referência ao abandono das abordagens findado seu suposto “ciclo”. Um outro trecho do programa ilustra esse pensamento. Na interação com Dines, Washington Novaes exemplifica a recorrente incorreção do jornalismo na abordagem das pautas ambientais:
Dines – E a imprensa tem medo…
Washington – É. E fica ali se equilibrando entre as contas e um outro problema, esse você conhecDines – E a imprensa tem medo…e bem, que é a falta de continuidade no tratamento das questões. Noticia num primeiro momento em que há um impacto.
Alberto Dines – Como agora, nesse momento [à época, vésperas da Rio+20]
Washington Novaes – … e depois esquece totalmente. Que é que está tratando, por exemplo, das consequências dos desastres climáticos na região serrana do Rio de Janeiro há mais de um ano [falando em 2012]. Quem está indo lá ver o que está acontecendo, o que foi feito para resolver? […] Não há sequência e os problemas vão acontecendo. Por exemplo, ninguém viu que 400 mil pessoas ocuparam as margens das represas de abastecimento de água de São Paulo, em áreas ilegais. Ninguém viu isso? E de repente vira um problema enorme. Como você faz com 400 mil pessoas ali, sem redes de esgotos, despejando esgoto e lixo na beira do manancial.
A atenção respeitosa com as temáticas indígenas foi traço marcante em toda sua trajetória, em especial no trabalho em livros e no audiovisual. Novaes sublinhava a necessidade de respeito e profundo reconhecimento ao modo de vida e aos ensinamentos dos povos tradicionais. Por tal esforço, quando no centro do programa Roda Viva (TV Cultura), no ano 2000, recebeu um questionamento do então senador Blairo Maggi, sobre se teríamos de passar a viver como indígenas, se esta seria sua opinião. Washington Novaes rapidamente contestou: “Não, nós não teríamos competência para isso. Mas nós poderíamos aprender com eles”.
O exemplo de Washington Novaes é demasiado importante para ser resumido, cabendo recomendar o estudo de sua produção. Mas podemos ter sempre em conta que seu trabalho e sua obra compreendem um gesto de repensar constante do jornalismo por um princípio ecológico, justamente na potencialidade geradora que o fundamenta, em lógica dialética. Emerge um sentido cidadão e adequado ao tempo que vivemos, capaz de contemplar o cenário de exigências que se desenha para as práticas jornalísticas e o tema ambiental.
Notícias sobre acontecimentos que ameaçam ecossistemas e o bem-estar das populações humanas, em plena pandemia, deveriam ser recebidas com preocupação e suscitar o debate público sobre as estratégias políticas para o enfrentamento de crises que se sobrepõem. Assusta, por exemplo, que fatos como o crescimento de registros de supressão da vegetação nativa na Amazônia soem repetidos diante da recorrência de crimes ambientais incentivados pelo próprio governo federal.
Publicada em 19 de agosto, um ano após os incêndios criminosos na Amazônia dominarem o noticiário nacional com a chegada da nuvem de fumaça à cidade de São Paulo, reportagem de Carolina Dantas para o G1 informa sobre as queimadas que têm ameaçado os biomas Pantanal e Amazônia nas últimas semanas. A produção contextualiza o impacto do fogo de acordo com o ecossistema afetado. Também recorre a infográficos para auxiliar na visualização dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Especiais e recupera informações veiculadas em outras emissões da Rede Globo, como Jornal Nacional e Fantástico. A relação entre os efeitos das queimadas na saúde humana também apareceu em G1 nesta semana, mas através de conteúdos produzidos por agências, como esta notícia da Reuters, assinada por Pedro Fonseca. O texto destaca estudo da Fundação Oswaldo Cruz sobre a probabilidade de aumento das doenças respiratórias na Amazônia, região já castigada pela Covid-19. O conjunto dos materiais de fato evidencia a gravidade da situação às leitoras e leitores do site.
Fonte: Captura de tela do site G1
No entanto, sentimos falta de um chamado à ação na cobertura. O que resta ao público além de lamentar o acúmulo de catástrofes? A menos de três meses do pleito que elegerá novos representantes nas Prefeituras e Câmaras de Vereadores, como o jornalismo pode pautar iniciativas ambientalmente responsáveis, de caráter preventivo, frente às campanhas políticas que estão por iniciar? Observando os conteúdos também publicados na editoria Natureza de G1 na mesma semana, uma possibilidade seria dar espaço às reivindicações dos indígenas Kayapó Mekrãgnotire, que realizam protesto na BR-163, no Pará. Afinal, a motivação dos ativistas indígenas tem a ver com os direitos negados a seu povo enquanto o incentivo ao progresso prioriza a construção de rotas para o escoamento de grãos produzidos em áreas com histórico de desmatamento e queimadas.
E, para evidenciar as conexões intrínsecas entre as questões ambientais, é necessário ir além do factual em matérias como a que reporta a liberação de novos agrotóxicos pelo Ministério da Agricultura em 20 de agosto. Aqui no Observatório, já falamos sobre o uso de venenos estar relacionado à lógica produtiva das monoculturas para exportação de commodities, atividade agroindustrial que motiva a degradação dos biomas brasileiros. Falta à cobertura jornalística destacar tais relações e evidenciar soluções, muitas das quais já emergem das próprias comunidades. Iniciativas como o cultivo de soja orgânica no Mato Grosso do Sul, conforme reportado por Brasil de Fato em 20 de agosto, poderiam ser abraçadas pelo poder público, mesmo que em pequena escala, a fim de garantir uma produção ecológica de alimentos, que respeite os ecossistemas e garanta e comida de qualidade para a população.
Entendemos que o papel do jornalismo é cobrar ações mais contundentes dos governantes na resposta à pandemia e aos problemas sociais, ambientais e educacionais que a partir dela se intensificam. Mas também acreditamos que o jornalismo pode catalisar mudanças sociais ao visibilizar alternativas para um planeta em crise.
*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Imagem: Captura de tela – Capa do site em português da agência de notícias criada pelo ambientalista Rhett Ayers Butler para chamar a atenção sobre a importância social e ecológica das florestas tropicais
Roberto Villar Belmonte*
O jornalismo ambiental praticado no Brasil ganhou um reforço internacional. Desde 2019, a agência de notícias Mongabay começou a trabalhar com jornalistas brasileiros para cobrir no país mais megadiverso do planeta pautas sobre florestas tropicais, conservação, desmatamento, povos indígenas e infraestrutura.
Notícias ambientais para informar e transformar é o que promete o serviço de jornalismo independente criado pelo ambientalista estadunidense Rhett Ayers Butler, de 42 anos, atualmente com 500 correspondentes em 70 países e produções originais em inglês, indonésio, espanhol e português.
No seu site em português, a Mongabay diz que “visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento”.
O jornalismo ambiental com foco em conservação da vida silvestre não é inédito no Brasil. Esse também é o viés do site O Eco, criado em 2004, e da extinta revista Terra da Gente (2004-2014). A novidade é que a Mongabay chega em um momento de barbárie ecológica fomentada por um governo federal de extrema direita.
O fundador da Mongabay faz questão de dizer no site em inglês que não se posiciona acerca das controvérsias ambientais. Ela não seria uma organização que advoga em prol das florestas tropicais, mas uma agência de notícias que praticaria um jornalismo independente baseado em fatos.
Como a cobertura é especializada, não há uma publicação de conteúdo com a mesma frequência dos sites de hard news. No site em português, há praticamente uma publicação diária. O site sempre tem uma manchete principal e três destaques. E um detalhe importante: jornalistas colaboradores são pagos.
No sábado passado (15 ago. 2020), a manchete de capa era uma notícia sobre os dados mais recentes do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP): 242 focos de incêndio na Amazônia Legal brasileira entre 28 de maio e 12 de agosto, “quase a área do município de São Paulo”.
Entre os destaques, uma reportagem assinada pelo jornalista Dimas Marques, criador do site Fauna News, explicando “como funciona o comércio ilegal que transforma papagaios livres em pets”, publicada no dia 13 agosto. O crime aconteceria anualmente no bioma Cerrado entre agosto e novembro.
Em outro destaque na capa do site em português, Tiffany Higgins alerta: “O governo federal planeja escavar e dragar milhões de metros cúbicos de rochas e areia do Rio Tocantins no Pará – inclusive no delicado ecossistema conhecido como Pedral do Lourenço, habitat de espécies endêmicas de peixe”.
Mongabay foi lançado em 1999 como um site de divulgação científica sobre florestas tropicais. A transformação em agência de notícias internacional ganhou fôlego em 2012 com a contratação de uma equipe na Indonésia. Em 2016, Rhett Butler lançou o serviço em espanhol focado na América Latina e no ano passado chegou ao Brasil.
O nome Mongabay é uma homenagem do ambientalista Rhett Butller a uma pequena ilha (Nosy Mangabe) localizada no nordeste de Madagascar considerada um paraíso da vida silvestre. O logo da agência de notícias é inspirado em um pequeno lagarto (day gecko) que vive naquela região.
A Mongabay não é o único serviço estrangeiro que cobre meio ambiente no país. Pautas ambientais também fazem parte do noticiário da Agência Inter Press Service (IPS), El País Brasil, The Intercept Brasil, Le Monde Diplomatique Brasil, BBC Brasil e Deutsche Welle Brasil.
*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Uma imagem que lembra um cenário de guerra. Assim foi o momento da explosão em um depósito portuário de nitrato de amônio em Beirute, capital do Líbano. Assim também serão muitos dias para as milhares de pessoas afetadas pelo evento. Foram quase três mil toneladas da substância que viraram uma nuvem em formato de cogumelo, muito semelhante a uma bomba atômica. Acredite, isso não é uma coincidência.
O acontecimento tomou conta dos noticiários. Mídias impressas, televisivas, radiofônicas e digitais deram (e seguem dando) amplo espaço à questão, atendendo a critérios jornalísticos de noticiabilidade. O Jornal Nacional de 5 de agosto, um dia após a tragédia, dedicou 5 minutos – um tempo expressivo quando falamos de TV – ao assunto, mas, como a maioria dos veículos, não passou da superfície da notícia em sua abordagem.
Foi uma cobertura-padrão: o primeiro minuto e meio trouxe os números oficiais de mortos e feridos e uma sequência de imagens de agências de notícia sobre a explosão e os instantes seguintes. Depois, hipóteses para a explosão, o pronunciamento do governo libanês, segundo o qual o depósito estocava o material de forma incorreta há seis anos (seis anos!). Uma das preocupações, além da evidente destruição, são os problemas respiratórios que a liberação de gases vai causar. Aos que ainda têm suas casas, as autoridades estão pedindo que evitem sair.
Na sequência, o de sempre: mobilização internacional, mensagens de solidariedade, buscas por soterrados, prejuízos financeiros. Falou-se em instabilidade política e até em terrorismo. Mencionou-se a iminência de escassez de alimentos, reforçando o mito de que somente com as monoculturas de commodities, que acarretam ampla utilização de agroquímicos, é possível alimentar o mundo.
A essa altura, o leitor deve se perguntar “mas e o jornalismo ambiental?”, “não é este um observatório para analisar tópicos relativos ao tema?”. O nitrato de amônio é a base para muitos fertilizantes sintéticos amplamente utilizados em diferentes tipos de cultivo. Na continuação da matéria sobre o desastre em Beirute, durante mais quatro minutos, o Jornal Nacional apontou a substância, que tem nitrogênio em sua fórmula, como essencial para a agricultura. Para justificar sua utilização, apesar dos riscos, trouxe diferentes “vozes de autoridade”. Um engenheiro agrônomo e a ANDA – Associação Nacional de Difusão do Adubo – que definiram a substância como fundamental para a qualidade de vida das pessoas –, ambos defendendo o caráter comum, estável, seguro (supostamente mediante o manejo correto) do composto, cujas entrada no Brasil, estocagem, e manipulação são controladas pelo Exército.
Trabalhadores da indústria dos fertilizantes não foram ouvidos. Pessoas afetadas pela sua produção, incluindo por eventos como explosões, tampouco. Estudiosos que defendem a agroecologia, nem falar. Prevalece o viés da necessidade pela “segurança alimentar” e pela empregabilidade das pessoas. É a prevalência da lógica do “Agro é pop”, defendida pela emissora do programa em questão. Além disso, nada foi dito sobre a história dos fertilizantes, originalmente utilizados pela indústria bélica para a fabricação de bombas. Os “adubos” vieram somente depois, haja a vista a necessidade de lucro, encontrar utilidade para o produto e manter o negócio após a grandes guerras. É um caminho obscuro de interesses, lobbies e incontáveis mortes. Esses produtos, sem falar nos agrotóxicos utilizados em larga escala, estão na nossa mesa diariamente. Isso sequer tangenciou a cobertura.
Fonte: Captura de tela do Globoplay
Qual é a solução? É a realização de um jornalismo mais “alargado”, como propõem as discussões acerca do jornalismo ambiental. Afinal, quase todas as pautas são ambientais – habitamos este mundo e nossa existência está ancorada nos seus recursos (naturais). Começar questionando aquilo que é tido como “fato dado” é um ponto de partida importante. É pelo questionamento que se chega ao ímpeto de mudança, uma mudança com potencial de gerar real transformação.
Os valores-notícia são importantes, mas devem acompanhar o aperfeiçoamento e a busca por conhecimento por parte dos jornalistas. Não basta responder às perguntas “o quê, quem, como e onde”. Os “porquês” devem ser explorados com mais profundidade e compromisso com o papel/potencial educativo que as mídias de massa têm. A TV aberta, por exemplo, segue sendo a que tem maior alcance entre os brasileiros.
É preciso romper a superfície dos fatos. É preciso contar histórias mais completas, suscitar o debate, provocar a reflexão. Por ora, nesses quesitos, o jornalismo hegemônico, quase como um todo, tem falhado miseravelmente.
*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Há cerca de um mês, a palavra ciclone-bomba tornou-se comum nas conversas cotidianas dos brasileiros da Região Sul e no repertório do jornalismo. No dia 30 de junho, 12 pessoas morreram em Santa Catarina, Paraná, e Rio Grande do Sul, e outras milhares ficaram desalojadas devido ao vendaval que alcançou 168 km/h em alguns locais.
Uma semana depois, no dia 7 de julho, outro ciclone extratropical, mas de ventos menos intensos, provocou chuvas fortes no Estado gaúcho. Rios, já cheios do fenômeno anterior, transbordaram. No dia 11 de julho, 7,1 mil gaúchos estavam desalojados ou desabrigados e, até 20 de julho, 194 pessoas permaneciam fora de suas casas.
No centro do debate sobre a tragédia gerada por ambos os fenômenos – uma amostra de quadros que poderão ser cada vez mais comuns no futuro e que não podemos dissociar dos eventos que atingiram o Rio Grande do Sul – deveriam estar as mudanças do clima. Cabe lembrar que, há poucos meses, uma estiagem, abordada por Ângela Camana neste Observatório, impactava, ao menos, 70% dos municípios do Estado.
Embora não haja consenso científico sobre esses fenômenos meteorológicos decorrerem das mudanças climáticas, sabe-se que a alternância de situações extremas, da falta de chuva ao seu excesso, é um dos sinais que cientistas apontam estar relacionados às alterações do clima. Essa é uma das conclusões da reportagem de Zero Hora que indicou propostas possíveis para mitigar os efeitos desses desastres ambientais, como promover ações integradas entre prefeituras, construir estruturas públicas de absorção de água, oferecer programas de habitação para moradores de áreas de risco e usar tecnologias eficientes.
Inspirado na noção de jornalismo de soluções, que busca resoluções para problemas sociais, o texto de Zero Hora oferece ideias de caminhos que a gestão pública pode trilhar. Mas o problema é complexo e, sobretudo, humano. Os habitantes de áreas de risco, não têm suas vozes ecoadas na reportagem. O destaque coube a pesquisadores e autoridades da Defesa Civil. A falta de espaço aos atingidos pelas enchentes não se restringiu a essa matéria, mas pôde ser notado de modo reincidente na cobertura de diversos jornais da imprensa gaúcha.
Fonte: Lauro Alves para Agência RBS
Em notícia de 02 de julho, o Jornal do Comércio tratou dos impactos do ciclone-bomba com base nas informações da Defesa Civil, sem, no entanto, ouvir pessoas que presenciaram os momentos de pânico. No Correio do Povo, a cobertura da enchente na Capital Gaúcha foi mais ampla que a realizada no Vale dos Sinos. Ao passo que uma notícia sobre o desalojamento de famílias do arquipélago de Porto Alegre realizou entrevistas com as pessoas atingidas, outra matéria, também sobre famílias que sofreram com a inundação, agora em São Leopoldo, usou apenas as informações disponibilizadas pela secretaria municipal.
Desastres como esses, provam a necessidade de o jornalismo ver humanidade em cada número da Defesa Civil. Especialmente considerando a constância das enchentes nas bacias hidrográficas que abastecem o Guaíba, os dois ciclones não devem ser tratados como fenômenos traumáticos já superados, ou já saturados. São exemplos da necessidade de empenho da gestão pública quanto à mitigação, e de uma discussão mais aprofundada, no âmbito das notícias locais, que possibilite conectar a maior seca dos últimos anos, seguida, semanas depois, de uma enchente histórica, com as alterações climáticas que aí se manifestam.
As milhares de pessoas fora de casa no estado perderam bens, passaram frio, sofreram medo de saques em suas residências, sem esquecer, é claro, dos riscos em função da pandemia do Coronavírus. O jornalismo pode, mais do que contar a tragédia, se deixar impregnar pelos narrares de quem sofreu com a força dos ventos ou a invasão das águas em seus lares, ouvindo as suas demandas, e pautando, com maior complexidade, os desafios que esses fenômenos climáticos geram.
* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: mathias.lengert@gmail.com
Desde junho de 2018, conforme histórico publicado pelo site Globo Esporte, a cidade do Rio de Janeiro planeja a construção de um autódromo para receber as grandiosas competições internacionais de Fórmula 1. A construção do Autódromo de Deodoro está cercada de dúvidas e controvérsias, com atuação do Ministério Público Estadual e Federal indicando que a obra é contrária ao interesse público, na medida em que vai destruir parte de Mata Atlântica, protegida por lei, conforme artigo de Sônia Rabello republicado no Estadão. Em 18 de julho de 2020, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Tofolli, autorizou a realização de audiência pública, requisito necessário para o andamento do projeto. Em 22 de julho, a referida reunião foi marcada para 7 de agosto, em formato virtual.
A Floresta Camboatá então reapareceu no noticiário, com as ressalvas trazidas pelos movimentos ambientalistas, que indicam a completa falta de senso ao propor uma obra de tamanho impacto junto a uma floresta que está descrita pela revista Piauí como “uma área de 2 milhões de metros quadrados, no subúrbio carioca de Marechal Deodoro, onde habitam capivaras, tatus, guaxinins, jacarés, papagaios, corujas e pelo menos 180 mil árvores (há dezoito espécies em extinção, de acordo com uma listagem municipal).” Além disso, a realização de audiências é prevista na legislação para dar oportunidade de participação social nas ações relacionadas ao meio ambiente com uma discussão qualificada do relatório de impacto ambiental. Em meio à pandemia e em formato virtual, este modelo atende a essa previsão legal?
Sobre a Floresta Camboatá, poucos veículos estão de fato repercutindo, com algumas exceções, especialmente pelo trabalho das reportagens da Piauí que acompanha com detalhes o envolvimento do poder público e da política (prefeito, governador e presidente concordam com a obra), do consórcio Rio Motorsports e do grupo Movimento SOS Floresta do Camboatá e do Ministério Público. O jornalismo de forma geral segue o caminho factual e repercute os pontos em que aos agentes públicos agem em relação às pautas.
Além do ataque à Floresta Camboatá, quantos outros projetos estão tramitando para a destruição ambiental? Como dar conta desta crise em meio a tantas outras? Em 18 de julho, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) completou 20 anos, e a notícia foi dada apenas em mídias ambientais, como O Eco, que destacou a destruição ambiental em curso: “Um dos golpes mais duros propostos foi recortar em uma tacada só 60 unidades de conservação para acomodar a construção de estradas, ferrovias, portos e aeroportos”.
Entre outros exemplos e denúncias, observamos que o desministro Salles segue firme tentando fazer passar a boiada (leia aqui a crítica do Observatório feita pelo colega Roberto Belmonte). Com estes dois temas (Camboatá e SNUC) confirmamos o papel fundamental das mídias ambientais e do jornalismo especializado em meio ambiente para enfrentar o desmonte das políticas ambientais. Aprofundar e qualificar o debate é função social do jornalismo, o que envolve, cada mais mais, tanto a busca da informação relevante quanto o enfrentamento à desinformação. A propósito, destacamos uma iniciativa recente: a criação de um consórcio contra a desinformação ambiental – o chamado ‘Fakebook.eco’, lançado em junho, com o objetivo de checar mitos, discursos de autoridades públicas e informações falsas que circulam sobre a temática. Trabalho não vai faltar.
*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: claudia.moraes@ufsm.br